Não vou falar nenhuma novidade. Até porque a filosofia está acostumada a produzir o novidades apresentando o óbvio.

Vejamos Heráclito, o obscuro, por exemplo, afirmando em algum momento entre 535 a.C. e 457 a.C. que o Sol tem o tamanho de um pé humano. Que para os éfesos, bem como para os gregos em geral, o Sol tivesse um tamanho diminuto, ora, isto era óbvio. Mas qual tamanho? Bem, para isso há de se passar o ridículo de deitar-se à grama, levantar o pé ao céu e medir com o olho.

A filosofia se fez e se faz neste ridículo de olhar o óbvio, dizê-lo ou desdizê-lo, pois que o processo é fundamental. Há de se ter algum tipo de inconformidade com o vazio da  resposta quando se pergunta o tamanho do Sol: “ora, ele é pequeno, não está vendo?”

Pequeno quanto? Só pequeno, não responde. Da falta de resposta, o ridículo. E o filósofo é sim, figura ridícula.

Mas do que estou a tratar aqui junto a Heráclito?

Do óbvio que é falar que nossa geração é e está (aqui, ambos os verbos se confundem mas não se misturam) perdida com as redes sociais. Não com a internet, pois nos jurássicos anos 2000 havia internet e meio mundo se perguntava qual a função disto. Mesmo o Google demorou um certo tempo para emplacar sua razão de existir.

Eu sai do Facebook e de outras redes sociais por um mês. Reativei minha conta para poder cuidar da página do Cinesofia, mesmo sabendo tão pouco sobre o como cuidar de uma página. E este mês foi uma experiência interessante.

Neste período conheci o Tumblr (que diga-se de passagem estou gostando) e pude perceber algumas obviedades observando algumas imagens da obra 365 Days of Daydream, do artista sul coreano 9Jedit (também conhecido como 제딧).

9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 133/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 324/365 from 365 Days of Daydream, 2018  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 267/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 141/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 169/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 253/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings9Jedit aka 제딧 (Korean, South Korea) - 107/365 from 365 Days of Daydream, 2017  Digital Arts: Paintings

As achei muito bonitas, mas a barra de rolagem do mouse não parava de descer, mais ou menos como você acabou de fazer. Esqueci de parar  um minuto ou dois para observar algo que eu mesmo achei bonito. E eu não estava fazendo absolutamente nada importante, somente vendo o feed do Tumblr. Inversamente, quantas e quantas vezes eu parei algo importante para brigar em rede social por besteira? Para discutir com uma massa amorfa de ignorantes?

As rede sociais tem nos impedido de viver uma vida bela, e aqui pode nos ajudar escutar Epicuro quando diz que “convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos”. Livrar-nos em igual medida daquilo que nos atormenta o corpo (alcançando a aponia) e o espírito (alcançando a ataraxia).

A sensação clara que tenho dentro do Facebook, do Instagram e etc após alguns minutos vendo o que há por lá, é de afogamento. Como se eu estivesse sufocado, pressionado e sem chão. Não sei porque, mas preciso ver o que um total desconhecido escreveu sobre meu comentário em um post que não diz absolutamente nada de importante sobre minha vida. Faça o teste: busque de cabeça em quais discussões em redes sociais você entrou no dia 07/01/2018 e falhe miseravelmente.

Você não se lembrará porque essas discussões são estúpidas e sem sentido. E a mente joga fora só o que não tem sentido. Nossa perdição tem sido acreditar que nossas opiniões formadas sobre tudo, são tão importantes e inteligentes que não podemos mais guardá-las para si e pensar sobre a questão.

Foi Marx quem disse que não basta compreender o mundo, é preciso mudá-lo. E ele não está errado quanto a isso. Mas o Facebook tem 1.7 bilhão de pessoas acreditando que podem mudar o mundo com um post para “desconstruir” ou “problematizar” alguma coisa qualquer. E o mundo, veja só, continua o mesmo, só que pior.

É preciso pensar. Pensar mais, refletir em silêncio por longos momentos e jogar fora todas as certezas. Filosofia é isto: jogar para o alto todas as perguntas e se virar com as respostas.

E se as respostas encontradas não lhe fizer sentido, se forem estranhas, complexas, irritantes, agredirem seu senso ético e moral, desafiarem seus dogmas religiosos, te tirar a paz dos tolos, tanto melhor.

 

PS. As férias de 2017/2018 do Cinesofia foram longas, nós sabemos. Mas foram necessárias. Estávamos exaustos e queríamos pensar para onde levar o Cinesofia para que ele não se tornasse uma cópia do Omelete ou do Jovem Nerd. Acredito que conseguimos, mas vamos testar isto na prática. Obrigado por ter nos acompanhado até aqui!

 

Participe da conversa! 6 comentários

  1. Adorei. Vou fazer o teste. Rsrs

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    • Vale muito a pena Daniele!
      Como eu disse, eu voltei ai Face para administrar a página do Cinesofia, mas hoje eu não comento em postagens que me incomodam e também moderei o grau de exposição de minha intimidade.
      Também parei de ter contato com coisas que me faziam mal antes.
      É algo que recomendo a todos!

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  2. Muito bom!!!👏👏👏
    Parabéns pelo direcionamento da página!

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  3. Eu já pensei seriamente em sair do FB. Depois de alguma reflexão e conversa com uma amiga filosofa, resolvi seguir a estratégia que ela usou para “burlar” os algoritmos e tornar a rede menos lesiva. Parei de seguir absolutamente todos os “amigos”. Apenas sigo páginas que me trazem algum conteúdo que seja importante pra mim. Jornais, sites específicos, e algumas páginas sérias para que eu tenha contraponto sobre o que eu acredito.

    A experiência tem sido agradável.

    Já havia lido outros artigos deste site, mas não sabia que tinha uma página. Vou seguir, pois os assuntos por aqui me interessam sobremaneira.

    Curtido por 1 pessoa

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Filosofia

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