13 de fevereiro de 2018

2018: Pathos, Krisis e Kairós.

2018 promete ser um ano histórico, como o foi os anos de 1822 (proclamação da Independência), 1898 (proclamação da República), 1964 (golpe militar) e 2016 (golpe jurídico parlamentar). E por favor, coloque muitas aspas nas duas proclamações.

As promessas de 2018 são a de um ano capaz de nos exacerbar as paixões – principalmente políticas – a ponto de corrompe-las, pois que, pathos,tem sua raiz  na terminologia grega, pathos, que pode significar paixão, sentimento, sofrimento, doença, excesso ou catástrofe. Quando não, tudo isto junto.

Para Michael Mayer¹, pathos significa afecção ou qualidade da substância, e afecção significa qualidade do ser de poder ser alterado. Pathos poderia ser compreendido aqui, para meu propósito, como uma qualidade do indivíduo capaz de o conduzir a mudança e esta é sua tragédia, pois há de nos lembrarmos quando Aristóteles nos ensina no capítulo III de sua obra De Anima (Sobre o Espírito) sobre o que move nossas motivações: nos aproximarmos do Bem e nos afastarmos do Mal.

Mas como diabos saber, em 2018, exatamente o que são essas duas coisas? É Nietzsche quem escreve Além do Bem e do Mal, propondo que ambos precisam ser superados. Mas como serão superados se no Brasil sequer foram alcançados?

A escola de samba Paraíso do Tuiuti promoveu seu desfile de carnaval mostrando o que eles mesmos parecem ter chamados de “manifantoches“: manifestantes que foram manipulados para comportar-se como se comportaram naqueles anos próximos de 2014-2016. Não está em debate se eles acertaram ou erraram, seja a escola de samba com seu desfile, seja os manifestantes com seus protestos, mas sim que há ressentimento, remorso, culpa e arrependimento em todos os lados de nosso país.

O Brasil do primeiro semestre de 2013 não é o Brasil de hoje. Estas mudanças todas foram motivadas por sentimentos dos mais diversos, pela pathos, e como tal produziu sofrimento. Não raro ouço e leio de gente séria e não tão séria, que o país esta doente, afinal, pathos é doença também.

 

Se pathos nos ajuda a compreender um pouquinho sobre nossa caminhada até aqui, kairós nos ajuda a compreender porque iniciei o texto afirmando que 2018 é um ano de oportunidades. Porém, adianto, apenas se cumpridas algumas exigências.

Porque Kairós é o deus do tempo oportuno, tal e qual foi cantado por Íon de Quios em algum momento entre 490/480 a.C e 420 a.C. Kairós está em oposição a Chronos: onde o primeiro demarca tempo de modo qualitativo (é o tempo certo) o segundo marca apenas a passagem do tempo. Hipócrates ao ensinar medicina, dizia que as doenças evoluem durante um tempo (chronos) para então alcançarem seu momento crucial chamado krisis (crise).

É no momento de krisis é quando se define se a doença seguira rumo a cura ou não, e o bom médico é aquele que sabe identifica o momento oportuno, o kairós, e agir. Hipócrates ainda adverte que o momento oportuno não dura muito: é preciso estar atento pois ele há de passar e passar rápido.

2018 é nosso momento de krisis. É neste tempo que surge nosso kairós e é aqui que devemos nos posicionar de uma entre duas formas: ou sem pathos ou além do pathos.

Ou nós abandonamos as paixões e nossas definições de bem e mal, certo e errado, moral, ético, religioso e qualquer coisa que o valha, ou as superamos e nos posicionamos além disto. Ambas as coisas são difíceis, mas considero a primeira menos.

De qualquer forma temos a certeza de onde as paixões nos levaram. Não conheço um único brasileiro que está satisfeito com seu país. Do mesmo modo não conheço um brasileiro que diga “é possível que eu esteja errado no que acredito ser o melhor para o Brasil“.

E é em momentos assim que nós filósofos mostramos a que viemos. É nossa a tarefa de mostrar a idiotia, a tolice, a falta de reflexão. Seja com ironia, ao modo socrático, seja com o didatismo de Kant, seja com poesia, como fez Nietzsche, ou com circo, como faz Zizek.

Ou escrevendo como faço eu.

Não importa como. Importa que pensem, pois a tragédia se avizinha uma vez mais, e 2018 será histórico independentemente de como – ou se – sobreviveremos a ele.

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1. Michel Meyer. “Introdução”. In René Descartes. Les Passions de l âme. Colletion Le Livre de Poche. Classiques de la Philosophie. Paris:Librairie Générale Française, 1990.

 

 

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