Aproveitando que em meu último texto eu citei Foucault, vou seguir o baile e aproveitar o careca pra falar de outro assunto que me incomoda.

Um dos pontos abordados por Foucault em seus trabalhos de maturidade deriva do conceito de Panóptico, desenvolvido por outro filósofo chamado Jeremy Bentham. Traduzido ao pé da letra Panóptico significa muitos olhos e foi pensado por Bentham para ser aplicado em presídios como forma de melhor vigiar os detentos.

Grosso modo a ideia por trás do Panóptico é a de que você precisa ser vigiado dentro da cadeia durante todo o tempo em que lá estiver. Caso não seja possível ser vigiado constantemente, então criamos a sensação de que você o é. O medo e o receio de não saber estar sendo vigiado e monitorado acaba por fazer o indivíduo desenvolver o comportamento esperado pelo vigia. Não sabe se essa parada funciona? Pensa naquele adesivo brega: “Sorria: você pode estar sendo filmado”.

Mas Bentham é um iluminista do século XVIII escrevendo sobre prisões. Foucault aproveita o conceito e o aprimora desenvolvendo uma teoria sobre o como o poder se constrói em sociedade.

Em nossa sociedade, ninguém deseja as sombras, mas os holofotes. Ao contrários dos detentos de uma cadeia que buscam o anonimato, passar despercebido, todos nós queremos e/ou precisamos ser vistos o tempo todo por todo mundo. E então o outro se torna nosso vigia, capaz de nos premiar por um bom comportamento, ou punir por um mal comportamento.

Desta forma, buscando a recompensa do outro, moldamos nossos comportamentos e atitudes para satisfaze-lo o máximo de oportunidades possível. Nos tornamos então “bons filhos”, “bons trabalhadores”, “bons namorados”, “bons pais”, “bons doentes”, “bons mortos”. E esta é uma ferramenta de dominação muito mais eficiente do que punir alguém, diz Foucault. Pense: você se sente mais motivado a fazer algo quando é punido por não fazê-lo ou quando é recompensado por fazê-lo? Normalmente a recompensa é um motivador melhor que a punição. A criança estuda com mais vontade quando sabe que vai ganhar bicicleta no Natal do que para escapar da bronca do pai.

Até chegar um ponto onde você não precisa mais que alguém lhe ordene a ação: você a desejará por si próprio e acabará por acreditar que foi você quem, por si mesmo a escolheu fazer.

Mas para receber a recompensa é necessário ser visto, é importante lembrar.

Apenas dessa forma sua recompensa poderá aparecer também. E como recompensamos os mesmos comportamentos, dessa forma criamos uma individualidade pasteurizada, insossa, sem cheiro nem cor, tão ávida em querer ser diferente e ao mesmo tempo idêntica em tudo. O barbudinho hipster padrão. A modelo do crossfit padrão. O jogador de futebol padrão. O publicitário classe média padrão. A adolescente revoltada do Twitter padrão.

E para saciar o anonimato terrível em nossas vidas privadas, o Instagram aparece e resolve o problema. Agora basta tirar uma foto de você fazendo porra nenhuma e postar para mostrar que você está seguindo a manada.

Uma foto de você comendo algo impronunciável em algum lugar descolado (de preferência fora do país e com uma legenda clichê), assistindo uma nova série, tirando a mesma foto do pôr do sol que todo mundo já tirou, treinando na academia, mostrando a barriga tanquinho, a bunda malhada, o peito postiço, o botox na cara, tudo sem ruga, acordando de cabelo penteado, maquiado, com o sex appeal nas alturas, que é para mexer com a libido e a imaginação daquele adolescente espinhento que está louco para perder a virgindade. A recompensa é aquela chuva de like, 6k de curtida na foto, que é pra serotonina te dar um orgasmo no ego.

E então você se dá conta de que está autoexplorando sua imagem, e não apenas sua imagem: você está construindo uma identidade de si mesmo, onde você é produtor e produto numa fábrica de coisa nenhuma.

O resultado é um ser vazio de sentido e mutilado de todas as suas características únicas, individuais. Como eu disse lá em cima: abrir o Instagram é se deparar com uma massa sem cor e cheiro, com raríssimas exceções. Mas raríssimas mesmo.

Ter seu comportamento alterado pela curtida de um ser humano desconhecido é absurdo. A futilidade de figuras públicas que faziam absurdos para agradar seus fãs deixou de ser criticada para ser apreciada e desejada. Estamos em um ponto estranho da História onde deseja-se e vive-se o absurdo.

Então faça um favor a si mesmo: pense sobre o que realmente lhe é importante, sobre quem você acredita ser e qual tipo de desejo você possui. E se ninguém curtir suas resposta sobre o que lhe importa, quem você é e o que deseja, agradeça ao seu deus por isso.

Você está no caminho certo.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Games

Tags

, ,