19 de fevereiro de 2018

Merlí – Peripatéticos

Como prometido, vamos começar com os textos abordando os filósofos e os conceitos que aparecem na série Merlí, da Netflix, que para quem não sabe é sobre um professor de filosofia de ensino médio que usa métodos bastante diferentes para fazer seus alunos se apaixonarem por filosofia. É basicamente uma série sobre mim mesmo.

O primeiro episódio é sobre os peripatéticos, alunos da escola do maior filósofo de todos os tempos: Aristóteles. Sim, o maior. Eu adoro Nietzsche;Zizek é extremamente difícil; Arendt é fantástica, mas Aristóteles é o maior. Mesmo quando comparado com os outros grandes Platão e Sócrates, Aristóteles se destaca.

Aristóteles escreveu – e escreveu MUITO BEM – sobre lógica, física, óptica, química, astronomia, biologia, metafísica, psicologia, ética, retórica, música, poética, arte e política. No que diz respeito a lógica, dá pra dizer que foi Aristóteles quem desenvolveu a lógica que temos atualmente. Seu modelo político é referencial até hoje para filósofos como John Rawls (ex professor de Harvard) e Hannah Arendt, uma das maiores do século XX. É considerado como o fundador das ciências como disciplinas e no campo da biologia estudou cerca de 400 animais, os tendo classificado e dissecado cerca de 50 deles. Segundo alguns biólogos da atualidade, foi Aristóteles quem “descobriu” o DNA, por ele identificar a forma, isto é, o eidos preexistente no pai que é reproduzido na prole

Só isso.

Mas porque Merlí começa com um episódio sobre Aristóteles? Porque Merlí da aula se espelhando no modelo da escola aristotélica: o modelo peripatético (em grego clássico: περιπατητικός) que é a palavra grega para ambulante, ou itinerante, onde as aulas aconteciam ao ar livre, enquanto andavam, caminhavam. Aliás, é assim que Merlí chama seus alunos, de peripatéticos. E temos entre os peripatéticos famosos, Teofrasto, Estratão de Lâmpsaco e Satyrus de Callatis, todos ligados de uma forma ou de outra a Aristóteles.

O que está por trás deste modelo é a ideia de que a filosofia precisa de alguns fundamentos para existir: ela não pode estar trancafiada, precisa de estímulos externos, necessita de tempo, debate, diálogo e está atenta ao mundo que conhecemos e vivemos. A filosofia nasce da observação e questionamentos que fazemos sobre o mundo a nossa volta. E basta uma espiada pela janela para saber que este mundo levanta muitos questionamentos: porque existe pobreza se o dinheiro é invenção humana? Porque o horário de trabalho é das 8:00 as 18:00, se ninguém gosta de trabalhar tanto? Porque almoçamos ao meio dia e não quando temos fome? Porque se trabalha de calça jeans, ou terno e gravata se nosso país é tropical e faz um calor absurdo? E etc. As perguntas são infinitas. 

E mais importante que as perguntas, Merlí ensina logo no primeiro episódio que é muito importante que aquele que faz a pergunta pense sobre sua dúvida. Pol Rubio, um dos alunos o questiona sobre ser possível todos filosofarem, enquanto estão todos, alunos e Merlí, caminhando pela cozinha do colégio. Merlí então para e pensa por um longo momento, ao que todos estranham. Após o estranhamento dos alunos (porque afinal a filosofia é coisa estranha) ele responde que seu silêncio foi exatamente para mostrar o quanto achamos estranho alguém pensar antes de falar. Ainda mais em tempos como os nossos onde tudo é imediato, temos que ter respostas para tudo e o importante é lacrar. E por fim responde aquilo que eu cansei de responder aos meus alunos: “E você, o que pensa sobre isso?”

Porque filosofia se trata de jogar perguntas para o ar e ver o que cai ao chão.

Entretanto um modelo de aula como esse só é possível, se o professor enxergar seu aluno como seu companheiro no processo de aprendizagem e se houver de fato aquilo que Aristóteles chama de philia (em grego: φιλíα) em sua obra Ética a Nicômaco: um sentimento de amizade ou mesmo de amor entre os participantes. Há philia onde há um relacionamento que envolva o bem com o outro de modo recíproco. Aristóteles é claro ao dizer que há philia entre um pai e seu filho, um sapateiro e o comprador de sapato, os membros de uma religião e, porque não, entre professor e aluno.  O método de Merlí, assim como o de Aristóteles e assim como o meu, envolve criar um senso de troca pela via do sentimento. E é por acreditar neste modelo que Merlí acaba se desentendo com Eugeni Bosch, um clássico professor de literatura que enxerga seus alunos como adversários, como um problema, classificando os estudantes entre bons e ruins de acordo com as notas de seus boletins. Nada mais antifilosófico do que a classificação vazia de seres humanos através de notas que podem ser obtidas de qualquer forma, inclusive colando. 

É interessante inclusive neste primeiro episódio que a relação entre Merlí e seu filho Bruno, seja péssima e que está vá se transformando lentamente através da filosofia quando pai e filho se tornam professor e aluno no mesmo colégio. Fica a impressão que  primeiro Bruno precisa se tornar um peripatético, carregar consigo a filosofia e seus questionamentos e forma de raciocínio pelas ruas e pela vida, para então compreender os hábitos estranhos e gênio difícil de seu pai, Merlí. É como se a philia construída através do método aristotélico fosse capaz de conectá-los.

Ao fim do episódio fica a sensação óbvia de que a filosofia não é apenas importante, mas sim necessária e fundamental em um mundo tão preocupado com frivolidades como filtro de Instagram ou seguidores no Twitter e que os gregos, tão distante de nós – ao menos 2.500 anos – ainda tem muito a nos ensinar sobre o básico de nossas vidas.

Além do fato de que se você terminou o primeiro episódio e se inquietou, é sinal de que você está mais do que apto a se tornar também, filósofo.

 

 

Participe da conversa! 16 comentários

  1. Adorei o texto,Rafa!
    Parabéns!!

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  2. Excelente o texto, de fácil compreensão e nos mostra como a Filosofia é importante para nos fazer pensar, questionar e mudar, a nós mesmos, e propor mudanças para o mundo que nos cerca.Obrigada,Professor.

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  3. Gostei muito, cara, baita análise! Parabéns! Gostei bastante da série, apesar de o fim dela ser triste demais. Lembrei-me de você, do seu método pedagógico. E, com certeza, Merlí aprendeu com você rsrs! Ansioso pelos próximos textos!

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  4. Eu me apaixonei por Merlí. É uma série surpreendentemente bem feita e bem elaborada. Como gostaria que muita gente pensasse como Merlí, agisse como ele, explorasse o pensar no outro. O mundo seria tão melhor, as pessoas seriam melhores, as pessoas iriam se questionar , as pessoas iriam sempre se questionar .. Como seria ótimo se nossos professores explorassem a forma de pensar de nossos alunos desde pequenos. Como seríamos estes alunos : questionadores num mundo onde a maioria das pessoas são vazias , são seres não pensantes.
    Eu , que me lembre ,nunca vi uma série tão fascinanante até hoje. Ah!! Devo trem admitir que todos os personagens interpretam muito bem o seu papel. O professor Meli, nem se fala.

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    • Modéstia as favas, muito do que o Merli faz eu ja fazia como prof, por pensar do jeito exposto na série.
      Precisamos criar afetos melhores e somente então conhecimento com significado!
      Pessoas tem coração não parafusos pra se apertar até espanar!

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  5. Fantástico !!! Já terminei a série e agora revendo ! Parabéns pelo excelente texto 🙂

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  6. Que texto lindo, eu assisti a série e depois fui procurar mais sobre, aí encontrei o seu blog e me veio mais questionamentos ainda rs

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  7. Fantástico texto!
    Precisava de ajuda para entender alguns temas citados na série, mas não queria uma coisa entediante. Me deparei com esse texto, fascinante a forma como você descreve, fico feliz em saber que a sua forma de ensinar seja assim. Estou no segundo ano do ensino médio, sinto falta de aulas com um modo “Merlíana”. Tenho certeza que seus textos irão me ajudar muito!

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Filosofia, Séries

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