Política é um instrumento e uma tarefa humana e que, como tal, precisa se justificar. Porque é um erro crer que a política possui uma finalidade em si mesma, quer dizer, que precisamos de modo indiscutível de um sistema político. Mas ai você me pergunta como faríamos sem política para organizarmos nossas vidas, e eu lhe respondo que não sei. Sou filósofo e tenho liberdade para fazer as perguntas mais incômodas que sem mim você não seria capaz de pensar. Mas sei que precisamos justificar a existência de um sistema político, seja ele qual for, pois do contrário, a política não se justifica como instrumento. E a dupla Platão-Aristóteles, nos ensina sobre política bem como seus fundamentos e finalidades.

Na obra A República – um diálogo com Sócrates como personagem principal – temos a ideia defendida por Platão de que homens e a pólis (cidade) possuem a mesma estrutura tripartite. Os humanos são dotados de três almas: alma desejante, alma irascível e alma racional. A primeira alma representa desejos carnais e de sobrevivência, a segunda alma representa as emoções do corpo bem como a busca pela sobrevivência e a terceira alma é dedicada ao conhecimento.

 

Já a pólis possui três grupos de pessoas: produtores, artesãos e comerciantes que cuidam da sobrevivência material da pólis; os guardiões que são responsáveis por defender a pólis dos estrangeiros; e os governantes que administram e legislam. Há um entrelaçamento entre os grupos da pólis e dos homens de modo que, resumidamente, ela é protegida pelos guardiões e mantida pelos produtores. Já os administradores e legisladores precisam fazer uso da terceira alma, que é possuída apenas pelos filósofos, para poderem governar tendo em vista o conhecimento. E o conhecimento das coisas – da Justiça inclusive – é capaz de conduzir a pólis a uma vida boa. E assim a política se justifica: como uma organização social capaz de trazer Justiça, uma vida boa, defender seus cidadãos e produzir os bens de consumo da cidade para que todos tenham acesso a eles.

Aristóteles, em sua obra Política, composto de oito livros, defende que a política é uma ciência – passível portanto de estudo e atualização – cuja finalidade é a eudaimonia, também conhecida como felicidade humana – coletiva e individual. Sua finalidade portanto é fazer com que as instituições possuam formas capazes de assegurar ao cidadão da pólis uma vida feliz. Há em Aristóteles uma vergonhosa defesa da escravidão, de modo que deixemos esse assunto para outro dia. Por último, Aristóteles nos ensina que a felicidade está ligada à atividade humana em conformidade com a excelência. Seria como se ficássemos mais felizes a medida que fazemos melhor aquilo que nos da prazer. E a felicidade suprema está ligada ao ato de educar nossas vontades e atividades em conformidade com os princípios racionais da moderação, para que meus desejos não atrapalhem nem interfiram na felicidade de outrem.

E o que tudo isso tem a ver com o Luciano Huck ou com o Datena e outros candidatos a presidente que defendem abertamente coisas como fuzilar a favela da Rocinha, sendo bastante aplaudido inclusive?

O meu ponto aqui é que um modelo político como este não serve pra nada e se assim for será melhor que um bando de cães ou andorinhas fiquem com a faixa presidencial.

Não tenho nada a falar das pessoas Luciano Huck, Datena ou mesmo “aquele-que-não-deve-ser-nomeado”. Não os conheço, nunca apertei a mão de nenhum deles, tampouco olheis em seus olhos. Mas Luciano Huck não possui plataforma alguma de governo. Nenhuma, zero. Não dá pra dizer sequer que discordo dele, pois ele nada apresentou. Alguém sem plataforma de governo para a presidência não tem condições de nos defender, de nos prover alimentos e bens de consumo, de nos conduzir a uma vida justa, feliz e bem vivida. O mesmo se aplica a Datena.

No caso do candidato preferido da elite brasileira, aquele ex-militar, a coisa é um pouco diferente. Por favor, notem que eu não disse pior: disse diferente. Não é uma distinção moral ou qualitativa, mas conceitual do ponto de vista da política enquanto ciência.

Até agora o que sabemos de seu plano de governo se limita a dizer que policiais poderão matar bandidos com mais liberdade, acabar com os Direitos Humanos, com o estatuto do desarmamento, explorar nióbio e grafeno, o que é bem pouco se quer saber. O que me faz crer que ele possui ampla intenção de votos por outros motivos. Não porque ele será capaz de nos conduzir a uma vida mais feliz e digna, seja nos modelos aristotélicos ou platônicos, ou em quaisquer outros modelos.

Mas porque ele representa como ninguém, o vazio. E o vazio é a principal característica de nosso povo nessa época que vivemos.

O vazio não é bom nem ruim, ele não é nada. Não da pra debater, discutir, ou mesmo aproveitar algo do vazio. O vazio não oferece nada, não diz nada, não faz nada, não se conecta com nada. Vazio este que também pode ser notado, mas em menor grau, nas figuras de Huck e Datena como políticos.

De modo que quando aquele parlamentar do Rio do Janeiro se manifesta como candidato a presidente com grande intenção de voto, é preciso também pensar que tipo de povo é este. E eu lhe digo.

É um povo que admira o famoso “case de sucesso“: que admira o tio que comprou um HB20 2018 a vista, não importando se sua fábrica usa trabalho escravo de boliviano. Que inveja a vizinha que foi promovida, não importa se fazendo tráfico de influência. Que pede que o filho seja igual ao primo que se graduou com mérito em Direito, não importa se pagando caro para algum desconhecido fazer o TCC.

É um povo vazio porque não possui nenhum senso ético, mas que baba pelo sucesso. E isso, preciso dizer, não é exclusividade da direita. Nem da esquerda. É algo que nos acomete a quase todos, excluindo ai da fatura, os caras da Filosofia, Sociologia e etc. Esses inconvenientes que fazem perguntas e escrevem livros e artigos – como este – que não servem de muita coisa além de tirar a poeira de sua cabeça. Que te faz abrir um artigo pensando que vai ler aquilo que outros portais de notícias estão cansados de noticiar, quando na verdade quer é te ensinar um pouquinho que seja sobre política em Platão e Aristóteles. Porque nossa situação não vai mudar discutindo vacuidades e tolices, lacrando no Twitter ou fazendo comentários engraçaralhos no Facebook.

Vai mudar com leitura e reflexão. E se você não abre um livro sobre política sei lá há quanto tempo, se você só busca argumentos na internet, então é a internet que preciso subverter para te fazer pensar um pouco sobre o quanto o seu vazio e o do seu adversário político possuem em comum. Agora o que você vai fazer com a informação, é problema seu. Eu a trouxe, mesmo que ninguém tenha pedido.

Daqui em diante isso é problema seu.

 

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