20 de fevereiro de 2018

Merlí – Platão

O segundo episódio de Merlí trata do professor de Aristóteles, Platão (em grego antigo: Πλάτων), que embora seja famoso ainda permanece obscuro. Porque sejamos francos, tirando a expressão “amor platônico” o que você efetivamente conhece do filho de Perictione?

Por princípio podemos dizer que ele viveu entre 427/428 a.C e 348 a.C. A data de nascimento possui alguma inexatidão, sendo normalmente baseada em uma interpretação dúbia de um relato de Diógenes Laércio, historiador grego. Aliás, pouca gente sabe, mas o nome real de Platão é Arístocles, como seu avô. Seu apelido, Platão, significa algo como “grandalhão” e foi dado por seu professor de luta, Aristão de Argos.

Antes de se tornar aluno de Sócrates, Platão (ou Arístocles) estudou a doutrina de Heráclito através de Crátilo, seu primeiro professor. Somente então, após se desvincular da filosofia heraclitiana é que Platão começa a desenvolver seu próprio pensamento.

Na série Merlí, o pensamento platônico é desenvolvido a partir de uma rixa entre Merlí e Eugeni, sendo o primeiro professor de filosofia e o segundo professor de literatura. A rixa em si começa já no primeiro episódio, pois Eugeni enxerga os alunos como adversários ao passo que Merlí os enxerga como alguém próximo, como já escrevi aqui. Porém a rixa entre ambos se estende quando o diretor do colégio, Toni, pede que Eugeni vá ajudar o aluno Ivan que sofre de agorafobia, não conseguindo sair de casa. Pois Merlí atravessa a situação e ele mesmo vai até a casa de Ivan para tentar ajudá-lo. Quando Eugeni descobre, ambos acabam tendo um conflito, afinal Merlí, literalmente, se meteu onde não era chamado.

Mas o interessante aqui é o porque Merlí foi ajudar Ivan.

Ele o foi porque Ivan vive trancafiado dentro de casa e seu único contato com o mundo exterior é a internet, e a relação com a alegoria da caverna de Platão é perfeita. Para quem não conhece a alegoria da caverna (também conhecida como mito da caverna) é a ideia platônica onde algumas pessoas viveriam acorrentados dentro de uma caverna, e em frente essa caverna há um muro. Este muro impede que as pessoas enxerguem o exterior, e atrás da caverna queima uma fogueira que faz projetar sombras para o interior da caverna, de modo que tudo que os moradores da caverna enxergam são as sombras projetadas. E por não conhecerem nada além de sombras, pensam que as sombras são tudo que existe. Quando um desses moradores se liberta e foge da caverna, num primeiro momento é cegado pela luz do sol, para então se acostumar com a luz do dia e perceber não apenas como é o mundo real, mas que tudo que ele entendia como verdade era falso e vazio.

Ivan está na caverna que é seu apartamento e tudo que ele enxerga é o que chega até ele pela internet. A internet é ao mesmo tempo o muro e a fogueira, te impedindo de enxergar a vida real ao mesmo tempo que projeta sombras sobre sua vida. Sombras que você acredita ser real. Quantas vezes acontece de um meme – que sua bolha no Facebook vive postando e rindo – ser completamente desconhecido na sua sala de aula ou no seu ambiente de trabalho? Eu por exemplo, adoro Choque de Cultura, da TV Quase. Meu feed de notícias no Twitter é flodado com milhares de pessoas comentando cada vez que sai um episódio novo. Mas no mundo real, meus colegas de trabalho não fazem a mínima ideia do que se trata.

Merlí se mete no caso de Ivan portanto, porque é tarefa do filósofo tirar o sujeito de sua caverna. Como? Com luz, com conhecimento obtido através da filosofia. E este conhecimento é obtido de modo diferente de outras disciplinas, porque a filosofia em si é diferente de tudo o mais. Não existe nada tão apaixonante como a filosofia.

Com a filosofia é preciso estudo, debate, provocar e ser provocado. Há técnica de leitura, de discussão, de escrita. Não é todo mundo que está preparado para produzir filosofia, este é um ofício trabalhoso e bastante difícil. Mas ao mesmo tempo qualquer um que já tenha se perguntado o porque de algo já está a meio caminho de se tornar filósofo.

Daí nasce a principal queixa contra Merlí, da parte de Eugeni. E Merlí responde a essa queixa pedindo que seus alunos sabotem o concurso de poesia de Eugeni. E porque isso? Porque Platão era radicalmente contrário aos poetas, aos músicos, aos pintores, aos artistas em geral.

Na verdade Platão se opõe a poesia de modo bem enfático em sua obra República, dizendo que “do poeta diremos também que, nada sabe senão imitar”. O poeta se apropria da mímesis, para produzir cópias de sentimentos, sensações e etc. E a filosofia, segundo Platão, tem a tarefa de nos conduzir a Verdade, ao passo que a poesia nos afasta desta Verdade ao nos encantar através de um ardiloso jogo de palavras, nos fazendo se contentar com cópias de sentimentos, ao invés de sentimentos verdadeiros. Há também o fato de que os gregos aprendiam seu idioma através da poesia, em especial a poesia trágica como a de Hesíodo ou Homero. Platão nos diz que este caminho de aprendizagem é muito ruim, pois o conteúdo destas poesias é cheia de conteúdo acerca dos deuses gregos. Seria como se em pleno século XXI alfabetizássemos nossas crianças apenas com a leitura da Bíblia cristã ou do Alcorão.

De qualquer forma quando Merlí pede que os alunos sabotem o concurso de poesia, ele está fazendo algo que eu consigo imaginar perfeitamente o próprio Platão em pessoa fazendo. E a corrupção do concurso é apenas a construção de um poema coletivo, onde a turma toda compõe o poema, mas apenas um aluno o assina. Ao final a turma de Merlí fica com o segundo lugar no concurso e quando vão receber o prêmio, Merlí revela a verdade sobre o ocorrido, o que leva a outro problema entre os professores da escola, afinal, como pode um professor sabotar uma atividade escolar com os alunos? Isto não é antiético? É, sem dúvidas, antiético. Mas e se no processo de sabotagem, os alunos de uma turma inteira tenham se interessado por poesia, como jamais aconteceu? Ainda assim é antiético?

Aí meus caros, respondam vocês.

PS. Ao final deste episódio Merlí presenteia seu filho com um exemplar do livro O Banquete, de Platão. Para a maioria do público isso passou despercebido, mas um dos motivos de Merlí ter dado este livro a Bruno se deve ao fato de que Bruno é um homossexual, ainda enrustido, e Platão declarar abertamente que “o amor acontece entre os homens”. Seria uma forma de tentar fazer com que seu filho aceite sua homossexualidade e a viva plenamente sem medos e angústias, através da filosofia.

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Muito bom! Parabéns.

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Filosofia, Séries

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