23 de fevereiro de 2018

Merlí – Maquiavel

Escrevi sobre Maquiavel e nosso presidente Michel Temer aqui. Então me permito focar um pouco mais no episódio em que Merlí rouba uma prova para ajudar seu filho em um teste de literatura.

O terceiro episódio desta primeira temporada tem como enfoque o pensamento maquiavélico e se desenvolve em três núcleos: a relação Merlí com a mãe de GerardGina Castells; a relação de Merlí com Ivan, seu aluno com agorafobia; e a relação de Gerard com a aluna recém chegada, Monica de Villamore. Obviamente todas estas três relações são costuradas a partir dos princípios da filosofia política de Maquiavel, o filósofo tema do episódio.

A relação de Merlí com Gina se inicia com ela o elogiando por ser um bom professor para seu filho, ainda que de uma disciplina como filosofia, desimportante quando comparada a disciplinas como matemática ou literatura. O confronto é inevitável, e eu sei disso por conta própria. Em minha experiência como professor de filosofia foram incontáveis as vezes em que tive que defender minha disciplina, pois de modo direto ou indireto, o que se tem é seu descrédito na sociedade, seja por ter menos períodos semanais de aula que matemática, seja porque qualquer pessoa se acha no direito de fazer filosofia mesmo sem jamais ter lido algo relativamente simples como Tratado da Natureza Humana de David Hume, filósofo escocês.

A aproximação entre Merlí e Gina se dá por utilitarismo: Merlí é útil a Gina como professor de seu filho. Sua utilidade entretanto é abalada quando Gina e seu filho debatem sobre o uso do dinheiro da pensão que o pai de Gerard paga a eles. Gina quer ter controle sobre o dinheiro que o filho recebe, Gerard acha que tem direito sobre o dinheiro que recebe do pai, e quando este vai consultar a opinião de Merlí, e o professor concorda que o dinheiro pertence a Gerard, a relação entre ambos estremece.

De bom professor, Merlí passa a professor problema. Entretanto, verdade seja dita, se Gina busca em Merlí primeiramente uma utilidade, do qual nasce um conflito, Merlí busca o conflito, como bom filósofo, e o encontra em Gina, e é isto que desperta seu interesse por ela.

A relação entre Gerard e Monica acontece pela paixonite adolescente. Ela é inteligente, bonita, madura e Gerard não está apenas apaixonado, mas também perdido. Como se fazer notar? Para isso ele recorre a Merlí, que a maneira maquiavélica, arma uma situação em segredo entre ambos para que durante a aula Gerard se destaque e chame a atenção de Monica. A situação em si se trata de uma pergunta que se você ainda não se fez, deveria: Maquiavel atesta que o governante pode ser cruel se sua finalidade for manter o poder do Estado intacto, que sendo o fim, este objetivo, os meios estão justificados. Ora, mas quem justifica os fins então? Porque devemos manter um Estado que não se importa em ser cruel com seus cidadãos? Não seria a hora de lermos um pouco de Mikhail Bakhunin ou Pierre-Josef Proudhon e pensarmos sobre o fim de um Estado como este? A pergunta é sua agora, pense nela como quiser.

Após a breve intervenção fake em sala de aula, Monica se aproxima de Gerard como previsto, e lhe empresta um livro, O lobo da estepe, que mesmo sem o mínimo interesse pela leitura, o aceita emprestado para ter algo em contato com a garota. Após dez páginas lidas, mais uma vez ele recorre a Merlí para tentar entender a história da obra.

O que Gerard está fazendo é mentir para alcançar o amor, de modo que o filósofo florentino não apenas apoiaria, como assinaria embaixo, afinal, todos os meios utilizados são justificáveis quando se alcança seu objetivo.

Merlí, que está tendo alguns problemas com Ivan por causa da porquice do aluno, resolve utilizar mais um método antitético: rouba o notebook de Ivan, ameaçando o devolver apenas quando a sala estiver limpa. E dá certo. O rapaz acaba chamando Merlí de filho da puta, e estas são suas primeiras palavras em semanas. Quase um grito da natureza como diz Rousseau.

O ponto alto do episódio, que é também quando temos contato com Maquiavel de modo mais direto, é quando após Bruno e Pol Rubio ficarem em recuperação com Eugeni, professor de literatura e desafeto de Merlí, este acaba surrupiando uma das provas de recuperação para seu filho poder colar no teste.

A situação se desenha de modo mais complexo entretanto, com todos os envolvidos tendo agido de modo antiético em algum ponto do enredo: Eugeni aparentemente deixou Bruno de recuperação injustamente para atingir Merlí; Bruno, que já tem problemas com o pai, acaba o culpando pelo problema com Eugeni, pois, como ele pensa, é por causa do comportamento reprovável do pai que Eugeni o está punindo, e então ameaça abandonar o pai e voltar a morar com a mãe; e Merlí por sua vez rouba a prova na tentativa de corrigir uma injustiça – a recuperação injusta do filho – ao mesmo tempo que tenta evitar que o filho o abandone.

A pergunta que me veio a cabeça além de maquiavélica, me foi ensinada por meu pai: quando estão todos errados, não estão todos certos? Não sei.

Mais uma vez, a pergunta agora é sua. Deixe ela ai embaixo, na sessão de comentários.

Participe da conversa! 1 comentário

  1. O conceito de certo e errado é relativo então, quando não é uma questão lógica, o que a maioria diz ser o certo é o certo.

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Filosofia, Live

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