26 de fevereiro de 2018

Merlí – Aristóteles

No quarto episódio da série começam a aparecer conceitos mais profundos da obra de Aristóteles (em grego clássico: Ἀριστοτέλης; transl.: Aristotélēs; Estagira, 384 a.C. — Atenas, 322 a.C.) já apresentado no primeiro episódio através de seu método de ensino: o método peripatético.

O conceito abordado na série é o conceito de justiça em Aristóteles, algo profundamente complexo e importante ainda nos dias de hoje. Um dos maiores teóricos sobre o tema do século XX e XXI, John Rawls, ex professor de Harvard, construiu seu arcabouço teórico em sua obra Teoria de Justiça a partir da leitura de Aristóteles e concordando com o estagirita em boa parte de suas afirmações sobre o tema. Se você cursou Direito na universidade e não estudou justiça em Aristóteles aconselho que duvide da qualidade de seu diploma.

O que dirá Aristóteles sobre justiça pode ser iniciado investigando um pouco mais sobre o que ele entende por ética.

Ética para Aristóteles, assim como para boa parte do mundo helênico está ligado a viver bem, utilizando os prazeres de forma benéfica gerando dessa forma ações virtuosas. Porém, Aristóteles, assim como boa parte da sociedade de sua época, considera virtude aquilo que é feito de forma exitosa. Virtude significa alcançar o mais alto grau de sofisticação possível em alguma atividade que não prejudique a outrem no processo. A isto o mundo grego contemporâneo a Aristóteles chamava de areté (do grego ἀρετή aretê, ês, “adaptação perfeita, excelência, virtude“): um alto grau de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina.

Ética portanto é fundamental para que a excelência humana se manifeste. E a mais alta de todas as virtudes, é aquela que visa a eudaimonia (do grego antigo: εὐδαιμονία; significa literalmente “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”), um termo grego geralmente traduzido como felicidade, embora outras traduções sejam possíveis como por exemplo, bem estar ou plenitude.

Em Aristóteles, o conceito de eudaimonia e areté está intimamente ligada ao conceito de  frônese (do grego antigo: φρόνησις, translit. phrónesis)  que é frequentemente traduzido como sabedoria prática. Assim o é porque virtude, felicidade, ética e justiça são temas centrais das teorias políticas de Aristóteles, e ele compreendia a política como uma atividade profundamente prática, de modo que a sabedoria de como aplicar estes conceitos todos a vida cotidiana se tornava indispensável para o bom andamento político da cidade, que tem como finalidade última a obtenção de uma vida feliz por meio da excelência humana manifestada através das virtudes de seus cidadãos.

Nada disso entretanto se torna viável ou possível se a vida cotidiana carecer de justiça.

Neste contexto portanto, justiça é considerada como virtude, porém, a virtude por excelência, visto que se manifesta diante do outro. A justiça aristotélica, por definição lógica, é uma ação que somente ocorre quando nos deparamos com situações em nosso dia a dia e as resolvemos agindo dentro da legalidade, ou seja, o justo se manifesta sempre em relação a algo ou alguém. Aristóteles ainda irá no livro V de Ética a Nicômaco classificar oito tipos de justiça: a universal e a particular; a distributiva e a corretiva; a política e doméstica; a legal e natural.

Justiça universal é aquela que determina o cumprimento da norma, ou seja, das leis. Trata-se de obedecer normas, costumes, leis, e outros princípios importantes para uma determinada comunidade. Justiça particular é uma parte da virtude “justiça” e ela divide-se em duas espécies: a distributiva e corretiva.

A justiça distributiva diz respeito a distribuição pela cidade dos seus bens, honrarias, cargos, responsabilidades, deveres e impostos. A justiça corretiva se distingue da primeira no sentido que ela como critério de justa repartição aos indivíduos os méritos de cada um.

A justiça política é aquela que organiza um modo de vida capaz de produzir autossuficiência na comunidade, estabelecendo assim relações saudáveis entre os cidadãos da pólis (cidade). A justiça doméstica em contraponto é a que organiza a vida privada do cidadão: refere-se ao modo como ele tratará sua mulher, filho, escravos.

A justiça legal e a justiça natural são divisões do gênero que é a justiça política.

A justiça legal possui fundamento nas leis da cidade e esta é definida pela vontade de quem cria essas leis. Tais leis por sua vez devem ser fundadas na convenção social dos cidadãos. A justiça natural é aquela que não depende da vontade do legislador, e portanto, possui caráter universalista. Esta é uma força que rompe barreiras políticas e age da mesma forma em todos os lugares, como por exemplo o fogo, que queima a cidadãos da Pérsia ou de Atenas por igual. O fogo, neste contexto, seria justo de modo natural por não distinguir a quem queima.

Voltando a Merlí, no episódio que trata de Aristóteles, somos convidados a refletir sobre justiça exatamente a partir do ponto de vista da injustiça. Joan, um dos alunos da sala acaba assumindo a culpa pelo furto da prova que Merlí roubou no episódio anterior.

Joan tem uma relação bastante complicada com seu pai, Jaume, que exerce sobre ele uma pressão absurda para que ele siga a carreira de advogado acaba dando vazão a sua voz e a sua vontade através de um ato condenável, mas que segundo seu ponto de vista, é imperativo. Pois mesmo que Merlí não admita a culpa, sobre ele recai a desconfiança da direção do colégio o que acarretaria em sua demissão do colégio. Acontece que as aulas de filosofia com Merlí são um dos poucos momentos onde Joan consegue pensar seus próprios pensamentos e a despeito de tudo que Aristóteles tem a nos ensinar sobre justiça, a principal finalidade dela é a felicidade.

Mesmo que de modo complexo, pouco convencional, a ação de Joan não teria sido justa do ponto de vista aristotélico, uma vez que a permanência de Merlí no colégio proporciona a ela felicidade? E não nos esqueçamos: a prova foi roubada por Merlí pois Eugeni, seu desafeto e professor de literatura havia deixado seu filho Bruno de recuperação apenas para o prejudicar. Um ato de injustiça que traz consigo a felicidade e corrige uma injustiça anterior, não seria ele justo nestes termos?

Não sei. A pergunta mais uma vez é sua. Pense nela como quiser e responda se conseguir.

Participe da conversa! 1 comentário

  1. Entendo que nesse caso ocorreu justiça corretiva. Entretanto, quem é Merlí para avaliar se um ato é justo ou não? Afinal, se eu for roubado, posso capturar o bandido e prender no porão em casa? Não, prender um bandido é permitido apenas ao estado, pois apenas eles podem avaliar a justiça de algum ato.

    Curtir

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Filosofia, Séries

Tags

, , , , , , , , , , ,