27 de fevereiro de 2018

Merlí – Sócrates

Sócrates (em grego: ΣωκράτηςIPA[sɔːkrátɛːs], transl. Sōkrátēs; Atenas, c. 469 a.C. – Atenas, 399 a.C.) é certamente o nome mais famoso da filosofia. Talvez se equipare com seu aluno Platão, ou ainda o aluno de seu aluno, Aristóteles. Mas certamente é famoso.

Apesar disto, ainda hoje existem pesquisadores sérios quanto a sua existência, dado o fato de que Sócrates não nos deixou nenhuma obra escrita. O que sabemos dele é através de seus alunos, como Platão e Xenofonte, e dramaturgos gregos como Aristófanes entre outros historiadores gregos ou contemporâneos.

O que sabemos sobre Sócrates hoje em dia é que ele foi filho de Sofronisco, escultor de mármore, e que teria ajudado o pai com o ofício, não conseguindo lá muito sucesso e mais atrapalhando do que realmente ajudando, e de Fainarete, parteira. Sócrates também teria sido casado com Xântipe e tido um filho, Lâmprocles. Algumas fontes indicam que Sócrates também teria se casado uma segunda vez com Mirto, filha de Aristídes, o Justo (e também parente de Sócrates. Sim, Sócrates teria se casado com uma prima, mesmo que uma prima distante), e tido com ela mais dois filhos, Sofronisco e Menexeno.

No dia a dia, Sócrates era tido como um incômodo para a cidade e seus habitantes: se recusava a vestir sandálias, evitava o banho, podia passar horas refletindo em silêncio sobre algo de seu interesse e gastava parte de seu tempo brincando com crianças. Não se sabe se Sócrates tinha alguma fonte de renda; alguns indícios apontam que ele teria sido oleiro, mas a verdade é que se o foi, como seu pai, não teria tido muito sucesso na profissão dada a sua disposição ao questionar e a filosofia.

O método socrático de produzir filosofia consistia em passear pelas praças públicas de Atenas e conversar com os passantes sobre temas que lhe despertassem o interesse. Geralmente essas conversas tinham como fio condutor a dúvida sobre algum assunto qualquer e durante a conversa Sócrates tinha por hábito levar seu interlocutor a consciência de que era ignorante sobre o assunto em questão. É ressaltado que a descoberta sobre a ignorância pode ser algo doloroso, mas também o é o parto, e o seu fruto é valioso. Este processo é chamado maiêutica (em grego, μαιευτικη).

Sócrates por usa vez também não apresentava soluções para os problemas debatidos. Ao contrário, costumava ele mesmo realçar sua própria ignorância sobre os assuntos debatidos, entretanto, a consciência de sua ignorância era algo que Sócrates valorizava pois lhe dava sobre seus adversários e debatedores um trunfo. Ele ao menos não ignorava o fato de que era ignorante. Ele sabia que nada sabia.

Esta sua postura inquieta e incômoda atraiu sobre Sócrates os olhares dos governantes e poderosos de Atenas que passaram a ter sua posição e autoridade questionada não apenas por Sócrates, como também por seus alunos. Decorre disto que Sócrates é acusado por  Ânito, (ex general ateniense na Guerra do Peloponeso e líder democrático cujo filho era aluno de SócratesMeleto (poeta trágico) e Lícon (de quem pouco se sabe, mas se especula que teria se oposto a Sócrates após seu filho se associar filosoficamente e sexualmente com Callias, um seguidor de Sócrates) de ter cometido três transgressões:

a) não acreditar nos costumes e nos deuses gregos;

b) unir-se a deuses malignos que gostam de destruir as cidades;

c) corromper jovens com suas ideias.

A ideia básica seria assustar o velho Sócrates para que ele se aquietasse. Mas como nos mostra Platão em seu diálogo, A apologia de Sócrates, Sócrates não apenas se defende, mas o faz utilizando seu vasto recurso intelectual apontando falhas na acusação. Entre elas a óbvia: ele não poderia se unir a deuses se não acredita neles.

Entretanto o julgamento transcorre a revelia de seus argumentos todos, e o tribunal composto por 510 cidadãos, o condena com um total de votos de 280 o condenando e 230 o absolvendo. O resultado não lhe assusta e sua pena é escolher entre o exílio ou ter a língua cortada, para que em ambos os casos não pudesse voltar a ensinar filosofia. É talvez a primeira, mas não a última vez em que filosofia, a disciplina que amo, é considerada perigosa pelo status quo. Caso se recusasse a qualquer uma destas opções, sua condenação seria a morte por envenenamento. E contrariando o esperado, Sócrates escolhe a morte e justifica sua escolha afirmando que “vocês me deixam a escolha entre duas coisas: uma que eu sei ser horrível, que é viver sem poder passar meus conhecimentos adiante. A outra, que eu não conheço, que é a morte … escolho pois o desconhecido”.

Trocando em miúdos: ao ter que abrir mão daquilo que ama, Sócrates escolher morrer.

O episódio de Merlí onde aparece Sócrates transcorre todo ele sobre um problema que eu e outros tantos professores de filosofia do mundo inteiro sofremos: o fato de que as perguntas que fazemos ou que ensinamos que já foram feitas por filósofos de hoje e de ontem, causam problemas exatamente por questionarem as coisas exatamente como elas são hoje em dia.

Há todo um esforço social para manter as peças do tabuleiro nos locais em que estão colocadas: os reis nos palácios, as rainhas caminhando despreocupadas, os bispos nas torres, os cavalos nas coxarias e os peões a frente para que morram primeiro. Que os peões morram antes dos cavalos, pois um cavalo de raça custa um absurdo de caro, ao passo que a vida humana não vale os 25 centavos que você nega ao garoto no trem.

Jaume,  pai de Joan, acusa Merlí de corromper seu filho quando ele começa a questionar o futuro como advogado que ele determinou ao filho; Gina reclama com Merlí pois não concorda com a nota baixa que ele deu a seu filho, Gerard, no exame de filosofia; Míriam pede que a escola ajude a tirar seu filho com agorafobia de dentro de casa, mas não permite que Merlí o faça.

Em todos estes casos temos o fato de que as pessoas que discutem com Merlí tem o direito de fazê-lo, porém lhe falta um ponto fundamental: lhes falta consciência de que são ignorantes sobre o assunto em questão. Jaume acusa Merlí de doutrinar o filho, mas nada entende de filosofia e de como ela é ensinada; Gina reclama da nota do filho, mas não tem conhecimento técnico para avaliar corretamente o conhecimento filosófico; e Míriam impede que seu filho saia de casa, mas ignora que é seu comportamento superprotetor que acaba por fazer o filho se enclausurar dentro de casa.

Assim como em Atenas, aqueles que acusam o filósofo são aqueles que não o fariam caso compreendessem que são ignorantes acerca dos temas debatidos. Mas não o fazem. Infelizmente não o fazem.

Resta ao filósofo cortar sua língua e calar-se ou continuar com seu ofício convivendo com certas dores de cabeça. Na série, Merlí optar pela segunda opção, pois ele ama filosofia, ama lecionar, é bom no que faz e tem consciência disto. E é interessante que no desenrolar da primeira temporada estes três problemas vão se solucionando exatamente ao modo socrático, ou seja, conforme os envolvidos vão se dando conta através das perguntas de Merlí de que são ignorantes sobre os temas que lhes afeta. Eu sei que isto pode ser doloroso: admitir que nada sabe sobre uma questão que parece fundamental e relativamente simples sobre seu cotidiano e sobre sua vida é doloroso além de parecer um contrassenso. Mas isto é maiêutica. Dói, mas o nascimento da ignorância, nestes casos, é muito benéfica.

Comigo não é diferente. A minha sorte é que conto com pais muito mais abertos a filosofia e que compreendem o valor dela a seus filhos e filhas. Até quando assim será eu não sei, mas por hora agradeço que seja assim.

Nos dias de hoje isto já é algo fantástico por si só.

 

 

Participe da conversa! 4 comentários

  1. Que demais sua abordagem! Obrigado e parabéns!

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  2. Muito bom, eu mesmo estou tendo uma “maiêutica” com seus textos kkkk

    Curtido por 1 pessoa

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Filosofia, Séries

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