Política é uma atividade humana um tanto quanto partidarizada e nos dias de hoje, ridicularizada. Digo isto porque o feed de notícias de todo mundo está repleto de analistas políticos do mais alto gabarito, capazes de opinar sobre todos os assuntos relacionados ao tema sem sequer saber qual a grande importância política de Maquiavel para as ciências políticas. A saber, o florentino foi um dos primeiros, senão o primeiro a observar que o inimigo do governante está dentro dos muros da cidade, que a administração pública precisa garantir estabilidade institucional para o bom funcionamento da pólis e que política externa e interna são coisas bastante diferentes e por isso com ferramentas institucionais diferentes. Porque se você não sabe que durante o auge do absolutismo europeu havia outros autores falando sobre concentração de poder político, então você é mais amador do que supõe-se.

Mais ainda, gente que não entende por exemplo que sem Maquiavel não haveria Hobbes por este último firmar a utilidade do governante como fundamental para evitar o caos e a guerra civil. Mas que se acha capaz de comentar sobre as atribuições fundamentais da polícia civil. Uma galera que não compreende a dimensão psicológica de Rousseau quando este diz que a origem da propriedade privada é a linguagem, pois isto implica que o sujeito que fala é capaz de relacionar e formular seu sentimento de posse sobre determinado item que antes não lhe pertencia. O nobre selvagem de Rousseau revela muito mais sobre a psicologia, o ego, a vaidade do que se imagina a princípio.

Mas o tema político que quero tratar aqui é precisamente um dos temas de minha dissertação de mestrado: a banalização da maldade.

Para quem não sabe – a maioria, creio – o conceito foi desenvolvido por Hannah Arendt (nascida Johanna Arendt; Linden, Alemanha, 14 de outubro de 1906 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975), filosofa judia, após ela presenciar o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann em Jerusalém. Grosso modo, e os poupando dos detalhes mais tediosos, Eichmann é julgado por ser um dos cérebros administrativos por trás da Solução Final ordenada pela Alemanha nazista contra os judeus. Embora não tenha dado um único tiro contra um judeu em toda sua vida – na verdade durante seu julgamento Eichmann ressalta que nunca teve problemas pessoais contra judeus -, ele participou da logística por trás dos campos de concentração alemães.

Eichamnn é sequestrado em 1960 num subúrbio de Buenos Aires e então levado a Jerusalém para ser julgado por seus crimes de guerra. Eis que Arendt vai cobrir o julgamento como repórter enviada do jornal The New Yorker e ao se deparar com a figura real de Eichmann, um homem franzino, tímido e mal articulado, se põe a pensar sobre todo o caso acerca não apenas de seu julgamento, como do horror que foi a Segunda Grande Guerra. A pergunta que ronda a mente de Arendt, e também a de muita gente é: como os alemães comuns foram capazes de cometer tamanha atrocidade? 

A resposta de Arendt está no julgamento de Eichmann. Ao percebê-lo como um ser humano, ao invés de um monstro sanguinário, Arendt consegue investigar de modo pormenorizado as estruturas sociais e políticas que produziram um cidadão nazista.

E no caso específico, Eichmann é considerado um monstro para nós, porém entre os alemães de sua época ele era tido como um exemplo a ser seguido: era um funcionário exemplar, cumpridor de suas metas, assíduo, eficiente, e para os padrões de sua época, gentil e cortês. Se as funções de Eichmann fossem outras que não o assassinato de milhões de seres humanos, ele seria tido como o exemplo da família brasileira, o tio que todo pai e toda mãe usa para comparar o filho e dizer: “Ta vendo? Porque não segue o exemplo do seu tio?” Como condenar um cidadão que possui virtudes que apreciamos até os dias de hoje?

A tese de Arendt é de que Eichmann é culpado de não refletir sobre o que está fazendo. De não se questionar em nenhum momento do julgamento ou de sua vida se o que estava fazendo era certo ou errado. Se é ao menos humano administrar com rigor técnico e burocrático a morte de tanta gente. De praticar o mal em larga escala sem se preocupar com nada além dos elogios da chefia, da promoção no gabinete, da admiração dos vizinhos quando recebe um aumento ou um bônus por bom desempenho e consegue viajar no fim do ano ou então trocar de carro e reformar a piscina.

Posto desta forma, qual a diferença entre Eichmann e o presidente da Zara, empresa condenada em 2011, 2014, 2015, 2017, todas as vezes por manter linhas de produção de suas roupas sob um regime de análogo a escravidão, chegando a ser multada em 5 milhões de reais? Ou o chefe executivo da Brasil Foods, dona de marcas como Sadia, Perdigão, Batavo e Elegê, que foi condenada a pagar 1 milhão em indenizações por manter trabalhadores em condição de escravidão no interior do Paraná? Ou o sócio majoritário da Renner que em 2014 foi autuada por manter 37 bolivianos costureiros sob condição de trabalho escravo?

A diferença não reside neles, mas em nós. Somos nós quem olhamos aturdidos para um burocrata nazista e com admiração para o empreendedor que usa trabalho escravo. Quase nunca nos perguntamos sobre em quais condições nossos produtos são feitos. E mesmo quando sabemos que as condições de trabalho desses funcionários são péssimas e desumanas, como é o caso de funcionários da Foxconn, empresa que produz equipamentos para a Dell, Apple e HP, ainda assim não nos importamos com o fato, porque o novo iPhone X tem um aplicativo novo para tirar fotos que eu posso postar no Insta. Então que importa se alguns chineses que eu não conheço são maltratados se com a desgraça deles eu consigo 5k de curtidas nas minhas fotos, não é mesmo?

A banalidade do mal não é exclusividade do nazista ou do fascista, mas é algo que permeia a todos nós quando deixamos de refletir sobre questões éticas e morais. E é por isso que estou escrevendo este texto. Porque o artigo publicado por Tiago Leifert para a revista GQ é uma aberração em todos os sentidos. É uma aberração por não compreender conceitos básicos atrelados a filosofia política ao mesmo tempo que se pretende verdadeiro e universal. É como dizer que dois e dois são cinco, publicar em algum jornal e afirmar que quem diz o contrário mente.

Seu texto diz basicamente que não se deve misturar esportes e política pois dessa forma o esporte fica chato, e o atleta está usando um espaço destinado a competição para manifestar seus ideias e ideologias. Em suas palavras, misturar ambos dá ruim. E cita como exemplo o atleta da NFL Colin Kaepernick, que se ajoelhava durante o hino norte americano como forma de protestar contra a violência policial cometida com cidadãos negros de seu país. A consequência, como Leifert aponta, é que Trump ficou pistola, conservadores idem, e o atleta perdeu o emprego porque ninguém quis um jogador problema em seu time.

Aceitar passivamente, e ainda utilizar como exemplo do porque política e esporte não se misturam, que uma pessoa perca seu emprego por manifestar de forma pacífica e legítima sobre uma questão urgente de sua sociedade, equivale, dentro de certos parâmetros, a dizer “cale a boca quando seu chefe lhe assediar, ou do contrário você perde o emprego”; “cale a boca quando seus colegas rirem do seu cabelo afro, ou do contrário você perde o emprego”; “cale a boca quando lhe cortarem todos os direitos trabalhistas que possui, do contrário perde o emprego”; “cale a boca quando não puder mais se aposentar, do contrário você perde o emprego”.

Não é apenas um argumento burro, é um argumento perverso que diz em última análise que se você é pobre, você deve escolher, sempre que possível, ficar quieto diante das merdas que acontece na sua vida pois é seu patrão quem determina quando e onde você pode levantar a voz contra as porcarias que andam fazendo por ai contra você e contra as pessoas que lhe importam.

Então você pode nos dizer: mas o atleta precisa fazer isto na hora do jogo? E a resposta é: mas o atleta não faz isto na hora do jogo em si. Ele faz quando lhe é permitido: no modo como comemora o gol, como fazia Sócrates; quando sobre ao pódio, como Tommie Smith e John Carlos; ou quando se ajoelha durante o hino, como Colin.

Em todos estes casos o dono do time não é prejudicado pois a performance do seu funcionário não ficou aquém do esperado. O problema no texto do Leifert é simplesmente porque algumas pessoas sentem-se ofendidas por verem seus preconceitos serem golpeados.

E a estes, os preconceituosos que não conseguem tolerar críticas a seus preconceitos eu digo: a merda com todos vocês. É preciso que o preconceito de vocês suma para que nossa sociedade melhore. O mesmo vale para aqueles, que como Leifert, pedem que não apenas o esporte, como outros espaços da vida pública percam seu caráter reflexivo.

Se vocês não conseguem lidar com isso, repito: a merda com vocês.

Com todos vocês.

Participe da conversa! 25 comentários

  1. adorei o texto, uma pena nao citar o autor

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  2. Comecei a ler despretensioso, o texto me fez parar o cérebro e prestar atenção.
    Obrigado.
    O texto é ótimo.
    Concordo em tudo.
    Obrigado.

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    • Puxa vida! Fiquei feliz em saber disso!
      Agradeço bastante o elogio e volte sempre! Todo dia tem texto saindo!
      E tem nosso canal no youtube também! Passa por lá!
      Abração e até breve!

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  3. É por conta disso que deixo á raça humana, meus filhos, que são criados para serem questionadores e reflexivos.Ganhei esse presente de meu falecido pai, a não aceitar por autoridade e questionar sempre, o que eu faço e o que outrem faz, e sim julgando e criticando.

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  4. Parabéns companheiro, pelo menos alguém lúcido para combater as várias infames divulgadas de maneira irracionais e sem contexto. Aliás, um indivíduo que apresenta um texto ao qual se quer apresenta embasamento teórico não deveria nem ser publicado…mas, isso é Brasil.
    Abraço

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  5. Simplesmente ótimo.

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  6. Acabei de compartilhar no facebook. Escrevi essa semana mesmo sobre a grosseria feita pelo apresentador playboy que disse a uma participante negra ativista no BBB que ‘esse negócio de representatividade não leva a nada’. É uma piada esse menino branco, rico e famoso dizer como o negro periférico deve agir e onde se manifestar. Aliás, esse menino é uma piada e ponto.

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  7. Parabéns pelo texto, achei bastante oportuno, principalmente sua conclusão, porém creio que o principal elemento para relacionar o texto com o que foi escrito por Tiago Leifert são as primeiras palavras do mesmo. Vejo dessa forma,pois, no início do texto, quando você diz que a política nos dias de hoje esta partidarizada e até ridicularizada, enxergo nessa sua descrição da política, aquela política feita hoje em dia de certa forma até caricaturada, já repleta de chavões como as frases citadas pelo próprio Tiago em seu texto (“Fora, Temer”, “Lula preso amanhã”). Assim, creio que o texto dele, quando se refere a política, refere se a essa forma de política caricata e polarizada que só tem separado mais as pessoas e discussões, em times e motivos certos de briga. Dessa forma, não sei identificar até que ponto ele tentava dissociar o uso dessa política em específico do esporte, como quando termina seu texto com “Textão é no Facebook. Deixem o esporte em paz.” ou se realmente faltou essa noção mais ampla por parte dele para com o termo política.

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  8. É entusiasmante ver jovens atuar nas conversas e colocar o seu ponto de vista, sobre a atual situação em que se encontra nosso País, nosso Estado e as pessoas que lá vivem. Mas me pergunto? Como então, jovens tão capazes se mantém e se permitem ficar ausentes da política atual? Será por medo? Será para não comprometer seu emprego? Será por estarem satisfeito com a sua situação e é melhor eu ficar quieto, pois assim não me exponho e o japonês não vem bater na minha porta! Penso que precisamos de jovens impetuosos, que surjam líderes para conduzir as massas, com ideias novas, que valorizem princípios básicos de moral elevada, respeito a nação, valorização aos princípios naturais como: Família, Liberdade, Fraternidade. Hoje surgiu a grande oportunidade de mudarmos, digamos “NÃO” A reeleição, daqueles que estão atualmente exercendo um cargo político e estão diretamente envolvidos nesta maldita corrupção, assim como a eleição dos novos que direta ou indiretamente sejam apoiados por eles. Vamos exigir e eleger um Conselho Popular que possa intervir diretamente no exercício parlamentar, sugerindo a extinção do cargo político quando este não estiver adequado ao exercício de suas funções, exigir seu afastamento imediato, sem recebimento dos seus vencimentos mensais, que ficará sob investigação administrativa popular do Conselho, até que se faça valer o inquérito. Dando o direito a este Conselho de intervir nos Projetos de Lei, aconselhando e impugnando-os. As mudanças são necessárias, mas para o melhor.
    A população perdeu os seus direitos.
    Elegemos e não temos o direito de retirar, antecipadamente, aquele que não cumpre seu projeto eleitoreiro.
    A proposta está na nossa mão.
    Obrigado!

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  9. Ótimo texto Rafael , este tipo de reflexão é importantíssimo para que possamos pensar além do que vemos ou ouvimos , sentir o cheiro de algo podre onde o odor artificial predomina , apesar de agradável , serve apenas para mascarar a podridão , fechamos os olhos , tapamos os ouvidos e disfarçamos o cheiro.

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  10. Nooossa, momento de reflexão total! Excelente!

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  11. Parabéns!

    Ah, e o que esperar de qualquer funcionário da rede globo né? Parece que eles sofrem uma lavagem cerebral!

    Abraço

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