Hannah Arendt, me perdoem voltar a ela, é uma autora apaixonante. Ela é escreve sobre temas profundos e complexos com elegância e clareza raramente vistas.

Além de sua famosa tese sobre a banalidade do mal, do qual já tratei aqui ao comentar o texto bobinho do Tiago Leifert, ela escreve em 1968 um breve texto chamado “Sobre a Violência” onde ela elabora uma teoria bastante interessante sobre o conceito de poder e violência. Diz ela que ao contrário do que a tradição filosófica diz – Webber, para ficar num exemplo -, poder não é a capacidade de realizar sua vontade, passando por cima de obstáculos e pessoas se preciso for. Esta capacidade de exercer no mundo sua vontade independente de quem ou do que se oponha é o que Arendt chama de violência. Em linhas gerais, poder é aquilo que nasce quando pessoas iguais se reúnem em um espaço público e debatem de modo livre sobre qualquer tema proposto. É como se os argumentos utilizados pelas pessoas envolvidas fossem gravetos que uma vez friccionados produzissem ao invés de fogo, poder.

Após o momento originário do poder – o debate livre em um espaço público – as decisões tomadas podem ser executadas exatamente porque o poder nasceu para isto, com este intento: para que alguma ação fosse executada de forma legítima. Podemos debater sobre a liberação das armas; o imposto sobre a igreja; a taxação de grandes fortunas; as leis trabalhistas. Qualquer coisa, pois não deve haver tema proibido.

Esta tese defendida por Arendt nos leva a concepção moderna do que é democracia: um regime de concessão. Ou seja nenhum direito lhe cai no colo, todos são concedidos após debate, apresentação de argumentos, e essencialmente, pressão popular. Porque pressão popular? Porque no geral, o espaço público é ocupado com frivolidades e tolices como festa e folia. E não há aqui nenhuma crítica contra a festa e a folia; ambas são necessárias e importantes, mas não é somente com elas que nasce um debate democrático sobre as demandas da população. Em linhas gerais, os movimentos revolucionários, também alvo de investigação de Arendt, é um bom exemplo de como a população ocupa as ruas e obriga de uma forma ou de outra a serem debatidas suas pautas e demandas. Porque convenhamos: nenhum político ou partido visitará sua porta para fazer um levantamento sobre o que você considera importante debater em sua sociedade.

Se poder é descrito como um conceito onde a voz de muitos se faz valer sobre a de poucos, embora as respeitando, violência é seu oposto: é quando a voz de um se faz valer sobre a de muitos. Compreendeu? Mais fácil que qualquer coisa escrita por Hegel ou Kant, embora tão importante quanto ambos.

Compreendido estes dois conceitos em suas linhas gerais, falemos, mais uma vez do Rio de Janeiro. Porque se você está vendo o que está acontecendo no Rio e não está apavorado, você está vendo errado.

11 dias se passaram desde a intervenção militar autorizada pelo governo federal no Rio de Janeiro. Após este breve tempo as incertezas cresceram muito mais do que as certezas, pois a única notícia concreta até o momento é a de que os militares sairão do Rio em 31 de dezembro. Mas isso é por enquanto. Para que eles permaneçam por lá, basta uma canetada. Ou que os tanques saiam novamente da caserna: após 2016 tudo é possível. E sim meu amigo, foi golpe. Já está saindo das ruas e indo para os livros. Universidades, Brasil afora, estão começando a lecionar sobre assunto que já foi debatido a exaustão pela comunidade internacional, que também já sabe o óbvio: foi golpe.

Conforme relatou a equipe de reportagem do Nexo Jornal – o melhor canal de notícias do país – nesta terça feira (27) o general do Exército Walter Souza Braga Neto, interventor do governo federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro nomeado dia 16 de fevereiro, concedeu uma conferência a jornalistas na capital fluminense.

Sua exposição limitou-se a 25 minutos de falas breves, genéricas com a exibição de seis slides de power point. Não há ainda um estudo sobre o que será feito, nem como ou quanto custará. Afinal você acorda com os passarinhos da rua lhe dizendo que o país está em greve e que não há verba pra nada. Haverá para o Exército? Uma excelente pergunta que não foi respondida pelo general. Mas a falta de planejamento me incomoda, mas ainda não me deixa de cabelos em pé.

O que me assusta de verdade são dois fatos. O primeiro, auto-evidente, é uma fala do general que saiu por ato falho: “O Rio de Janeiro, ele é um laboratório para o Brasil. Se será difundido o que está sendo feito aqui para o Brasil, aí já não cabe a mim responder.

Só um tolo não percebe que a partir desta fala é possível saber com cem por cento de certeza que nos bastidores de Brasília já se debate seriamente qual será a próxima cidade brasileira a ser alvo de uma intervenção do exército. Se em 1964 o Exército nos tomou de assalto em um só dia, dessa vez estão indo aos poucos, afinal hoje eles não possuem a ajuda marota da frota de navios norte americanas esperando o sinal para bombardear solo brasileiro matando nossos cidadãos no processo. Você entendeu certo: nós tínhamos (ou temos) um exército que faz aliança com um país estrangeiro para matar brasileiro. É mole?

E tão ruim quanto é o fato de que mesmo em apenas um estado, mesmo apenas no “laboratório do Brasil” a boa e velha violência militar – em termos arendtianos – já mostrou os dentes. Os jornalistas que participaram da conferência precisaram enviar suas perguntas de antemão e então o general escolheu quais seriam respondidas. Coincidentemente as perguntas do O Globo e do Estado de São Paulo foram privilegiadas; os mesmos jornais que apoiaram o golpe de 1964 com entusiasmo e alegria. E nenhuma pergunta fora do roteiro pré determinado foi escutada. Nenhuma pergunta de interesse da população, feita por algum jornalista foi escutada. E fim de papo.

Este caldo social é perigoso. Primeiro porque o espaço público institucional está perdendo a olhos vistos seu caráter de liberdade para o debate. Segundo porque o silêncio das pautas populacionais é o fermento para o surgimento de grupos revolucionários que podem eventualmente ter como estratégia de confronto a luta armada.

O próximo passo são os anos de chumbo que se seguiram após 1968 e guerra civil.

A última coisa que precisamos é brasileiro, literalmente, matando brasileiro. Porque, que nós sejamos vistos como inimigos pelo governo, qualquer morador da periferia sabe. A única coisa que não queremos é que os militares voltem a ter salvo conduta para nos matar e torturar.

E se você leu até aqui esperando uma proposta minha para solucionar essa loucura, desculpe. Errou o bote. Ainda não faço a mínima ideia. Mas se você puder pensar comigo em alguma resposta e puder propô-la, eu e um monte de gente agradece.

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Caro Rafael Alves,
    Atendendo a seu simpático pedido para pensarmos juntos, deixarei meu pitaco com a melhor das boas intenções. Começo por dizer que sou um privilegiado por ter vivido os dois golpes citados em seu texto. Porém em nenhum dos dois pude dar uma contribuição efetiva à luta do lado que escolhi. No primeiro por ser muito jovem – tinha 9 anos em 1964 – e não entender nada do que se passava, já que, para piorar o quadro, além da pouca idade, era, como todos em casa, alienado da silva sauro; e não por culpa da poderosa rede grobo, que só foi inaugurada um ano depois da “salvação da pátria do perigo comunista”, apesar de o jornal de papel deles fazer esse trabalho direitinho. Lá em casa “o globo” não era o jornal lido; a assinatura era do “Correio da Manhã”, de direita, mas um pouco mais pro centro. Meu pai lia, mas não fazia comentários políticos com a petizada, e acho que nem com minha mãe. E, pra falar a verdade, eu só dava uma olhada na parte de futebol, que aos 9 anos era o que me interessava. Depois disso, a serventia do jornal, para mim, era pra fazer bola de meia (o enchimento), chapéu de soldado, barquinhos de papel ou embrulhar cocô do cachorro pra jogar no lixo. E o segundo golpe? O de 2016, do vampirão & cia. Aí eu já estava muito velho pra encarar. No máximo fiz número em algumas manifestações, sem me arriscar muito, pois além de tudo, poderia atrapalhar a fuga dos outros se caísse no meio da correria.
    Dito isto, resta ao sexagenário pajé dar a contribuição que julgo sensata e bem de acordo com os tempos sombrios em que estamos adentrando. Com todo o respeito pelos seus “cabelos pretos”, não acho que encarar uma luta escancarada como a dos heroicos anos de chumbo seja a solução. Não é um problema pra ser resolvido com base no nível de testosterona. Aliás, se entendi direito o artigo, não é essa a proposta mesmo! É caso para trabalho de “formiguinha intelectual”, no boca-a-boca dos “Ocupas”, nas manifestações pacíficas e muito trabalho de preparação/educação da moçada. Coisa que os carismáticos Brizola e Darcy tentaram há quase 40 anos e que os “bolsominions” de outrora e de hoje trataram de jogar no ralo. Não sei quantos ChicosMendes e Marielles perderemos até conseguir, mas é preciso fazer.

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