1 de março de 2018

Merlí – Schopenhauer

Porque, no ano 2018 da Graça do Nosso Senhor, existe violência? O que leva alguém a dar um murro, uma facada, um tiro em outro alguém. Quais as razões justificáveis para que um país solte uma bomba nuclear sobre outro país?

Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de fevereiro de 1788 — Frankfurt, 21 de setembro de 1860) dirá que é nossa consciência e capacidade de deliberação que nos leva a fazer tais coisas. Que a violência intencional e injustificada é algo particular dos seres humanos e este é um dos atributos que temos com exclusividade. Afinal é preciso que nos perguntemos porque mesmo com um cérebro enorme e potente em nossas cabeças, permanecemos incapazes de resolvermos nossos problemas através do diálogo.

Schopenhauer também nos dirá que viver neste mundo é essencialmente sofrer, pois que a raiz do sofrimento está em nossa vontade, algo tão essencialmente humano. Porque sofremos? Porque estamos distante do objeto de nossa vontade. Quando tenho vontade de estar com minha mãe, com minha filha, com meu pai, irmã e sobrinhos mas não posso satisfazer esta vontade, sofro. E quando consigo satisfazer esta vontade, o sofrimento cessa, mas apenas para que outra vontade surja. Agora posso ter vontade de melhorar meu salário no emprego, de não mais se afastar deles, etc.

Isso quer dizer que para cada vontade satisfeita, outras tantas vontades novas nascem, e com isto, novas fontes de sofrimentos aparecem.

O episódio 6 de Merlí é sobre Schopenhauer e trata de sofrimento, principalmente com Bruno, filho de Merlí, que é homossexual, mas deseja não se assumir como tal ao mesmo tempo que também deseja poder viver sem reprimir seu modo de ser e existir. Seu sofrimento nasce portanto de um desejo paradoxal de possuir ambas as coisas, não importando que elas sejam excludentes entre si. E assim o é, porque o mundo é, como diz Schopenhauer, Vontade e Representação. o que isso quer dizer?

Pense por um minuto: não existe nada na vida que não dependa do seu ponto de vista sobre o objeto. O muro da casa do vizinho é alto ou baixo? Depende. Quando você tem três anos é altíssimo, e quando você tem vinte ele é normal. Verduras são gostosas ou ruins? Quando se é criança são péssimas, quando se cresce são boas.

E o que dizer daquele crush inatingível, impossível de chegar perto e foliar junto? Você olha o crush, olha você, olha o crush, olha você e conclui: nunca que o crush vai sequer notar que você existe. Porque? Porque não importa o muro em si, a verdura em si, o crush em si, nem você em si.

Importa o que essas coisas representam para sua consciência.

Isso quer dizer que a impressão que você tem de tudo que existe acaba por formar um mundo dentro de sua cabeça, e cada decisão que você toma ao se relacionar com o mundo depende de que mundo você tem na cabeça. Obviamente que esse processo é bastante complexo, e se você está pensando em algum tipo de auto ajuda, esqueça. Lembra do que Schopenhauer fala sobre a vontade? Pois é: não importa que mundo você tenha na cabeça, o sofrimento é constante e eterno porque a vontade é independente da representação de mundo que você faz dentro de sua cabeça.

Quando Bruno cria dentro de sua cabeça um mundo que não lhe aceitaria como homossexual, que não lhe permitira viver plenamente a busca por sua vontade, ele sofre duplamente, por causa de sua vontade e da representação de mundo que possui.

O roteiro do episódio é todo ele escrito para, explicar de modo breve dois conceitos de Schopenhauer, seja os explicando com Merlí lecionando, seja com a crise de Bruno, que como bem sabemos, é a crise de muitas pessoas que são homossexuais em nossos dias.

O que o episódio em questão está abordando é a visão bastante sofisticada que  Schopenhauer tem sobre a representação do mundo, como por exemplo, apresentando alguns breves lampejos do que Freud chamaria, anos mais tarde, de ID. Porque a vontade do sujeito é um dos fatores capazes de interferir no processo de criação deste mundo como representação para a consciência do próprio sujeito. Esta vontade pode agir de modo a turvar nossa percepção das coisas, pois como diz Kant, antes de Schopenhauer, e com o qual ele concorda, há o mundo em si (noumenon), do qual nada sabemos, e o mundo para si (phenomenon) com o qual nos relacionamos.

Em síntese, para que exista um mundo, é preciso que exista um sujeito capaz de pensar este mundo. O único mundo ao qual temos acesso é o mundo como ele é representado por nós.

A representação de Merlí para Bruno é a de um pai relapso, ausente. Então quando Merlí vai conversar com ele sobre o fato de que, mesmo escondendo, Merlí já sabe de sua homossexualidade, Bruno o rechaça. Primeiro pelo modo como ele Merlí existe dentro de sua consciência e segundo porque aceitar este argumento – o de que ele não consegue esconder sua homossexualidade – faz com que seu desejo de aparentar hétero desapareça, o que como já foi explicado, faz com que a pessoa sofra.

Embora Schopenhauer seja um pessimista, com sua filosofia girando em torno do tema sofrimento, ainda assim, creio, é possível nos utilizarmos de uma de suas categorias para quem sabe pensar com mais carinho sobre essa questão que afeta Bruno na série, e tantos no mundo real.

Obviamente, é bastante difícil o que vou falar, mas será que talvez a reformulação deste mundo que está em sua cabeça não precisa mudar para que sua vida se transforme? Talvez novos estímulos, vindos de outras pessoas, em outros lugares não seriam capazes de criar novas representações de mundo, reposicionando você na vida de uma fora diferente do modo como você se enxerga hoje?

Se acha um lixo? Experimente, sentar em outra cadeira, em outra mesa, ler outros livros, acessar outros sites, conversar com outras pessoas, ouvir outras músicas, viajar para outras praias, abrir portas diferentes com a outra mão, sorrir com o outro lado da boca, comer outras comidas, andar do outro lado da calçada, depois experimente mudar de caminho, ande em outras ruas, tomar outro ônibus, vestir outras roupas, calçar novos calçados, dormir em outro lado da cama, depois dormir em outras camas, viver novos romances mesmo que com outra pessoa. Experimente dormir mais tarde, dormir mais cedo, conhecer outros amigos, comprar pão em outra padaria, escolher outro mercado, outro creme dental, passear em outros parques, trocar de carteira, de carro, de barbeiro, tomar banho em outros horários com outros sabonetes, escrever outras poesias, jogar fora os despertadores, mudar de trabalho por um mais digno, mais humano.

Porque foda-se Schopenhauer, e se a vida for mesmo sofrimento, lute contra este sofrimento, contra sua vontade, contra o que for e mude, por que a vida… a vida é uma só! Porque se você tem mais medo da mudança do que desgraça, o seu medo não impede a desgraça de acontecer.

PS. Conheça Abujamra e o poeta Edson Marques. Irá tornar sua vida melhor.

Participe da conversa! 1 comentário

  1. Caramba, muito bom esse seu questionamento!
    Acho que a vida precisa ser experimentada.

    Adorei ler isso hoje.
    Obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Filosofia, Séries

Tags

, , , , , ,