2 de março de 2018

Merlí – Foucault

O episódio de Merlí a tratar de Michel Foucault (Poitiers, 15 de outu-bro de 1926 — Paris, 25 de junho de 1984) tem como eixo de roteiro o tema da normalidade, tratado pelo filósofo francês em obras como História da Sexualidade ou ainda História da LoucuraFoucault foi profundamente influenciado por Georges Canguilhem, discípulo de Gaston Bachelard. 

Como é costume na série, todas as tensões e conflitos vão surgindo dentro do tema proposto, e através destes podemos perceber os desdobramentos de como lidar com as questões associadas a normalidade nos causam sentimentos que podem ir desde a sensação de abandono até o bully. Foucault dirá que nosso discurso e modo de agir no dia a dia é formado por um conjunto de regras que foram fixadas através de um processo histórico, que o que chamamos de normal é moldado pelas regras e condições sociais do tempo presente. Isto significa que tais regras mudam com o decorrer do tempo e o que era normal ontem não o é hoje. E o que é normal hoje, não o será amanhã. A homossexualidade era normal entre os gregos. É Platão quem diz que o amor acontece entre os homens. Hoje a homossexualidade é tida como anormal, assim como no tempo de Foucault, que também era homossexual e sofreu com a sociedade a sua volta.

O ponto portanto são os desdobramentos do conceito de normalidade e como nossos atos de fala no dia a dia são moldados por ele. Quando por exemplo Bruno discute com seu pai por Merlí não ser um pai como os outros, ele está exprimindo que sofre por esperar um comportamento tido como normal da parte de Merlí. Um comportamento que jamais virá.

No caso de Pol Rubio, a tensão entre sua família, órfão de mãe, morando com a avó e o irmão em um apartamento velho se dá exatamente pela ausência da mãe, que como veremos em episódios posteriores ainda o faz sofrer. Há também o problema da pobreza que é um problema duplo: Pol é mais pobre que seus outros amigos filhos de médicos e advogados. Primeiro porque sua pobreza faz com que ele mesmo sinta-se descolado em certos momentos, mesmo que de forma inconsciente. E segundo porque lhe falta recurso de fato. Em um episódio da segunda temporada Pol chega a roubar cem euros para comprar roupas após Gerard fazer piada com suas camisetas com três anos de uso. E nisso, Pol e eu nos parecemos, além do talento para a filosofia. Mas nossas semelhanças acabam aqui também.

Na casa de Joan, após os problemas com a prova roubada, as coisas voltam a normalidade: Joan volta a tirar nota 10 como de costume e seu pai volta a ignorá-lo, como de costume. Há uma fala de Jaume inclusive que representa bem como o conceito de normalidade não é apenas presente – aqui ou na Catalunha – como é capaz de produzir sentimentos diversos. Joan diz que foi bem na avaliação e ouve do pai aquilo que milhões de alunos brasileiros ou espanhóis escutam ou escutaram todos os dias de sua vida escolar: não fez mais que sua obrigação. Ou seja, é normal que um estudante, estude. Por sua vez o estudante considera normal ser elogiado por ir bem nos exames. Quando dois critérios de normalidade, de mundos diferentes (o mundo adulto e o mundo adolescente) se chocam, alguém há de sofrer. Neste caso, Joan.

Merlí então vai além e fala sobre o quanto escondemos de nossos desejos e vontades para não parecermos anormais. Porque muito rapidamente a sociedade transforma o conceito de normalidade no conceito de certo. Normal é certo, anormal é errado. Quantas discussões não temos com nossos pais por causa desses conceitos todos? O quanto escondemos dos outros, as vezes de nós mesmo, por pensarmos, desejarmos algo que é considerado anormal, errado? O homossexual que esconde sua atração por pessoas do mesmo sexo; o negro que esconde seu cabelo o alisando; a mulher que esconde seu corpo com roupas ou cirurgias; o homem que esconde seu sorriso por seus dentes serem tortos.

Mas há um detalhe no episódio que nos mostra algo.

É quando Joan quebra a maquete de barco de seu pai, algo que ele não faria normalmente. Quando ele tem um ato anormal, é quando não apenas a atenção recai sobre ele, como é também o momento onde ele pode expressar o que pensa. É quando perguntam a Joan o porque de seu comportamento anormal, equivocado, que ele pode exprimir sentimentos, desejos, pensamentos. O anormal é um potencializador para externalizarmos nossos desejos e vontades. Mas para isso é preciso coragem, do latim, agir com o coração.

E isto, infelizmente não é fácil

Expor nossos desejos e pensamentos é sempre difícil quando eles estão em desacordo com a normal social. Pensamos ser desajustados, que nascemos antes da hora. Nietzsche escreveu que nasceu póstumo, que somente séculos após sua morte é que ele seria aceito e compreendido.

E você? Quando acha que será compreendido por ser quem é e pensar o que pensa? Ou uma pergunta melhor ainda: quais atos anormais você tem feito ou pretende fazer para quebrar a ordem social, poder chamar a atenção sobre si e finalmente expor o que pensa e sente? Porque todas essas coisas que você carrega ai dentro do peito são importantes e você não pode deixar nunca que ninguém diga o contrário. E toda vez que alguém quiser fazê-lo acreditar que aquilo que você é não é correto, repita esta frase que te deixarei como um presente para sua vida:

A merda com você.

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Excelente! Deu uma baita ajuda no meu trabalho de literatura!

    Curtido por 1 pessoa

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Filosofia, Séries

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