Slavoj Žižek (esloveno IPA[ˈslavoj ˈʒiʒɛk], Liubliana, 21 de março de 1949) é um filósofo e cineasta esloveno que ao contrário da maioria dos filósofos tratados aqui, está vivo. Para nós, do CinesofiaŽižek é uma inspiração, não tanto porque concordamos com seus argumentos – embora muito do que ele afirme seja interessantíssimo – como pelo fato de que foi assistindo a dois filmes estrelados por Žižek, Guia Pervertido da Ideologia, de 2012, protagonizado, roteirizado e dirigido por ele mesmo; e Guia Pervertido do Cinema, de 2006, protagonizado por ele, onde ele divide o roteiro com Sophie Fiennes e dirigido por ela; que eu, Rafael, tive a ideia de criar o Cinesofia. Convidei alguns amigos que eu sabia, tinham a mesma paixão que eu e cá estamos.

No campo teórico, Žižek tem na bagagem um sólido embasamento em Hegel, filósofo alemão, e Jacques Lacan, médico, psiquiatra e psicanalista francês. Sua obra, Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, é um livro que ainda hoje me assombra. Já o li, mas se eu lhes disser que estou certo de tê-lo entendido corretamente, mentiria. Entretanto Žižek possui outras obras mais fáceis de serem compreendidas, como por exemplo ViolênciaLacrimae Rerum: ensaios sobre cinema modernoProblema no Paraíso: do fim da história ao fim do capitalismo; ou Vivendo no fim dos tempos. 

Hoje nos interessa o que Žižek nos traz como teoria e prática do humor. Ele que inclusive tem um livro publicado sobre o tema, As Piadas de Žižek – Já ouviu aquela sobre Hegel e a negação?, lançada pela Publifolha.

O que Žižek  nos mostra é que o humor tem funções interessantes em nossas relações humanas. Durante o terrível período stalinista na extinta União Soviética, ele nos mostra que o humor tinha um efeito corrosivo por não apenas caçoar de Stalin e do alto escalão do governo e da burocracia soviética. O humor conseguia retirar o ar de autoridade dessas figuras, deslegitimá-las, ao mesmo tempo que serve, obviamente, como válvula de escape para a população. Žižek nos mostra inclusive, que o sanguinário regime soviético era consciente do poder do humor e de como este o afetaria, tendo aparentemente contratado pessoas para espalhar piadas sobre seus adversários políticos. Os soviéticos não foram os primeiros a lançar um ser vivo ao espaço – um terrível crime contra a cachorrinha Laika – como também foram os primeiros a distribuir fake news.

Mas Žižek remete a Hegel para falar de humor e ironia em sentido amplamente filosófico. Como o próprio Žižek nos mostra em um artigo publicado pelo blog da editora Boitempo, “Hegel contrapunha à ironia subjetiva romântica uma ironia ontológica muito mais radical, que caracteriza o fulcro da dialética. A propósito da ironia socrática, ele assinala que, ‘assim como toda dialética, ela dá força ao que é – tomado em sua imediatez, mas apenas a fim de permitir que a dissolução inerente nela transcorra; e podemos denominar isso a ironia universal do mundo’“.

Em linhas gerais, o que isto quer dizer, é que a ironia reforça o objeto alvo da ironia dizendo mais ou menos assim: “perceba a sua idiotice: ela é tão tosca que merece ser alvo de minhas piadas. Mas assim o é, apenas para que eu a ridicularize na tentativa de que você e as outras pessoas percebam o quanto isto é idiota e portanto que você pare de se comportar de modo idiota“. Ainda assim, lhe parece complicado? Então imagine quando você faz meme com gente machista, homofóbica, racista na internet, com o objetivo de que as outras pessoas deem risada do fulano, e quem sabe, ele sinta vergonha de ser o imbecil que é, e assim pare de ser. Primeiro você aponta para a idiotice, mas para que através do humor, ela desapareça.

Mas Hegel opõe o humor subjetivo ao humor objetivo. O segundo se opõe ao primeiro na medida que o humor objetivo foca em sintomas significantes de nossa ordem existente, trazendo a tona as inconsistências e e antagonismos de nossa época. Žižek nos diz que neste sentido, Stalin é o grande zombeirão do século XX por inverter todas as esperanças emancipatórias do marxismo em uma violência terrorista e autodestrutiva.

E o que isso tudo tem a ver com Choque de Cultura, programa criado pelos caras da TV Quase e apresentado por Daniel Furlan (Renan), Caito Mainier (Rogerinho do Ingá), Raul Chequer (Maurílio dos Anjos, vulgo Palestrinha) e Leandro Ramos (Julinho da Van)? Que é, importante lembrar, é a melhor coisa que a internet nos proporciona hoje.

Choque de Cultura é um programa que faz rir por colocar quatro motoristas de transporte alternativo para comentar cinema e em nenhum momento falar coisa alguma sobre cinema. As piadas do programa são engraçadas porque nenhum dos quatro personagens conhecem absolutamente nada sobre o mínimo de cinema. O único que entende algo – embora muito pouco – sobre o assunto, Maurílio, é humilhado constantemente pela ignorância dos outros três.

O que Hegel nos diria, e com o qual Žižek concordaria, é que o programa funciona e faz rir por mostrar o absurdo da situação que é você assistir programas sobre cinema com pessoas que não são cineastas. Quando vemos quatro motoristas de van falarem meia hora de groselha sobre cinema nós rimos com o absurdo da coisa. É um programa onde se coloca para falar sobre um assunto pessoas que não entendem absolutamente nada dele.

Mas de modo objetivo, Choque de Cultura nos mostra que quase todos os outros canais no Youtube que falam sobre cinema, contém pessoas que entendem pouco ou nada sobre o assunto, mas talvez eles nos enganem com clichês, frases de efeito, termos técnicos, figurino, cenário, edição e etc.

A piada se desdobra e quem sabe, pode nos fazer pensar um pouco sobre porque acreditamos ou validamos a opinião de certo youtuber quando ele fala sobre cinema, ou sobre qualquer outro assunto, apenas por ter uma boa produção, maquiagem, falar palavrão, ou apenas por se encaixar nos nossos padrões de beleza.

Há inclusive uma piada do programa sobre isso. Maurílio pede em certo episódio que reparemos no figurino de Animais Fantásticos e onde eles habitam. Os outros três o humilham e o mandam calar a boca porque o programa é sobre cinema e não sobre roupa. Mas então o filme ganha o Oscar de melhor figurino e no programa seguinte Rogerinho do Ingá pede uma salva de palmas para Maurílio porque ele tinha chamado a atenção para as roupas do personagem e ele teria sido o único a falar disso em meio a tanta gente que se diz especialista em cinema. A piada é: em cada esquina tem um blog/site/youtuber se dizendo autoridade no assunto e mesmo assim o único programa a comentar sobre o figurino de Animais Fantásticos e onde eles habitam, foi um programa que não se pretende sério e faz piada com toda essa patacoada. E ainda, se o seu pai de meia idade que passa o domingo assistindo partidas de futebol da série B do campeonato sergipano tivesse falado sobre as roupas do filme, você provavelmente o teria ignorado ou, em silêncio, o mandado calar a boca.

A contradição é exatamente esta, e por isso o programa não é apenas engraçado, como bastante subversivo: ele mostra que seu tiozão do churrasco manja tanto de cinema quanto a youtuber descolada de cabelo ruivo que a cada dez palavras fala alguma em inglês, ou então solta algum termo técnico sem razão. Que sua mãe, que acompanha novela da Globo e só assiste filme da Sessão da Tarde, e o youtuber barbudinho-hipster-padrão tem praticamente mesmo conhecimento sobre cinema e cultura pop. A diferença é que um é descolado e jovem e o outro não.

Esta contradição fica explícita, bem a maneira de Hegel/Žižek. O próximo passo é a destruição da contradição. Como? Com você dando menos valor a desconhecidos padronizados falando bobagem na internet, e mais valor as pessoas que te cercam quando elas falam com você sobre assuntos diversos.  Inclusive sobre cinema.

 

 

Participe da conversa! 4 comentários

  1. Só um adendo de que Marx também é pilar fundamental para a filosofia de Zizek. Até a investigação que ele faz de Hegel é muio balizada pelo que Marx herdou e criticou de Hegel. Acho que nem teria Zizek sem Marx.

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  2. Só um adendo de que Marx também é pilar fundamental para a filosofia de Zizek. Até a investigação que ele faz de Hegel é muio balizada pelo que Marx herdou e criticou de Hegel. Acho que nem teria Zizek sem Marx.

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Cinema, Filosofia

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