Axel Honneth (Essen, 1949) é um filósofo e sociólogo alemão, diretor do Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt desde 2001, onde sucedeu Jürgen Habermas, seu professor. É professor de Filosofia Social na mesma universidade desde 1996.

Sua obra mais famosa, Luta por Reconhecimento: gramática moral dos conflitos sociais, é onde ele desenvolve sua tese a respeito das três dimensões do reconhecimento humano, seguido das três esferas do desrespeito, para responder a uma pergunta que sempre me incomodou bastante, e deve incomodar um monte de gente também. A pergunta é “porque uma pessoa se engaja em um movimento social, mesmo ela tendo muito mais ônus do que bônus?”

Traduzindo a pergunta de Honneth, o que ele quer saber é porque uma pessoa se engaja em algum movimento social sabendo que muito provavelmente irá apanhar da polícia, talvez ir presa, ser humilhada em festas de família por fazer parte do movimento social, será ridicularizada na internet, será motivo de piada ou mesmo ofendida em alguns espaços sociais, e etc. Em contrapartida, a pessoa sabe, bem ou mal, que os motivos de sua luta, historicamente falando, não serão usufruídos por ela mesma, mas pela geração seguinte, quando muito.

A resposta padrão para esta pergunta é aquela que diz precisarmos lutar para ter um futuro melhor, mas Honneth não se contenta com essa resposta. Este componente motivacional é relativamente fraco para explicar um engajamento tão forte mesmo com tantos problemas. É então que ele propõe uma teoria para as formas de reconhecimento a partir dos estudos de Donald Woods Winnicott na área da medicina e psicanálise.

Grosso modo, as investigações de Winnictt apontam para a criança atravessando algumas fases como a da ira, da descoberta de sentidos, dos objetos de interesse, até o momento onde a criança, pela primeira vez compreende, mesmo que de forma pré-linguística, que existe através do modo como sua mãe a olha. É quando a criança compreende que a mãe a percebe de forma diferente de como percebe a almofada que a criança começa a compreender, mesmo que rudimentarmente, que ela existe de modo diferente. Este passo acontece concomitantemente com o fato da mãe retomar sua vida cotidiana não podendo mais dedicar atenção exclusiva a criança. Acontece portanto o choque das vontades do filho e da mãe. O filho quer atenção e dedicação exclusiva e a mãe não corresponde por motivos óbvios. A criança que até então tinha todas as suas vontades atendidas, interpretava a si mesma como parte do mundo, e o mundo como sua extensão. Agora ela percebe que algumas coisas do mundo não são sua extensão, e portanto existem independente dela mesma, o que faz com que a criança compreenda que ela existe como ser único. Essa primeira forma de reconhecimento, derivada dos estudos de Winnicott, é chamada primeira esfera do reconhecimento, a esfera do amor.

A segunda esfera do reconhecimento é a esfera jurídica-moral, nas relações de direito e autorrespeito. Essa segunda esfera acontece de forma gradual enquanto o sujeito vai crescendo e vivenciando cada vez mais os espaços públicos e percebendo que há normas – leis – para que exista convívio nestes espaços. O conhecimento das normas faz com que os sujeitos possam também ganhar consciência de seus direitos – direito a saúde, educação, moradia, transporte público, etc – e na época moderna, faz com que o sujeito de direitos passe a reconhecer outros sujeitos como reconhece a si mesmo: como alguém que pode fazer aquilo que ele mesmo pode fazer. Isso significa que eu não preciso conhecer a população do Amapá para saber que eles possuem os mesmos direitos que eu, e por isso, nesta medida, somos iguais.

 

A terceira esfera é a esfera da estima social, nas relações de solidariedade. Trata-se em linhas gerais da forma de reconhecimento gerado a partir da estima mútua, que tem por trás um horizonte de valores partilhados entre si pelos sujeitos envolvidos. Explica porque fazemos amizades, e por isso criamos vínculos de estima, com pessoas que partilham nossos valores.

Sintetizando e exemplificando: a partir de Honneth podemos entender como nós começamos a nos perceber como ser humano (através do amor da mãe), quando é que percebemos que outras pessoas são iguais a nós no que diz respeito a direitos e por fim, porque é tão difícil ser amigo daquele cara bolsominion topzera na balada: porque vocês não compartilham quase nenhum valor. Ao mesmo tempo você (ao menos você) sabe que ambos possuem os mesmos direitos, pois as leis devem valer para todos.

Devem, mas não valem.

Sempre que você é desrespeitado nessas três esferas você se motiva para recuperar o sentimento que foi afetado com o desrespeito, e isto é importante. Os sujeitos que não tiveram uma boa estrutura familiar, que não tem seus direitos garantidos ou que não recebem estima social dos grupos que convivem no espaço público, se motivam para que a experiência do desrespeito seja atenuada ao mesmo tempo que a experiência de conviver com outras pessoas que foram desrespeitadas de forma semelhante, aumenta nossa autoestima quase que de modo catártico.

Isso explica porque um evento como a Parada Gay de São Paulo é tão importante: porque a população LGBTQ tem o seu direito de se vestir, de expressar sentimentos, negados diariamente. São ridicularizados constantemente em diversos momentos de suas vidas. Muitos por exemplo, possuem problemas familiares por sua condição existencial. Quando acontece o evento, o sentimento gerado entre os participantes é algo extremamente importante, pois faz com que os sentimentos de desrespeito sejam de certa forma, compensados. É como se dissessem: “está vendo seu homofóbico idiota: hoje, ao menos hoje, eu posso me vestir como eu bem entender. E neste dia você não tem o poder de mandar eu deixar de ser como eu quero ser. Neste dia você não me desrespeitará, mesmo que amanhã nada mude”. O importante é que parte de seus direitos e afetividade são recuperados, e é isto que os motiva. O que acontece na Parada Gay, talvez acabe sendo motivo de conversa e risadas durante o restante do ano inteiro, e isto não apenas faz a vida melhor, como estreita laços de amizade para ficar em apenas um exemplo.

Mas e a Guerra na Síria?

Este é um conflito complexo, que já matou aproximadamente 400 mil pessoas – apenas em 2018 mais de mil crianças já morreram no conflito -, onde 70% da população já não tem mais acesso a água potável, uma em cada três pessoas não consegue suprir as necessidades alimentares básicas, mais de 2 milhões de crianças não podem ir a escola e um em cada cinco indivíduos vive na pobreza.

Os motivos pelo qual a Síria está em guerra repito, é complexo, mas envolve voltarmos a 2011 e entendermos que muitos sírios se queixavam de um alto nível de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política e repressão pelo governo Bashar al-Assad (aonde será que nós já vimos esta história…?). Então um grupo de adolescentes que se sentiram desrespeitados em seus direitos se motivaram e protestaram pintando  mensagens revolucionárias (e agora você sabe a teoria que explica porque eles fizeram isto, mesmo com aquela sensação de que nada mudaria).

Mais protestos pipocaram, o governo os reprimiu duramente, e em 2012 os conflitos chegaram a Damasco e Alepo e então o problema se transforma com a chegada de outros grupos. Torna-se a luta entre dois grupos com bastante força política: uma maioria sunita do país e xiitas alauítas, o braço do Islamismo a que pertence o presidente. Como desgraça pouca é bobagem, o conflito chama a atenção de potências como Rússia e Estados Unidos, e cada qual mata a seu modo, visando lucrar com a morte alheia.

E isto não motiva você a fazer absolutamente nada além de compartilhar fotos terríveis de crianças mortas – é sério, pare de fazer isso – porque o conflito pelo qual passam os sírios não move uma grama no modo como suas relações afetivas – familiares ou não – ou seus direitos são garantidos. E aqui é bom frisar novamente: quando suas fotos de crianças sírias mortas ganham 10k de curtida, nada muda além da massagem em seu ego. Continua morrendo uma criança por hora em solo sírio, infelizmente.

E por não haver pressão popular suficiente é que as nações que poderiam realmente colaborar não o fazem: seus eleitores não se manifestam neste sentido. Aliás, é possível que você talvez não veja nenhuma contradição entre rezar um Pai Nosso na missa de domingo pedindo paz na Síria e pedir a liberação do porte de armas.

Se estes problemas causassem em você algum tipo de desrespeito, então seria possível a criação de grupos organizados, pedindo o boicote de empresas que lucram com o conflito na região como por exemplo a Boeing, que fatura 30 malditos bilhões por ano com a indústria da guerra. Ou a Corrections Corporation of America, maior empresa privada de administração de presídios dos EUA, que agora além de assassinos também aloja refugiados com o mesmo zelo, em prédios com a mesma estrutura.

Se você, verdadeiramente se sentisse desrespeitado com o conflito na Síria, você então participaria de atos contra os governos dos EUA e da Rússia que pouco tem feito além de matar a torto e a direito. E eu nem quero entrar na questão envolvendo as empresas do ramo petrolífero.

Mas quem ai está disposto a parar no posto de gasolina e protestar com alguns cartazes exigindo saber se a Shell ou Texaco extrai petróleo de locais em guerras como a da Síria? Talvez o preço da gasolina suba dessa forma. E você toparia pagar seis reais no litro do combustível se soubesse que assim o conflito na Síria se resolveria?

Ou ainda, quem está disposto a ter seu PS4 ou iPhone sobretaxado se realmente o Brasil e os EUA tivessem suas relações comerciais estremecidas após o governo brasileiro exigir que a ajuda dos EUA a Síria não passe pela morte de civis? Claro que exigir algo humanitário do governo Temer é uma piada, mas você entendeu.

De todo modo, quem?

Se você parou pra pensar antes de responder, tenho péssimas notícias pra ti.

Você provavelmente está pouco se importando com todas aquelas pessoas. Acredito que está atrás é de like para manter a pose de bom moço, boa moça, entre os dois mil desconhecidos que são seus contatos no Face.

E isto não resolve, nem significa nada.

 

Participe da conversa! 4 comentários

  1. Qd eu crescer quero escrever tal qual vc. 😀 Muito coerentes suas reflexões, construções, associações, alusões, referências…

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  2. Gostei. Adoro ler as possibilidades de aplicação da psicanálise. Mas nos desafio (me incluindo, claro) a encontrar novas categorias que contemple as dimensões da nossa realidade brasileira. Claro que seu objetivo era justificar o impulso pelo aliviamento do nosso desemparo freudiano quando você demonstra não haver um comprometimento daqueles que compartilham imagens da Síria em guerra, porque com certeza, alguma página de marketing sabe que isso dá “likes”. Mas e nós!? O que nos explica?! Estou apenas instigando uma reflexão que teu texto despertou em mim. Obrigado pela leitura!

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