6 de março de 2018

Merlí – Guy Debord

A Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967 foi uma das obras essenciais durante as revoltas de maio de 68 em Paris. Era ferramenta de combate sempre encontrada nas barricadas estudantis levantadas contra o regime francês do general conservador Charles de Gaulle. Sim, eu sei, dizer general conservador é um pleonasmo.

A obra foi publicada por Guy Debord, (Paris, 28 de dezembro de 1931 — 30 de novembro de 1994) filósofo e cineasta crítico da forma como nós nos relacionamos com as imagens e com a estética. Pode-se dizer que é possível encontrar ecos de Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer em Guy Debord.

Porque embora por outro caminho, sua crítica remete ao fato de que nossa relação com as imagens veiculadas até nós acontece de forma passiva. Entretanto nenhuma imagem que chega até nós é neutra. Todas elas possuem em si alguma mensagem como “se excite”, “compre”, “venda”, “viaje” e etc. Nossa passividade diante da estética gera em nós um comportamento acrítico. Com o tempo nós abdicamos da dura realidade dos acontecimentos da vida e passamos a viver uma realidade que é movida por aparência e consumo. Basta lembrar os youtubers que você segue ou assiste e se perguntar porque o faz. Ou então pense naquela garota que você tem como amiga no Facebook, e que faz uma live de meia hora, onde tudo que se vê é ela segurando o cabelo e fazendo bico de pato, rindo sem motivo algum. Mesmo assim tem quase mil pessoas presos naquilo.

Neste sentido Guy Debord afirma no aforismo 36 do livro a Sociedade do Espetáculo que “o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, ao mesmo tempo que se faz reconhecer como o sensível por excelência“. Em outras palavras, nosso contato com o mundo de verdade se perde e, ao invés de vivermos o mundo real, passamos a nos relacionar com imagens desconexas que não possuem contato com a realidade concreta. Porque nenhum youtuber é o que ele aparenta ser 24 horas por dia. Antes disso, é um personagem de si mesmo, com algumas características transformadas em caricaturas que se presta a tomar o lugar da pessoa real. Existe o Whindersson Nunes que reclama no Twitter que 2017 foi um ano difícil, cheio de desgraça. E existe o Whindersson Nunes que tem um heliporto em casa e viaja para a Europa quando lhe dá na telha.

O episódio de Merlí onde ele explica sobre Guy Debord mais uma vez apresenta em seu roteiro a tese apresentada em sala da aula, neste caso, a sociedade do espetáculo. Monica tem um vídeo íntimo vazado pelo ex namorado entre os colegas de seu atual colégio, o Instituto Àngel Guimerà, ao mesmo tempo que o relacionamento entre Merlí e Gina é descoberto pelos alunos que em pouco tempo espalham a notícia.

Em contraponto com a sociedade do espetáculo, onde as pessoas transformam a si mesmas em produtos a serem expostos no Instagram ou em qualquer outra rede social, há Ivan, ainda sofrendo de agorafobia. Em uma das cenas ele está sentado na calçada com Merlí, escondendo o rosto, sofrendo visivelmente. Eis que Merlí contrapõe um ponto fundamental que também é trabalhado por Debord: ele afirma a Ivan que nenhuma pessoa está reparando nele naquele momento. Estão todos ocupados demais com suas vidas para repararem em alguém. Na vida real somos todos anônimos, e é este anonimato que a sociedade do espetáculo destrói. E isto tem efeitos problemáticos sobre nossa vida privada.

Bruno por exemplo, filho de Merlí, ao saber que seu pai namora Gina, mãe de Gerard e amigo de sala de Bruno, vai tirar satisfação com o pai. “Porque ele namora Gina?“, é sua indignação. “Não aceito ter que justificar minha vida privada”, responde Merlí. Sabemos que a noção de vida privada que temos hoje tem mudado no decorrer do tempo e basta para isso ler os cinco volumes da coleção História da Vida Privada, organizada pelos pesquisadores PhillippeAriès e Georges Duby. As estruturas da esfera privada também foram bastante modificadas com a novidade dos cafés de rua inaugurados durante o iluminismo, como nos aponta Habermas em Mudança Estrutural da Esfera Pública, sua primeira grande obra nascida de sua tese de doutoramento.

Mesmo assim nossa noção de privacidade foi profundamente desestabilizada com o advento de uma tecnologia que não apenas expõe nossa intimidade, como nos incentiva e recompensa por isso. A recompensa é o bombardeio de serotonina e dopamina que seu cérebro descarrega em seu organismo a cada like que uma foto sua recebe. Estamos em um ponto onde somos pressionados a justificar o modo como vivemos em nossa esfera privada. Talvez sempre tenha sido assim e a internet apenas tenha potencializado este fenômeno.

A saída que Merlí aponta para Monica que, envergonhada, parou de frequentar as aulas, é a consciência daquilo que faz ou deixa de fazer com seu corpo e o esquecimento da culpa cristã. Não se trata de culpar a mulher pelo que ela fez deixando-se gravar, mas de problematizar porque ela se sente culpada por ter sido gravada feito algo que as pessoas estão ou estarão acostumadas a fazer: sexo. É preciso se reconectar com sua intimidade, não pela via da culpa (sinto-me culpada do que fiz), mas sim pela via da reflexão (refleti sobre expor ou não meu corpo, e decidi não mais o fazê-lo).

Ao fim do episódio, essa reflexão aparece quando os alunos que passaram o vídeo adiante, estes os verdadeiros culpados, acabam abaixando suas calças, ficando apenas de cueca dentro da sala de aula. Obviamente isto é liberdade poética da série, mas nos faz pensar exatamente onde está a culpa em sentirmos prazer com nossos corpos quando ao mesmo tempo que, dentro do contexto do episódio, nos faz refletir sobre não apenas desejamos mostrar-los na internet e não no mundo real. Também somos convidados, indiretamente a pensar que não são todos os corpos que se tornam mercadoria dentro da internet ou na indústria da moda.

São corpos que essencialmente não existem. Corpos que foram modificados pelo filtro do Instagram para realçar alguns atributos do seu rosto, ou que passaram pelo Photoshop para que alguns sinais e “imperfeições” (com todas as aspas possíveis) desapareçam.

De forma que, então, pergunto eu: de que forma você tem aproveitado sua privacidade e sua vida íntima?

A resposta não me importa. Apenas pense a respeito, porque a pergunta agora é sua. Faça dela o que quiser.

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Belo resumo, simples e indica a filosofia dentro dos padrões atuais onde a tecnologia nos aproxima, mas que preceitos cristãos que associam ser moral com exibir o corpo ainda são quase medievais.
    Na sociedade aumentou a influência da tecnologia enquanto a criticidade recuou.

    Curtido por 1 pessoa

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Filosofia, Séries

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