A Escola de Frankfurt me assustava na universidade. Eu era monitor da disciplina de lógica e linguagem e já naquela época sabia explicar sem consulta Wittgenstein e Frege, e os diálogos platônicos sobre linguagem eram mamão com açúcar. Silogismo aristotélico nunca foi problema. O mesmo vale para outras escolas e correntes filosóficas: existencialismo francês, empirismo associacionista britânico, pragmatismo norte americano, idealismo alemão entre outras. Mas Escola de Frankfurt era meu calcanhar de Aquiles.

Até que meu amigo William Dubal me disse para eu conhecer Theodor Adorno (Frankfurt am Main, 11 de setembro de 1903 – Visp, 6 de agosto de 1969) e Max Horkheimer  (Estugarda, 14 de fevereiro de 1895 — Nuremberga, 7 de julho de 1973) enquanto tomava Itaipava e comia risole comigo no Bar do Lenda, em frente a Universidade Metodista de São Paulo. Uma conversa da qual ele já deve estar esquecido hoje em dia. De qualquer forma pediu que eu lesse algo sobre o livro A dialética do esclarecimento e a impressão que tive é que uma nova porta da percepção se abriu em minha cabeça. Muita coisa passou a fazer sentido. Vamos ver do que se trata a obra portanto.

Iniciamos com uma das perguntas que qualquer marxista sério precisa ser fazer, seja em 2018, seja em 1944, ano em que o livro foi lançado: porque a revolução dos trabalhadores prevista por Marx nunca ocorreu? Porque qualquer ser humano que já bateu ponto as 8:00 e as 18:00 no trabalho sabe que é explorado e nada faz para mudar sua condição? A resposta de Adorno e Horkheimer fala sobre o processo de criação da sociedade moderna, pós revolução industrial. Na era industrial o fator fundamental para o desenvolvimento da vida social não passa por aprimoramento ético, moral ou mesmo espiritual. Passa antes pelo progresso constante. Há a ideia – equivocada ou não – de que nossa vida há de melhorar apenas e somente se houver crescimento econômico.

Disto decorre que a valorização do desenvolvimento conduz ao empobrecimento do pensamento e da experiência vivida. Nossos critérios de felicidade, bem estar, prazer e outros não passa mais pela realização ou vivência de situações onde exista troca de afeto ou de qualquer outro sentimento como o estupor ou epifania. Passa pela compra de determinados itens, que ao serem comprados, faz a indústria e o comércio progredirem. E é da força deste progresso que a sociedade industrial retira sua ideia de contentamento.

Para que as condições de progresso infinito se materialize, o trabalhador precisa corresponder a pressões das mais variadas formas: jornadas de trabalho maiores, resultados cada vez mais inflacionados, recursos sempre escassos, produção mais acelerada. Condições estas que acabam por produzir nos trabalhadores uma sensação de impotência e conformismo, pois sua capacidade reflexiva não é exigida em nenhum momento de sua vida adulta, seja enquanto trabalha seja enquanto está fora do trabalho.

Abre parênteses: sobre a ideia de progresso infinito deixo como recomendação para reflexão a leitura de O Capital no século XXI e A economia da desigualdade de Thomas Piketty. Se tiver tempo e acesso ao inglês, leia Why save de bankers? Fecha parênteses.

Esta mecanização das relações humanas e sociais que nasce junto com a modernidade acaba desembocando em um cenário onde até mesmo o lazer e a diversão do ser humano se transforma em mercadoria. Acabam os passeios no parque, o ócio na praça, o cigarro de palha no quintal, a pesca com varinha de bambu e nascem os passeios nos mercados e posteriormente nos shoppings, o filme no cinema, a balada, os cruzeiros marítimos. Desta forma, em nossas horas de lazer, acabamos por reproduzir o mesmo modelo que rege as relações no trabalho. E assim o trabalho intelectualizado se perde – vocês não vão acreditar, mas houve uma época onde ser filósofo era altamente sofisticado e apreciado na sociedade – e o ser humano se torna um reprodutor dessas formas de vida. Nossos critérios de felicidade e lazer se tornam uma esteira de produção onde pegamos aquilo que estamos acostumados a pegar desde sempre: filmes, celulares, tênis Nike, óculos da Chilli Beans. Esta ideia de lazer através do consumo advém daquilo que Adorno e Horkheimer chamam de Indústria Cultural.

E quando a Industria Cultural percebe que os padrões de felicidade e lazer sociais dependem dos produtos desenvolvidos pela própria indústria, a competição entre empresas do ramo reduz a humanidade em indivíduos que podem ser satisfeitos através de produtos fornecidos. Estes indivíduos jamais são provocados a refletir sobre seu consumo, nem sobre coisa alguma. A única reflexão que lhes é instigada é “eu compro um celular da Samsung ou um iPhone?” ao invés de por exemplo se perguntarem algo como “puta merda, será que eu REALMENTE preciso trocar de celular a cada cinco anos?

E a arte entra nesse meio. As empresas que produzem arte como gravadoras ou estúdios de cinema fazem o seu público consumidor pensar em termos de “eu assisto Pantera Negra ou Mulher Maravilha?” ao invés de pensar “não quero assistir filme nenhum. Prefiro ler Guerra e Paz“. A própria arte perde seu caráter profundamente crítico e contestador para se tornar pasteurizado o suficiente para que qualquer pessoa possa consumir este produto, ao invés de um público intelectualizado e crítico. É exatamente por isso que Querido John que levou milhões aos prantos quando virou filme, vende mais que Esperando Godot, de Samuel Becket. Não se trata de elitização da arte tão somente. A explicação é que o primeiro não requer nenhuma base reflexiva para ser apreciado, sendo inclusive capaz de emocionar com a romantização pobre e burguesa do amor. O outro é um troço que você termina de ler e se pergunta o que aconteceu. Ou você possui bagagem ou não entende. Ou pior ainda, entende errado.

Sacou essa parte? Vamos falar de Michel Foucault (Poitiers, 15 de outubro de 1926 — Paris, 25 de junho de 1984), e prometo ser breve.

Nos interessa aqui a teoria de poder positivo de Foucault, que também pode ser chamada de poder em rede. Aqui no Brasil foi publicado uma série de entrevistas e artigos de Foucault com o título de Microfísica do Poder onde o tema central é a teoria em questão.

Trata-se, de modo breve, de compreender que é mais provável que alguém cumpra suas ordens se, ao invés de punir a pessoa desobediente, você recompense o comportamento desejado. Ao invés de dizer a seu filho que estude senão ele fica sem o Playstation, você diz a ele que se ele passar de ano sem recuperação ele ganha um iPhone novo. O comportamento desejado é: “estude”. E da segunda forma as chances de que ele estude tentem a ser maiores. Claro que em contrapartida você precisa cumprir com sua parte e dar o iPhone no Natal.

Desta forma Foucault diz que as engrenagens de poder espalhadas na sociedade vão se aperfeiçoando através de recompensas diversas para que o sujeito escolha de modo voluntário, não modificar as estruturas de poder. Quer dizer que ao invés do filho questionar o pai, o professor e todo o sistema escolar sobre o porque dele ter que aprender a fórmula de Bhaskara, ele se cala porque deseja o iPhone. E dessa forma no ano seguinte algum outro aluno se perguntará secretamente porque decorar a tal fórmula, e por sua vez não tentará mudar o sistema escolar porque deseja algum tipo de recompensa que pode ser o iPhone ou simplesmente não reprovar o ano letivo. Neste caso a recompensa é esta: “cale-se e estude, e como recompensa você irá embora mais cedo da escola do que se reclamasse“.

Então a atriz Frances McDormand, eleita melhor atriz por sua atuação em Três Anúncios para um Crime, que provavelmente nunca leu uma linha sequer de FoucaultAdorno ou Horkheimer, pede que as outras indicadas na mesma categoria se levantem e faz um discurso pedindo maior inclusão feminina em Hollywood. Ao fim pede que os atores exijam a cláusula de inclusão nos contratos, o que significaria maior diversidade étnica, sexual e cultural nos filmes. É um discurso bonito e emocionante que realmente tem o poder de mudar algo para os atores de Hollywood que não ganham menos de 500 mil dólares por filme feito.

E para o trabalhador transsexual lá do Capão Redondo? O que muda? 

Ele se sentirá representado, e obviamente isso tem algum efeito. Não sou tolo em dizer o contrário. Mas se Adorno e Horkheimer estiverem certos, não importa o gênero, a etnia ou a cultura apresentada em qualquer filme de Hollywood: são todos inócuos e com pouca capacidade real de provocar no público uma reflexão mais profunda.

Mas há ventos de mudança na indústria do cinema, você me diz, e é verdade. Quem levou o troféu de melhor filme foi A forma d’água, um romance entre uma mulher e um monstro marítimo, que pode ser lido como uma metáfora muito bonita sobre o amor em tempos de levantamento de muros. E este é um filme feito por um mexicano, o que torna tudo ainda mais provocante. Ano passado o filme vencedor foi Moonligth, protagonizado por um personagem negro, gay, pobre e traficante. Há sinais de mudança. Mas então, mesmo nesse cenário, mesmo acreditando que a indústria do cinema queira se tornar mais crítica – o que eu particularmente não acredito – eu não consigo me esquecer de Foucault me alertando que as estruturas de poder são capazes de oferecer pequenas recompensas para que a própria estrutura permaneça, com os opressores de um lado e os oprimidos de outro.

E ai eu pergunto de novo: o que muda efetivamente na vida do transsexual lá do Capão Redondo, que não se sente seguro em assumir sua vida sexual, nem de se vestir como deseja por medo de perder o emprego ou de ser esfaqueado enquanto lava as mãos no banheiro?

Será que o sentimento de representatividade não é uma faca de dois gumes que por um lado oferece uma compensação psicológica às populações historicamente marginalizadas para que exatamente desta forma, elas permaneçam marginalizadas? Algo quase como um “cala a boca que você conseguiu o que queria, fizemos um filme em Hollywood onde todos os atores são negros. Não está bom?

Claro que não está. Óbvio que não está. E a pergunta, repito, é esta: será que talvez, apenas talvez, não seria exatamente estas recompensas paliativas – que não custa lembrar, vem de uma indústria acrítica por definição, a indústria do cinema – que tem bloqueado um movimento realmente emancipatório que é urgente e necessário?

Se minhas leituras de Foucault, Adorno e Horkheimer estiverem certas, a resposta é sim. Neste caso convém parar de dar tanta atenção para discursos no Oscar e mais para a vida real que nos cerca diariamente. Porque senão você será só mais um que aplaude discurso de artista engajado – e que bom que ao menos os artistas estão se engajando – e se cala quando o amigo faz aquele comentário homofóbico ou racista.

E de gente assim o mundo não precisa mais.

 

 

Participe da conversa! 4 comentários

  1. estou emocionada com tanta verdade

    Curtido por 1 pessoa

    Responder
  2. texto bom de ler.

    Curtido por 1 pessoa

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

CATEGORIA

Cinema, Filosofia

Tags

, , , , , , ,