1. Nietzsche nos pergunta em seu último livro antes da sua loucura irreversível que o acometeu pelos seus últimos dez anos de vida, Ecce Hommo:

“Nesse ponto não é mais possível se desviar da verdadeira resposta para a pergunta como a gente se torna aquilo que a gente é… […] Assumindo, pois, que a tarefa, a determinação, o destino da tarefa está bem acima de uma medida regular, nenhum perigo seria maior do que ver a si mesmo, cara a cara, através dessa tarefa. Que a gente se torne o que a gente é pressupõe que a gente não saiba, nem de longe, o que a gente é. A partir desse ponto de vista, até mesmo as decisões erradas da vida – os desvios e descaminhos, os atrasos, as “modéstias”, a seriedade esbanjada em tarefas que não fazem parte da tarefa – têm seu valor e sentido peculiar… [grifo do autor]”

Foi uma das primeiras perguntas filosóficas sérias que eu tive de encarar em minha vida. Eu com vinte anos passava dias e noites pensando o que eu afinal era. Notem que a pergunta aqui não é quem eu sou, mas o que eu sou. Eu estabeleci como prioridade saber o que eu era para depois entender como eu me tornei o que sou. E me coloquei a investigar minha vida através do espelho retrovisor à maneira de uma música do Pearl Jam, Rearviewmirror, sabendo que foram as surras da vida que me tornaram e me tornariam sábio, e que eu não me desculparia por ter provocado essas surras, e também não agradeceria por elas. Apanharia da vida com dignidade e de queixo erguido.

 

2. Três eventos ocorreram em minha vida que ajudaram a me transformar nisto que sou hoje: a morte de meu primo Juliano, com 24 anos; a morte de minha tia avó Maria Antônia – Tia Nem, para os íntimos; e o câncer de minha mãe Sônia Maria.

Minha infância foi uma infância pobre. Meus pais tinham pouca grana e quando saiam para trabalhar eu ficava na casa de minha tia avó Maria Antônia, costureira e dona do melhor café de todo o mundo. Em 1990 três homens armados invadiram nossa casa, nos fez de reféns, bateram em meu pai, levaram tudo que podiam e nesta ocasião nós fomos morar na casa dela até conseguirmos uma casa nova para morar. Meu pai também faliu na época do plano Collor e falido como estava, acabamos ficando sem ter onde morar. Ela nos acolheu pela segunda vez. Então eu, minha mãe e minha irmã fomos morar com meu avô no interior de São Paulo, em Santa Bárbara d’Oeste, em frente a um lugar que estava se tornando um lixão. Meu pai ficou morando em São Paulo, na casa dela durante um ano inteiro procurando emprego. Eram tempos difíceis e a principal lembrança que tenho daquela época é de nós plantando alface e de meu avô José fazendo armadilha de passarinho para termos o que comer. Em outra ocasião meu pai perdeu o emprego, atrasou vários meses de aluguel e mais uma vez nossa família foi morar na casa da minha tia Maria Antônia antes de novamente se dividir. Dessa vez nós fomos para o Paraná enquanto meu pai ficou na casa dela mais uma vez procurando emprego.

Quando o marido da minha tia avó morreu eu não quis ir ao seu enterro. Ela era um anjo de Deus, ele um homem sem coração. Minha mãe ralhou comigo, mas imbecil que era, permaneci irredutível. Ao fim de seu velório minha mãe, ao invés de brigar mais, disse: “Sua tia passou o velório inteiro perguntando de você Rafa. E eu não sabia o que dizer a ela.” Percebi a merda que eu tinha feito. Havia abandonado a mulher que me criou com café, leite, pão e polenta quando ela precisou. Prometi a mim mesmo que iria me desculpar assim que a visse. Então ela foi ao hospital fazer alguns exames de rotina, sofreu uma complicação, entrou em coma e morreu. E eu não pude lhe pedir desculpas nunca mais.

Eu morava em São Paulo naquela época e meu primo Juliano em Jandaia do Sul, Paraná, e iria se casar. Estava com a casa mobiliada, data marcada, festa organizada. Me convidou para seu casamento e eu disse que não iria pois tinha muita coisa para fazer na faculdade, tinha que trabalhar e não conseguiria ir. Ficaria sem dinheiro e cansado com a viagem. Disse que iria visitá-lo nas férias de dezembro, e então conheceria sua esposa e daríamos boas risadas. Ele se casaria no sábado, mas ao fazer um retorno numa rodovia um caminhão atropelou seu carro e destruiu seu corpo e o de sua noiva. Ambos morreram e o velório teve de ter o caixão fechado. Eu fiquei em choque e lá estava eu, em seu velório, pensando porque ele tinha que morrer tão jovem, sem saber que não importa como está seu coração quando você pergunta uma coisa dessas. Simplesmente ninguém responde. Então caiu a minha ficha. Eu não iria para seu casamento, mas acabei indo ao seu velório.

Então eu me mudei para o Rio Grande do Sul. Em 2011 recebo uma ligação de minha prima Bertulina. Ela diz que não havia jeito fácil de dar a notícia, então daria do modo rápido: minha mãe tinha câncer no reto e não tinha muitas chances de sobrevivência.

Minha mãe lutaria três anos contra a doença, e eu sem dinheiro para cuidar dela como eu queria. Ela em São Paulo, eu no Rio Grande do Sul, dormindo e acordando angustiado. Tive tempo para refletir que eu não havia sido um bom filho. Dei a ela muitos fios de cabelo branco sendo uma pessoa ruim. Também lembrei as vezes que fui cruel com ela, mas isto eu não tenho coragem de escrever. Até queria, porque escrever, botar pra fora, é terapêutico. Mas ainda não consigo. Já estou me debulhando de chorar com o que escrevi até agora, então não vai rolar.

Quis os céus que minha mãe mostrasse ao câncer quem é que manda. Ela venceu a doença, não sem antes ter uma complicação. Quando ela fez a cirurgia para religar o intestino e o reto, o corpo rejeitou, e pelos pontos de sua barriga começaram a vazar pus e fezes. Ela acordou gritando de dor, meu pai a levou para o hospital de madrugada, e então, enquanto estava parado num semáforo, um homem dorme na direção e bate na traseira do carro de meu pai. O estômago de minha mãe sai pelos pontos de sua barriga e ela é internada as pressas para uma cirurgia de emergência. Ela vive, e desde então eu tento ser um outro tipo de ser humano com ela. E não somente com ela.

 

3. Essas coisas todas acabaram me levaram a ler Michel Onfray (Argentan, Orne, 1 de Janeiro de 1959). Ele é um filósofo francês que, assim como eu veio da periferia, filho de pais pobres, sem prestígio. Ele não estudou nas universidades da elite francesa tanto quanto eu não estudei na USP. Onfray ficou em um internato onde era estuprado por padres e era humilhado por eles por sua origem humilde. Lhes diziam que ele burro demais para a filosofia. Sua mãe era costureira assim como minha tia avó e seu pai fazendeiro. Presenciou seus pais sendo humilhados pelas pessoas e pela vida e jurou dizendo: “vi meus pais humilhados, e não suporto a humilhação. Lembro-me que me prometi lavar a ofensa”.  Jurou como eu jurei vendo meu pai desempregado, comendo mal, com as contas atrasadas, ordem de despejo, luz cortada, água cortada. Não suporto a humilhação e também prometo lavar essa ofensa.

A mulher de Onfray sofreu por dez anos com dores horríveis por causa de uma doença incurável. Dez anos de sofrimento depois os médicos franceses deram a ele a opção da eutanásia porque o quadro dela era irreversível e sua vida era dor e desespero. Por fim seu pai morre em seus braços. E Onfray diz, quando perguntado, que é feliz. Muito feliz. Porque em todos estes anos a filosofia o serviu de companheira. Nas noites no hospital, seus conselheiros não lhe davam respostas, mas o faziam pensar sobre a vida e encontrar respostas que lhe servissem. Onfray se aconselhava com Schopenhauer, Nietzsche, Epicuro, Aristipo.

A filosofia não entregou resposta pronta para Onfray, garoto pobre e violentado. Também não entregou para mim. Ela me fez pensar.

E eu pensei e pensei e pensei. E descobri que por muitos anos a resposta para pergunta do Nietzsche foi que eu me tornei o que sou esperando a vida me bater.

Onfray teve que tomar uma decisão quando sua mulher estava sofrendo uma dor sem volta. Ele agiu, tendo em vista que a vida não é perfeita, e que nela o máximo que podemos encontrar são momentos prazerosos e só. É agindo, não reagindo, que ele está para escrever seu centésimo livro; que ele criou a Universidade Popular, em Caen onde ele leciona para caminhoneiros, prostitutas, padeiros, açougueiros e outros trabalhadores que não são lembrados pelas universidades da elite francesa assim como são ignorados pela USP, pela UFRGS, pela UFF e tantas outras.

Eu aprendei com Onfray que a pessoa que eu fui não era quem eu queria ser. E que eu posso construir quem eu desejo ser com a filosofia. Mais uma vez, sem respostas prontas, mas com perguntas que me deixaram sem dormir por meses a fio, estudando e escrevendo não para acadêmicos que não sabem meu nome ou para revistas de filosofia que ninguém lê, nem quem as publica. Mas para vocês que não são filósofos mas que precisam da filosofia e nem sabem.

Para vocês que trabalham em empregos que lhe tiram muitas vezes até mesmo a dignidade moral, em jornadas de trabalho que ultrapassam o limite humano e por isso não tem tempo ou cabeça para pensar nessas coisas por si só. Não é que não consigam, mas é porque os problemas da vida lhes atropelam.

Hoje meu pai está mais uma vez desempregado. Aos 56 anos ele sai em busca de emprego antes que as contas se acumulem ainda mais, mas eu não vou esperar a vida bater de novo. Eu vou lavar essa ofensa, e não vou deixar a vida tratar minha família com mais dureza do que já tratou. Eu ainda não sei direito o que vou fazer, porque sou apenas um professor de filosofia do ensino médio. Mas isto que sou muito me honra. Tenho bastante orgulho do que ensino, dos meus alunos todos, e das escolas que me abriram as portas para que eu pudesse fazer aquilo que amo e sei fazer.

Aprendi com Onfray que eu não devo esperar a vida me atropelar para me tornar quem eu sou e que minhas respostas mais profundas não precisam nascer de tragédias inevitáveis. Eu sei que ele não vai ler estas palavras, mas mesmo assim, obrigado cara.

Muito obrigado.

E quanto a você meu pai, confie em mim. Ainda não sei como, mas eu darei um jeito nisso pra vocês todos. Ainda não sei como, mas darei.

 

Participe da conversa! 6 comentários

  1. Porra rafa. Fiquei com os olhos cheios de lagrimas até que finalmente chorei ao final do texto.
    Me identifico com a tua vida, sinto muito pelo que aconteceu..

    Tu é um baita ser humano cara. Só Continua.

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  2. Agradeço por compartilhar seus sentimentos e vivências, passei por essas experiências e dilemas, a filosofia meio que me salvou, não sei se um dia terei a sua coragem de me expor, parabéns por seu trabalho no magistério, pela bela pessoa que demonstra estar se tornando, que sua jornada se torne mais leve e suave a cada passo, abçs!

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    • Obrigado Rose. Se precisar falar, as vezes com um desconhecido é mais fácil. Então é só deixar um comentário na página do Cinesofia no Facebook que eu entro em contato.
      Bjos

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  3. Obrigada por existir e suscitar o que suscitou em mim, após a leitura de uns três textos seus!! Fantástico! Prazer em ter te conhecido hoje!

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