Karl Heinrich Marx  (Tréveris, 5 de maio de 1818 — Londres, 14 de março de 1883) – conhecia o seu nome do meio? – é o fantasma que assombra os fascistas desde os idos do século XIX. Digo que assombra os fascistas e não a direita porque os liberais clássicos, os utilitaristas, os economistas da Escola de Chicago, da Escola Austríaca ou mesmo os ordoliberalistas alemães do pós guerra não se incomodam com o bom velhinho. Ao contrário, reconhecem sua magnífica contribuição intelectual para as ciências sociais e  humanas. Entrego de bom grado minha alma a Satã se você encontrar uma universidade séria onde os departamentos tratem o pensamento marxista do jeito que ele é tratado pelos adolescentes punheteiros no Facebook. Porque eu você sabemos (você sabe né?) que discordar é uma coisa e usar atalhos cognitivos por incapacidade de compreender a profundidade e os nuances teóricos de algum autor para depois criar memes e fazer piada são coisas beeem diferentes. Certo?

E desde já eu admito não ser nenhum especialista em Marx. Aliás, ao contrário do dito popular, em 16 anos frequentando campus universitários deste Brasilzão, seja como aluno, seja como pesquisador, encontrei apenas duas pessoas que se pretendiam especialistas em Marx sendo uma delas meu antigo professor Rodnei – ele participou do programa Roda Viva debatendo com ninguém mais ninguém menos que Slavoj Zizek – e um outro rapaz que está se doutorando em Filosofia pela UFRGS. E ambos concordam: Marx é difícil. Mas é difícil demais.

Desculpem-me se portanto eu não conseguir traduzir em termos mais simples o conceito marxista de ideologia.

Começando por explicar que não foi Marx quem cunhou o termo, mas sim o conde Antoine-Louis-Claude Destutt (Paris, 20 de julho de 1754 — Paris, 10 de março de 1836), leitor de Condorcet. Após mais ou menos dez anos após a queda da Bastilha, o conde Destutt ficou exilado em Bruxelas e começou a publicar a obra de quatro volumes chamada Eléments D’Idíologie (1801-1815), com a pretensão de fundar um campo nove do estudos que serviria de base a todas as ciências. Seria como se o conde Destutt quisesse refundar a filosofia, e a este novo campo destinado a ser a ciência das ideias, ele chamou ideologia, cujo projeto seria tratar das ideias como fenômenos naturais que pudesse exprimir a relação entre homem e seu meio de vida. O estudo da ideologia poderia responder sobre a verdadeira natureza humana questionando e investigando de onde vinha nossas ideias e como elas se desenvolviam.

Marx se apropria deste termo e lhe dá uma função semelhante a original. A diferença é que Marx percebe que o conceito de ideologia nos serve para explicar não apenas as relações entre homem e seu meio, ou de onde vinham nossas ideias. Ele percebeu que ideias possuíam um sentido mais vasto e que poderiam ter serventia como um instrumento poderoso. Isso quer dizer que a geração de ideias não é um processo espontâneo, e isto Marx aprendeu com Hegel, través do processo hegeliano que nós conhecemos como dialética – embora Hegel, até onde eu sei, jamais tenha usado esta palavra para descrever seu método filosófico.

É através do conflito entre sistemas que se reconhecem mutuamente e se chocam que o processo de avanço da História ocorre. Cada lado do embate reconhece o outro, e através deste reconhecimento, o valida. Em termos mais compreensivos, a tese reconhece a antítese e vice e versa. Não se trata apenas do desejo de aniquilação ou superação do diferente, mas antes, de aceitação e validação através do reconhecimento de seu valor-para-o-outro.

Deste modo, diz Marx, nós temos consciências que se reconhecem entre si no mundo, de modo antagônico – exatamente como descreve Hegel em Fenomenologia do Espírito. Cada consciência entretanto busca validar sua vontade sobre a outra quando eventualmente seus desejos buscam os mesmos objetivos. A ideologia é uma ferramenta de validação do ponto de vista de determinada consciência no mundo sobra a outra, e este processo é conflituoso por definição, não porque Marx assim o quer, mas porque suas leituras e investigações sobre a fenomenologia hegeliana o levaram a esta conclusão.

É importante frisar isto, porque ao contrário do que se pensa, Marx não escreveu seus livros – como por ex. O Capital, Ideologia Alemã ou mesmo o simpático Manifesto do Partido Comunista que muita gente xinga sem nunca ter lido – acordando de manhã, coçando o saco e dizendo “Hey, vou escrever um livro!“. Talvez a Kéfera ou o Felipe Neto façam isso, e isso explica porque seus livros são péssimos. Marx escreveu livros após ler muito sobre autores que talvez você nem saiba que exista, e mesmo que soubesse, muito provavelmente leria e não entenderia muita coisa em um primeiro contato. Não porque você não tem capacidade, mas porque filosofia, sociologia, política, história e qualquer outra disciplina das ciências humanas são muito difíceis. Não é porque um livro não tem nenhuma fórmula matemática que ele é fácil.

Uma das – muitas – grandes contribuições de Marx portanto foi perceber que ideias podem servir como ferramenta no conflito entre consciências-de-si-em-si-e-para-si, que apenas o são porque são-em-si-e-para-si-uma-Outra, para usar o termo tal e qual Hegel o utiliza na página 126 de Fenomenologia do Espírito, pois proporcionam aos sujeitos em conflito formas de transpor as vontades uns dos outros. Difícil? Eu imagino. Vamos traduzir isto então. O patrão reconhece que a vontade do funcionário de ganhar mais, ter mais descanso, mais direitos, é uma vontade legítima, pois ele quer a mesma coisa. O patrão também quer ganhar mais, ter mais descanso, mais direitos. Mas aqui é um jogo de soma zero, porque se o trabalhador ganhar mais, esse dinheiro tem que sair de algum lugar, no caso, do lucro da empresa. Então o liberal conservador clássico diz: “Mas para ele ganhar mais ele tem que trabalhar mais!”. E eu lhe explico antes que você se exalte, que o verbo dever aqui é um contrassenso porque o embate entre patrão e funcionários são exatamente para que seus desejos se tornem obrigações para o outro. Entendeu? O funcionário deseja que o patrão não possa obrigá-lo a trabalhar mais para receber mais. Ao mesmo tempo o funcionário também sabe que é legítimo o patrão desejar que ele trabalhe mais. Entendeu agora? Antes de falar dos deveres e obrigações Marx está nos explicando, se você tiver disposição pra aprender, sobre o processo de criação de deveres a partir do embate entre vontades gerando reconhecimento de ambas as partes através deste conflito de vontades excludentes.

Neste momento a ideologia é fundamental, pois ela mascara a realidade e se torna uma excelente ferramenta neste conflito. A ideologia é aquilo que diz “Todos são iguais perante a lei” o que a princípio para verdade, pois é o que consta na Legislação de um país sério, ou nem tão sério como o Brasil, e sugere de modo implícito que todos somos iguais. Mas se você me disser que o filho do Michel Temer e minha filha que mora na periferia de Santo André tem direitos iguais eu recomendo que verifique se tomou seu remédio hoje. A consciência patronal tentará te convencer – supondo que você que está lendo não é o patrão – de que todos temos oportunidades iguais de enriquecer, mesmo que você olhe para cada canto de sua vida e não veja isto em lugar nenhum.

Aquele patrão que herdou uma pequena fortuna do pai, diz que todos temos oportunidades de abrirmos nossas própria empresas enquanto está parado no semáforo com seu Land Rover Range Rover Velar 2.0 Ingenium diesel de 311 mil reais, e o guri de seis anos passa ao lado vendendo bala de goma por 0,50 centavos cada.

A ideologia portanto produz senão a vitória de um dos lados em conflito, ao menos a estabilização do mesmo. Embora em alguns momentos existam focos de rebelião como podemos ver nas passeatas e greves, estas não são a regra, mas a exceção. A regra, e isto é ainda mais verdade no Brasil de 2018, é que durante a greve, aquele que poderia se beneficiar com ela, o trabalhador, olhe para o grevista e o chame de vagabundo. E quando o grevista pergunta o porque da ofensa, ele justifica dizendo que qualquer um que se esforçar pode sair do farol vendendo balas de 0,50 centavos e se tornar dono de uma empresa e ter um carro de mais de 300 mil reais, mesmo que ele próprio nunca chegue a este ponto e nem conheça qualquer ser humano de seu círculo próximo que tenha chegado. Ele crê, porque fazer crer, é o ponto final da ideologia.

Neste contexto a fake news é mais um instrumento.

Um estudo publicado pela Science norte americana pelos pesquisadores Soroush Vosoughi, Deb Roy, Sinan Aral do MIT, mostram que, como eu já supunha, o problema das fake news não são os bots, mas sim as pessoas.

Foram verificados milhares de perfis no Twitter (o Facebook não é transparente com os dados que gera em sua rede, ao contrário do Twitter que tem uma longa parceira com centros de pesquisa) com a ajuda de seis organizações de verificação de fatos (Snopes, Politifact, Factcheck, Truth or Fiction, Hoax-Slayer e Urban Legends) para determinar a veracidade das notícias e para determinar se uma conta era um bot ou não, os pesquisadores usaram um algoritmo de detecção renomado, o Botometer, anteriormente conhecido como Bot or Not que classificava como bot qualquer perfil com 50% de dúvida sobre sua origem. Também foram verificadas quais tipos de fake news viralizam mais rápido e, novidade, são aquelas associadas a política.

A parte reveladora do estudo é aquela onde se conclui de modo inequívoco a partir dos dados coletados, que a ausência dos bots na divulgação ou produção de fake news não é sentida quando você os exclui do processo. São pessoas reais quem mais divulga notícias falsas. E pior. Quanto mais absurda e desconexa com a realidade for a fake news, mais rápido a mentira se espalha. Porque?

Os três pesquisadores não são filósofos, então eles não tem como saber. Mas eu sou e eu tenho um ensaio de resposta. Porque as fake news colaboram com o padrão ideologico de quem as cria e/ou compartilha. Do mesmo modo que seu vizinho acredita piamente que ele pode se tonar o próximo Bil Gates a qualquer momento, mesmo nunca tendo presenciado ninguém que ele conheça, nem ninguém em toda a história de sua família que tenha ficado milionário tendo nascido na periferia da Paraíba ou de Minas Gerais. Mas ele acredita e divulga. O dono do carrão de mais de 300 mil reais cria a notícia e ele espalha, e briga com você se você contestar. Te chama de petralha, esquerdista, te manda pra Cuba e as vezes ainda diz, sem muita razão aparente e nenhum contexto com o debate, #Bolsimito2018. A internet só acelerou o processo. Ficou mais rápido, mas em minha leitura, a única diferença aqui é estética.

As fake news, agem do mesmo modo que a ideologia no sentido de que ela mascara a realidade. O que tem de gente que acreditou que o filho do Lula é dono da Friboi, ou inventando coisas sobre o Aécio Neves – como se precisasse inventar algo sobre ele – é gigantesca. Porque ideologia – e também a fake news – é uma ferramenta de uso duplo, não sendo exclusividade de nenhum dos lados no embate social e político. O que irá sair dessa loucura toda eu não sei, mas suponho que ainda estamos bastante longe do fundo do poço.

E isto é triste, eu sei.

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Muito boa sua abordagem, professor. As doses de sarcasmos na medida!

    Curtido por 1 pessoa

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