Em 1990 Judith Butler (24 de fevereiro de 1956, Cleveland, Ohio) lança Gender Trouble, traduzido como Problemas de Gênero no Brasil e lançado em 2006, ano em que minha filha nascia.

Muito tempo se passou desde o lançamento da obra original e eu não sei muito bem ao certo como se dá a presença de Butler no debate público norte americano. No Brasil vai de mal a pior. Basta lembrarmo-nos que ano passado a filosofa veio ao país em novembro palestrar no Sesc Pompéia e foi alvo de protestos contra sua fala. Foi mais uma das muitas vezes em que senti vergonha de ser brasileiro. Quer dizer, é uma filosofa, assim como eu sou filósofo, embora com mais pesquisa feita, e antes mesmo de pisar no país, é tratada como o anticristo. E seu crime são suas pesquisas na área da sexualidade.

Pesquisas excelentes, diga-se de passagem.

E aqui o interessante é exatamente este ponto. Butler é antes de mais nada, filosofa, e como tal pensa e escreve coisas que passam longe de ser consideradas fáceis; ao contrário. Sua tese de performatividade do corpo por exemplo, possui ecos de Derrida e Foucault. Levanta a mão ai quem, além de ler Butler também leu o argelino e o francês? E se leu, entendeu? Porque, assim, é difícil pra caramba. Vejamos apenas Butler.

Sua tese, ao contrário do que se prega por ai não nega a materialidade do corpo. Diz ela na página 13 de Cuerpos que importan. Sobre los límites materiales y discursivos del
«sexo»:

“Os corpos vivem e morrem; comem e dormem; sentem dor e prazer; suportam a
enfermidade e a violência e alguém poderia proclamar ceticamente que estes
“fatos” não podem se descartar como uma mera construção. Seguramente deve
haver algum tipo de necessidade que acompanhe estas experiências primárias e
irrefutáveis. E seguramente há. Porém seu caráter irrefutável de modo algum
implica o que significaria afirmá-las nem através de que meios discursivos”.

Agora eu pergunto a você, que pula de site em site, procurando razões para encher a sessão de comentários com ofensas e palavões: o que Butler está afirmando? Vamos lá, pense. Não me deixe entregar tudo de bandeja. Não me deixe ensiná-lo. Prove que eu estou sendo arrogante e me diga que soube compreender a passagem acima!

De de qualquer modo, eu traduzo.

O que Butler está dizendo é que o corpo possui sua materialidade, mas esta, em si, não determina o modo como o corpo será tratado no campo linguístico. Dizer que um homem tem pênis não implica dizer que este pênis tem que necessariamente ter uma ereção diante de um par de seios ou de uma vagina. Se por acaso você estiver pensando algo como “mas Deus nos fez assim“, você deve estar no lugar errado. O Twitter do padre Fabio de Melo é este aqui. Lá, além de ver a foto bonitona de perfil dele, você poderá conversar com ele e com seus seguidores nestes termos, e não há nada errado com isto, ao contrário. Só que aqui, não.

Aqui você precisa pensar sobre como nós falamos de nossos corpos, ou melhor, porque fomos ensinados a pensar, falar e estruturar funções proposicionais acerca de nossos corpos exatamente da maneira que fazemos. E também não me venha com o argumento de que a heterossexualidade é natural. Aqui, aqui e aqui você pode conferir que o comportamento homossexual está espalhado por todo o reino animal, o que me faz crer que os corpos, nossos ou de outras espécies, tem um outro padrão de comportamento não necessariamente alinhado com seu padrão de crenças. Leões, albatroz-de-laysan, bonobos, alce, molusco e mil e quinhentas outras espécies apresentam comportamento homossexual ou bissexual. Creio ser hora de repensarmos com cuidado o que podemos chamar de natural. Aliás, se querem meu conselho, simplesmente parem de usar essa palavra. E voltemos a Butler.

Ela afirma também que o sujeito vai se construindo e se formando na medida em que ele vive e vai se colocando em relação as normas e padrões sociais existentes. Somente então ele vai conhecendo superficialmente os conceitos associados aos comportamentos construídos para as concepções de masculino e feminino e, desta forma, acaba por fim  se entendendo como um sujeito masculino e feminino. Desta forma o controle social – através da família, consultório médico, escola – categoriza nossas normas de comportamentos pouco se importando em estudar ou compreender como nossos desejos operam em nossa subjetividade. Quando o sujeito se dá conta, ele está aderindo a certos tipos de comportamentos, vestimenta, entonação de voz e atração sexual para que ele possa produzir uma identidade coerente com a sexualidade que dele se espera e assim ser reconhecido socialmente como alguém adequado a seu gênero, classe social, cultura local e nacional, raça entre outros.

Neste sentido o corpo queer – inicialmente considerado um termo pejorativo que pode significar excêntrico – que não segue o binarismo de gênero, aponta para a artificialidade dessa construção, pois o corpo queer em si não cabe no espaço público tal qual ele foi desenhado a sua revelia. E assim o é, pois a norma depende da repetição para ser aceita, e ao depender da repetição, diz que a possibilidade de subversão reside na quebra da repetição. Um homem vestido com roupas de mulher aparenta subversão apenas porque quebra a repetição do padrão de vestimenta e comportamentos esperados.

E aqui eu preciso que pensemos juntos: que grande mal há em um homem com roupas de mulher? Ou uma mulher com roupas masculinas? Que grande mal pode causar uma mulher com corte de cabelo masculino ou o inverso? Qual a relação entre pênis, calças e cabelo curto ou entre vagina, saia e cabelo longo? Alguém nos ajude, Lázaro, a entender.

Porque na falta dessas respostas todas, ou melhor, na falta de sequer de pensar conjuntamente estas questões, uma barulhenta multidão foi a porta do Sesc Pompéia queimar um boneco de Butler. Ou então protestaram em frente a um museu em Porto Alegre pedindo o fim da exposição Queermuseu. Protesto que foi acatado covardemente pela instituição financeira mantenedora da exposição.

E essas coisas todas são importantes porque hoje faz pouco mais de um ano que 12 homens espancaram violentamente com pedaços de pau, e em seguida mataram com dois tiros no rosto a travesti Dandara por ter cometido o terrível crime de amar ao seu modo e de se vestir como bem entendia. Enquanto Dandara era violentada e espancada covardemente, pessoas ao redor lhe jogavam objetos e dirigiam gritos de “viado, imundiça”, subentendo que chamar alguém de viado configure algum tipo de ofensa.

Seu crime foi não ter se comportado de acordo com uma norma social completamente contingente. Tivesse nascida grega, Dandara poderia quem sabe ter sido personagem de algum diálogo platônico. Mas nasceu brasileira, infelizmente, já que no Brasil de acordo com o relatório do Grupo Gay da Bahia, 387 LGBT foram mortos violentamente em 2017 no Brasil; segundo a ONG Transgender Europe, nosso país é líder em assassinatos contra a população LGBT sendo que em 2015, 52% dos 216 casos de assassinatos ocorridos em todo o mundo contra a população LGBT, aconteceu no Brasil.

O crime contra Dandara, cometido no dia 15 de fevereiro de 2017 é portanto uma exceção, no sentido de que seus assassinos estão sendo indiciados como nos mostra uma reportagem do site Nexo. Porque a regra é que sejam esquecidos, e onde a justiça tarda, ela falha.

Falha duplamente: primeiro por deixar solto um indivíduo potencialmente perigoso e em segundo lugar por criar um clima de impunidade. Os 12 homens que assassinaram Dandara filmaram o ocorrido porque estavam seguros de que nada lhes ocorreria. E só estão com seu caso nos tribunais porque uma gravação do crime existe. Não fosse assim Dandara seria um número a mais entre os 387 LGBT anônimos mortos que citei acima. Há um problema muito grande com uma sociedade que acha ok agredir – mesmo que verbalmente -, ou assassinar, uma pessoa pelo modo como ela se veste ou ama.

E se você não consegue compreender isto, pode crer que o problema é você.

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