Já escrevi sobre Maquiavel para dizer como nosso presidente é um exemplo de político maquiavélico. Só clicar aqui e ler. Então vou supor que você já entende um pouco sobre o assunto e vou seguir em frente, apenas revendo um conceito importante para o filósofo florentino.

O conceito de que o príncipe – em nosso caso, o prefeito – tem inimigos internos além de inimigos externos, e portanto para se manter no poder ele precisa destruí-los. No passado as guerras eram mais explícitas, com o exército inimigo invadindo seu território, matando soldados e camponeses, estuprando as mulheres nos campos e cidades e tomando como escravos os sobreviventes. No caso de uma guerra assim é até mais fácil se defender, uma vez que o emprego de violência aqui é não apenas tolerada, como esperada. Mas hoje em dia as guerras externas são mais sutis e nem por isso menos danosas. Hoje em dia o inimigo, por exemplo, sobretaxa ferro e alumínio e declara guerra comercial. Então não é necessário invadir o território inimigo: a própria população, sem emprego, faminta e sem muita esperança, acaba por se matar, estuprar e escravizar uns aos outros com cocaína e crack, uísque e conhaque – Racionais feelings. Caso não tenha ficado claro – estamos na internet, onde tudo é mal compreendido – eu estou me referindo a Trump, óbvio.

Sendo assim, é tarefa do príncipe é cuidar de casos como este, para que seu reinado permaneça. É Foucault quem dirá em Nascimento da Biopolítica que o limite interno do governo executivo é cuidar da economia, e caso não cuide, acabará por perder seu posto. Dilma que o diga.

Entretanto, voltando a Maquiavel, ele nos diz que o príncipe precisa cuidar dos inimigos externos – sejam eles o exército da Prússia que ataca com carabinas e baionetas ou Trump que ataca com tuítes e taxas comerciais – e também dos inimigos internos. Maquiavel percebe que a população é uma ameaça ao governo do príncipe, pois no momento que uma turba se enfurece, aumentam as possibilidades de que o príncipe perca seu poder. O bom governante é aquele que, se preciso for, comete atos de crueldade para não perder o poder conquistado, mesmo que este poder tenha vindo através de atos criminosos como, por exemplo, pagar grupos para manipular informação ou simplesmente inventar notícias falsas para serem viralizadas com o auxílio de bots.

Uma vez que a população seja compreendida como inimiga é então autorizado, para a manutenção do poder, o uso de uma prerrogativa fundamental do Estado tal qual Weber o formulou: o uso do monopólio da violência. A polícia – em todas as suas diversas denominações: Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Civil Metropolitana, Exército, Polícia Federal e etc – está autorizada a utilizar qualquer meio violento contra a população para manter não apenas a governabilidade, como, em caso de perversidade da norma, também o poder do governador intacto.

E é por essa razão que no dia de hoje (14/04) o prefeito de São Paulo, João Doria, autorizou o uso de força contra a manifestação dos professores do município. Porque quando estes professores protestaram em frente a Câmara Municipal contra o Projeto de Lei que prevê a elevação da contribuição previdenciária de 11% para 14%, além da instituição de contribuição suplementar vinculada ao salário do servidor que fará o desconto em folha de pagamento chegar a 18,2%, eles passaram a ser vistos como inimigos por João Doria. Afinal o que a prefeitura de São Paulo alega é que sem esta alteração, a previdência municipal não se sustenta. Portanto, quando os professores protestam contra essa medida, estão protestando, de acordo com o raciocínio, contra a sustentabilidade do governo de João Doria.

Abre parênteses: aqui há um problema gigante que é o fato de que não há consenso sobre essa informação divulgada pela prefeitura, sobre precisar aumentar impostos para que o governo se sustente. Diversos setores da sociedade civil pedem a auditoria da dívida pública para que os orçamentos da federação, estados e municípios possam ser recalculados, mas há anos a auditoria é negada. Fica realmente muito difícil acreditar que nossos impostos devem ser aumentados, sem antes verificarmos se a dívida pública que temos já não foi paga. Percebam, por favor, que não se trata de afirmar uma coisa ou outra, mas afirmar que essa informação não é aberta para a população. E isto retira, e muito, a credibilidade de qualquer aumento de impostos, em qualquer governo, seja do PSDB, seja do PT. Fecha parênteses.

Diante da possibilidade de ter suas contas públicas em risco e diante dos protestos dos professores, Doria coloca a cartilha maquiavelica debaixo do braço e autoriza que a Guarda Civil Metropolitana espanque os professores em protesto. E caso você me pergunte como seria possível dispersar os manifestantes que invadiram Câmara Municipal eu peço que você pergunte aos governos de Países como Japão, Alemanha ou Inglaterra. Ou para qualquer outro país do mundo que aprendeu que no ano de 2018 depois de Cristo, a população não é sua inimiga. Lá eles encaram protestos e nos sites e jornais do dia seguinte, não estão estampados os rostos destes trabalhadores inchados e cheios de sangue.

Porque há dezenas de formas de se conter protestos que não envolva deixar os manifestantes ensanguentados. Tanto é verdade, que amanhã os juízes vão entrar em greve por causa de seu pornográfico auxílio moradia, e duvido muito que veremos a camisa Ralph Lauren de algum juíz a lá Sérgio Moro suja de sangue. Porque o real motivo por trás da truculência com que os governos tratam seus servidores como por exemplo os professores, está o fato de que nossos governadores nos olham como seus inimigos. Somos tratados como um empecilho a seus projetos de poder. Voltando ao exemplo de João Doria, é muito emblemático que ele tenha autorizado o uso de força contra os professores, após descumprir sua promessa de ficar quatro anos na prefeitura de São Paulo para concorrer a governador, e ser duramente criticado em sua página pessoal do Facebook, tão acostumada a receber elogios e ter seu orçamento comprometido.

Ao fim minha solidariedade aos professores de São Paulo que estão sendo tratados desta forma, e um pedido, que obviamente será ignorado por muitos: se você acorda cedo e dorme tarde, trabalha feito um condenado, vive com contas atrasadas, cartão de crédito no limite, precisa fazer contas para passear com a família, por favor, não se deixe ser convencido de que outros trabalhadores como você são seus inimigos. Que nossos péssimos governantes nos enxerguem assim, eu até admito e entendo, mas não alguém que experimenta as mesmas dificuldades que eu enfrento, que sabe das durezas da vida como eu sei. Os trabalhadores querem o mesmo e o povo sonha junto a mesma coisa: uma casa pra morar, dignidade, seis refeições ao dia, estudo, saúde e segurança.

É digno e legítimo que os trabalhadores protestem e se queixem quando sentem que estas coisas lhes estão sendo retiradas, e se por algum motivo você entende que estes métodos não são eficientes ou mesmo corretos, ok. Obviamente é um direito que temos, de pensarmos diferentes. Mas seria muito triste se você concordasse com a visão de nossos governantes: de que somos inimigos.

Creia, não somos.

 

 

 

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