Ainda ontem eu escrevia sobre Maquiavel e a forma como nossos governantes nos enxergam como inimigos e lecionava sobre formas de maximizar a democracia através do debate e da liberdade a partir de Habermas. Não faz uma semana eu ensinei a meus alunos sobre poder e violência a partir de Arendt, e que segundo a filosofa alemã, todo ato violento tem a finalidade de calar uma voz. E ainda ontem o Brasil produz um laboratório vivo disto.

O magnífico professor de filosofia Claudio Ulpiano, já falecido, da UFF dizia que a filosofia é um instrumento de guerra no campo social, e eu acredito. Eu gosto de pensar na filosofia como uma espécie de muro gigante contra a maré de ignorância, preconceito, homofobia, ódio, tolice e um monte de outras coisas tão ruins quanto. Mas e aí? O que a gente faz quando o muro tem dez metros e a onda quarenta? Eu jogo conceitos e os ignorantes se defendem com ódio e intolerância. E agora estão atacando de volta com tiros. A Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL, Marielle Franco, foi assassinada com quatro tiros na cabeça, pelo menos nove disparados. E aqui o recado é claro.

Quem não está com medo, não entendeu o recado. Eu sim, e estou apavorado.

Leonardo Sakamoto, a quem tanto admiro, parece esperar uma investigação para o caso. Eu não consigo ser tão otimista. A linha do tempo desse crime é esta:

  • 28/02/18 – Marielle Franco, Veradora do PSOL se torna relatora da comissão que vai acompanhar a intervenção militar no Rio de Janeiro;
  • 10/03/18 – Marielle Franco denuncia violência policial em Acari;
  • 14/03/18 – Marielle Franco é executada a tiros.

Menos de um mês passa após sua nomeação, e ela é executada sem pudor. Eu e você sabemos exatamente qual instituição é responsável por sua morte. É só ter dois neurônios e somar um mais um.

Como acreditar que sua morte será investigada, após a Polícia Civil do Rio de Janeiro dispensar a Polícia Federal do caso? Ou após um comandante do Exército afirmar que para agir, precisam ter certeza de que uma Comissão da Verdade não seja instaurada? Trocando em miúdos, ele disse que para agirem, precisam da certeza de que o órgão capaz de investigar a fundo os abusos militares não exista. Mas se por ventura existir, bom, a sua relatora morre. Com quatro tiros. Na cabeça E eu tenho que aguentar a mídia tentando vender pra mim a ideia de que ela foi morta em uma tentativa de assalto.

A mim é impossível não se lembrar de Vladmir Herzog, encontrado morto, como se houvesse cometido suicídio nos porões do DOI-CODI. O laudo fraudado de Encontro de Cadáver expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, afirmava que Herzog se enforcara com uma tira de pano – a “cinta do macacão que o preso usava” – amarrada a uma grade a 1,63 metro de altura. Os detalhes da farsa são incríveis. A mentira costuma ser mais detalhada que a mentira, dizem. Na época, os jornais que apoiavam a ditadura também tentaram vender a ideia de que ele havia se suicidado, mesmo com seu rosto visivelmente contendo marcas de tortura conforme o testemunho do rabino Henry Sobel, responsável pelo sepultamento.

Um jornalista incômodo se suicida, uma Veradora incômoda é assaltada e morta. Enquanto isso os Malufs e Temer da vida não sofrem nem de unha encravada.

Não é justo.

E que a morte de Marielle tenha ocorrido no mesmo dia em que morreu Stephen Hawking é emblemático. Em uma de suas muitas passagens emblemáticas, Hawking nos convida a pensar o ser humano a partir da dimensão espacial. Visto do espaço somos todos um único povo, uma única irmandade. Que merda estamos fazendo nos matando? Nietzsche diz algo semelhante quando diz que o conhecimento humano – e tudo que vem dele – quando visto da perspectiva do Universo, se torna poeira cósmica. Antes do ser humano, houveram eternidades onde não existíamos. Quando de novo tivermos passado, será como se nada tivesse existido. Nossa espécie está há tão pouco tempo presente. Nós, como indivíduos, temos tão pouco tempo de vida. O que temos feito de tão errado assim para nos matarmos e maltratarmos dessa forma? Será que não seremos mesmo capazes de fixar e seguir regras simples para nossa vida?

Regras que dizem que matar gente é errado. Que você não pode se meter no modo como uma pessoa transa? Que não importa o sistema político, importa que vivamos com dignidade? Que gente pobre e negra da Maré tem o mesmo direito as coisas que gente rica e branca do Leblon? Será que é assim tão difícil pensarmos em nós de outra forma? Rawls, ex professor de Harvard, pede que a Declaração Universal dos Direitos Humanos guiem nossas relações comerciais, não o contrário. Se vivesse no Brasil o MBL e seus genéricos diriam que Rawls é um esquerdista-petralha-idiota-útil e faria,m vídeos e memes tentando ridicularizá-lo. Mesmo ele tendo sido um dos maiores pensadores políticos da história recente. Aliás, fariam o mesmo com Hawkings quando este afirma que a riqueza produzida pelas máquinas precisa ser dividida entre os povos.

Que tipo de argumento eu preciso usar para mostrar àqueles que estão comemorando a morte de Marielle, que fazê-lo é inumano e que a luta dela era a luta ideal? Fiscalizar o poder é tarefa nobre, porque o poder nos engole de modo violento.

Repito, eu estou apavorado, mas isso não significa que ficarei calado. Dolores O’Riordan, vocalista falecida do The Cramberies cantava em Zombie que “Quando a violência causa silêncio / Nós estamos enganados”. Hannah Arendt diz algo parecido: nos diz que todo silêncio é violento. E eu Rafael digo, que se for pra ser violento, que seja na base do grito, porque a voz de Marielle não será calada.

A executaram para causar medo e silêncio e que sua voz se calasse para sempre. Pois erraram o bote: a voz de Marielle está mais viva e alta do que nunca. 52 Parlamentares da União Européia pedem que as negociações com o Mercosul sejam interrompidas por conta de sua morte. A voz dela está viva e permanecerá enquanto tivermos coragem de não nos calar.

Poucas vezes em nossa história nossa voz foi tão temida. Se nós temos medo de que nos matem, nossos políticos por sua vez estão demonstrando claramente o medo que possuem de nossa voz. A mulher preta, nascida na favela da Maré, mestre em Sociologia, causou tanto medo, mas tanto medo, que quatro tiros foram dados em sua cabeça, porque temiam que um, apenas não a calaria. Tentaram nos causar medo, e admito, conseguiram. Mas na outra medida, revelaram uma fissura: nossa voz. Uma mulher preta morreu e nos mostrou onde e como lutar. Vamos criar vergonha na porra da nossa cara e fazer por onde agora.

A filosofia é um instrumento de guerra no campo social e hoje eu entendo o porque, como jamais entendi professor Claudio. Porque nos da capacidade de falar, e nossa voz é aquilo que os animais que nos governam mais temem.

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