“A única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste” – A Peste, Albert Camus. 

A Peste, romance escrito pelo filósofo e Prêmio Nobel da Literatura, Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) expõe questões profundas sobre a filosofia existencialista camusiana, que quando lida em conjunto com O Estrangeiro e O mito de Sísifo, nos revelam o homem tal qual Camus o enxerga: “exilado, banido, sem pátria ou terra prometida. Solitário, em meio a uma universo estranho, prisioneiro do tempo e privado da misericórdia de Deus“, segundo Aparecida Brito, mestre em Letras pela USP.

Sim, o homem camusiano é um brasileiro do ano de 2018 da Graça do Nosso Senhor. Mas nosso absurdo não é tão profundo e bem desenvolvido como o de Camus. É fruto de uma engrenagem ancestral que tem como fundamento, aprofundar nossa tragédia que é bastante semelhante a de Sísifo, que no mito, precisa deixar a pedra no topo do monte, ao passo que esta sempre rola. Tão simples, tão pesado e tão impossível, sempre ao alcance das mãos, e sempre a deixar rolar.

O Brasil é o país do futuro desde antes de inventarmos um futuro para o país. Ou alguém acredita que a corte portuguesa ou os militares tinham um projeto de futuro para nós? Bom, para citar Darcy Ribeiro, tinham: um projeto de crise, mas não somente na educação, como em cada setor possível. Nosso absurdo, semelhante ao de Camus, provém da falta completa de sentido em nosso campo social. Meus alunos, os pais desses  alunos, meus vizinhos, colegas, amigos, pais, todos se perguntam a mesma coisa, mesmo sem se conhecerem: faremos o que? Como? Porque? Pedimos ajuda a quem?

Alguns dias atras publiquei um texto manifestando minha indignação contra os operadores do Direito, e creio chegou a hora de explicar que minha rusga com eles vem de longe, vem da minha vida. Em trinta e três anos de vida eu sofri com a violência 12 vezes. Vamos lá, não perca as contas: Em 1989, eu tinha quatro anos e três assaltantes invadiram nossa casa, bateram em meu pai, nos fizeram refém, e roubaram tudo que podiam; em 94 meu pai faliu com o Plano Collor; no começo dos anos 2000 meus vizinhos traficantes tiveram a casa metralhada por uma quadrilha rival, nós quase morremos e nosso carro e cozinha viraram peneira; minha mãe lutou e fugiu de um estuprador quando morávamos em Sta Bárbara d’Oeste; fui assaltado na avenida Paulista e no terminal metropolitano de Sto André (duas vezes); certa vez um rapaz tentou me esfaquear em um ponto de ônibus por causa da minha camiseta do Pearl Jam, e então fui salvo por alguns bêbados do bar em frente; vi um ônibus explodir durante os atentatos do PCC em 2006 na cidade de São Paulo e depois corri em meio a troca de tiros entre a PM e o PCC; estive (literalmente) no meio de um tiroteio as cinco e quinze da tarde, em frente uma escola de Ensino Fundamental, e me escondi dentro de uma loja de doces; meu bairro teve toque de recolher declarado pelo tráfico em algumas épocas; e por fim, presenciei assaltos dentro do ônibus duas vezes.

Em nenhuma delas, repito NENHUMA, as pessoas que fizeram mal a mim ou a minha família foram punidas. Nunca. Vou confiar de que forma? E quando fui estudar a respeito, piorou. Ai passei a ter a certeza absoluta de que eles nada, ou muito pouco, podem fazer por mim. Pedir ajuda para alguma coisa parecida com Justiça no Brasil é a síntese perfeita do Absurdo de Camus. O mesmo vale agora. Hoje ficamos sabendo que a munição usada para executar Marielle foi vendida pela Polícia Federal.

POLÍCIA FEDERAL.

E tudo indica que seu assassinato político foi decorrente do fato de que era Marielle quem estava responsável por fiscalizar a ação do Exército durante a sua intervenção federal no Rio de Janeiro. O recado é claro: não fiscalizamos nossas ações, e se alguém se meter a besta em fiscalizar, será executado. E nem nos daremos ao trabalho de usar munição que não poderá ser rastreada, ou disfarçar a execução fingindo um assalto. Tudo acontece as claras, para que a mensagem não se perca.

O que motiva tamanha tranquilidade no caso do assassinato de Marielle é o mesmo sentimento que motivou os doze assassinos da travesti Dandara a filmarem seu linchamento seguido de execução: a certeza absoluta de que não serão presos. A certeza absoluta de que, mesmo se forem capturados, terão seu processo julgado por algum juiz que recebe uma mesada bem gorda, já faz alguns anos, para fazer vista grossa para todo tipo de casos como este. E se um juiz apenas não for suficiente, – porque, vai que o processo se desvia e cai em outro distrito ou mesmo em outra instância, não é mesmo? – então cria-se uma rede de corrupção, bem semelhante a Máfia mesmo, com dezenas de operadores do Direito na folha de pagamento, prontos para torcerem as normas jurídicas que ninguém conhece, e que mesmo que conhecesse ninguém entenderia, até que elas confessem inocência ou liberdade.

Assim nós temos um país onde Aécio continua Senador da República, o helicoca não é julgado, filho de desembargadora com mais de uma tonelada de droga segue livre, a mulher de Cunha é absolvida, o processo de José Serra prescreve, o tremsalão tucano cria mofo e a presidente do STF tira foto abraçada com um presidente da República com gravações atestando sua culpa. Porque o golpe é com Supremo, com tudo, e o que resta é um país inteiro em um absurdo não somente existencial, como o de Camus, mas também social. Até porque em Camus uma coisa não está separada da outra.

A peste tem nome e deveria nos unir, mas não está nos unindo. Nossos ratos são nossos políticos e todo o sistema que por eles foi montado para nos arrancar a dignidade, e eles estão tomando conta de tudo, a doença está se espalhando, e ainda tem gente discutindo vírgulas de posts no Facebook ou disputando quem lacra mais, quem problematiza mais.

“Ah, mas e se Marielle fosse branca, teria tanta comoção?”

“E seu motorista? Porque ninguém se comove com a morte dele?”

“E pipipipópópó?”

É chegada a hora de não apenas dizer não, como mostra Naomi Klein em seu maravilhoso último livro, Não basta dizer não. Ela nos mostra que nos EUA, Trump se elegeu através de uma estratégia política complexo o suficiente para desmobilizar politicamente as agendas fundamentais para nossa sobrevivência como espécie. Klein denuncia que Trump inunda os noticiários com uma enxurrada de tuítes estúpidos e notícias falsas propositalmente, para causar uma sensação de afogamento e falta de sentido na população, enquanto sua agenda a favor das grandes corporações segue em ritmo industrial.

Temer não faz diferente. Marielle sendo enterrada e ele sendo fotografado brincando de bola. O Governo Federal chamando de imbecil quem achava que o Rio de Janeiro ia melhorar em um mês e dizendo que a morte de Marielle é a prova de que a intervenção está certa. Sim, é isso mesmo que você leu. Ela morreu por se posicionar contra a intervenção e esta isto prova para o governo que a intervenção está certa. Não me venham falar de Justiça, portanto, porque nossa voz não chega até lá. Eduardo Galeano estava certo: a justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços. E como dói quando morde. Nossas cadeias estão cheias de brasileiros muito iguais entre si: pretos, pobres e moradores de periferia. Não vejo batalhão da PM fazendo batida policial nas festas do Leblon, da Moinhos de Vento, da Vila Madalena do mesmo jeito que faz nos morros da Maré. Não vejo e nem vou ver. Quero morrer bem velho, e tenho certeza absoluta de que não verei. Mas como queria…

Se há alguma saída para tudo isso, ela passa pela estética. Temos que criar uma forma social entre nós mesmo que, mesmo com problemas internos, transmita a confiança necessária de que há união. Não importa se em reuniões partidárias o campo progressista e o conservador queiram se estapear.  A mensagem de ambos deve ser clara, e ela é de união. Passou o tempo de tentarmos provar erros ou acertos nossos ou de outrem; o momento não é de nos posicionarmos pensando “como posso prejudicar quem não pensa como eu”. Este tempo passou. Que existam desentendimentos sérios, que ninguém concorde com pontos importantes, mas que a mensagem seja clara em termos fundamentais: “eu sou brasileiro e chega de tentar prejudicar outro brasileiro”. Não importa o que ele é, nem o que ele defende.

No futuro a gente senta e debate sobre o que se quiser debater. Hoje o nosso Estado é fascista, todos os elementos de uma Ditadura já se apresentam na esfera pública (mesmo que em estágios não tão avançados) e não temos tempo a perder. Não basta dizer não a um candidato que pede a criação de Campos de Refugiados – e você sabe bem qual foi o último político famoso a criar Campos para amontoar pessoas não é? Ok, estou na internet e não posso deixar nada subentendido: foi o Hitler – É preciso propor através do diálogo, e só dialoga quem está unido, senão rapidinho vira briga e pancadaria, gritaria e desespero e está todo mundo como antes.

Sabemos todos como o medo pode ser paralisante. Como o ódio nos distancia. E que esta situação, não parece, mas vem de longe. No livro e documentário Salvando o capitalismo, o professor Robert Reich, ex secretário do Trabalho durante o governo do ex presidente Bill Clinton, mapeia a origem do ódio e do medo que estouraram em 2016 no início dos anos 90 quando a classe média norte americana começou a perceber, logo após os anos 80, dominado pela ideologia de Thatcher de Reagan, que o neoliberalismo não foi feito pra dar certo, que os ricos não produzem emprego e que ele produz concentração de renda e pobreza exatamente para quem está no meio da pirâmide social, bloqueando a mobilidade social dos cidadãos. No Brasil não foi diferente.

Hoje, entretanto, o fascismo que tomou conta de nosso país, que matou Marielle, que subiu o morro de tanque, que está querendo nos tirar a aposentadoria, direitos trabalhistas, congelou investimento em educação e saúde, tem nome e sobrenome, e contra ele não basta dizer não. Naomi Klein está certa, como de costume. É preciso dizer sim. Sim exatamente para aquele cara que você não tolera por estar em um campo ideológico completamente oposto ao seu. Ainda não ficou claro de para quem você deve dizer sim? Ok, vamos dar nome aos bois.

É preciso dizer sim aos bolsominions.

Ou começamos a dialogar com o maior número possível de pessoas, eles inclusos, ou o fascismo vence a guerra, não só as batalhas, e ai todo mundo se fode.

Eles e você.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Participe da conversa! 11 comentários

  1. Mas e o que o sim quer dizer?

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  2. Maravilhoso seu texto! Só não sei como dialogar com uma pessoa que não sabe dialogar, que é agressiva e você tem a impressão que a qualquer momento vai te bater!

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  3. O texto é ótimo bem como eu penso e venho tentando fazer alguns entender que só existe um lado o lado dos brasileiros e do Brasil que está sendo entregue;Mas dizer sim a eles como ? nos dê uma luz tá tão difícil ! Eles não se informam só repetem asneiras igual um robô com deficiência intelectual !

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  4. Talvez a resposta esteja na autocrítica: o que fazemos (e nem percebemos) para prejudicar a vida alheia? Quão responsáveis somos pelo mal que nos cerca, e quão inflexíveis somos quando nos apontam nossos erros? Talvez o que nos diferencie dos “bolsominions” não seja exatamente a intolerância em si, mas tão somente a intolerância deles, porque a nossa nós nunca queremos enxergar. Talvez não queiramos enxergar que a vida na urbe e a manutenção de suas comididades, por exemplo, é insustentável e é uma cas maiores causas para a violência que se volta contra nós. Talvez Sísifo tivesse tantos problemas porque insistia que a pedra devesse ficar no alto do monte, ao passo que a pedra em si sequer precisasse existir 🙂

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    • Cara, eu ando pensando exatamente a mesma coisa.
      Assino embaixo seu comentário

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      • Acho que todos, em maior ou menor grau, estamos tentando manter nossos privilégios e tendemos a sempre nos afastar do que nos causa desconforto. Abstrações à parte, “bolsominions” em nada diferem desse modus operandi, apenas são um pouco (e só um pouco!) mais preguiçosos em suas reflexões e consequentemente mais rasos em suas conclusões. Todos nós sabemos, em nosso íntimo, que não podemos mais viver como vivemos – do militante do PCO ao mais reacionário dos adolescentes. Se sabemos, então por que fazemos? A resposta, pra mim, se torna mais clara a cada dia: privilégios e uma falsa sensação de segurança; ainda que hoje soframos com a banalização da violência, ainda estamos bem longe de nos tornarmos escravos em plantações de cacau como ocorre na África, no entanto comemos nosso chocolate sem culpa nenhuma já que o problema está longe: qualquer semelhança com um condomínio fechado com segurança particular não é mera coincidência. Salvo aqueles especialmente obtusos que acham que matar pessoas por aí vai acabar com a “maldade no mundo” em vez de só gerar mais espaço para que nossa grande máquina continue operando e gerando marginais porque simplesmente não há como ser diferente disso, estamos realmente todos no mesmo barco e a solução é o remédio mais amargo de todos: autoconhecimento, controle e responsabilidade sobre nossas próprias atitudes, individualmente. Sem hierarquias, sem achar que governo X ou Y vai resolver nossos problemas endêmicos. O problema, em suma, somos todos nós, sem exceção. O difícil é admitir e mudar 🙂

        Leitura recomendada (bem interseccional, já que não acredito em receitas de bolo nem panaceias):
        The Future of Money – Bernard Lietaer
        Sacred Economics – Charles Eisenstein (muitos sofismas, mas em geral considero uma boa obra)
        Os Despossuídos – Ursula Le Guin

        Bom crescimento a todos nós 🙂

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      • Cara, muito obrigado pela contribuição e principalmente pelas leituras recomendadas. Eu particularmente não conheço nenhum desses autores, mas vai para aquela lista infinita de livros pra ler.
        E qdo quiser nos mandar um texto para publicar, nosso e-mail esta na aba de contatos!

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