Eu escrevo na internet há muitos anos. Meu primeiro blog eu criei nos longínquos 2001. quando tudo isto aqui era mato. Não existiam redes sociais, nem smartphones – na verdade quase não existia celular, e os que existiam apenas faziam ligações – mas o ódio já estava ali. Eu concordo com Robert Reich, ex secretário do Trabalho durante o governo do ex presidente Bill Clinton quando ele diz que o nascimento do ódio, data do começo dos anos 90 com o fim das experiências neoliberais dos governos Reagan e Thatcher. Mas isto são outros quinhentos.

Eu comecei a escrever sobre bobagens como um adolescente bobo e quando entrei na faculdade de filosofia, os textos foram mudando. Era tudo bem amador, embora eu acreditasse estar descobrindo a roda na época, até que eu finalmente esbarrei em um tema que me acompanha até hoje: filosofia política. E aqui eu preciso explicar algumas questões pessoais que, talvez faça com que eu consiga ser mais claro no ponto onde quero chegar.

Cresci em uma casa onde meu pai não tolera o Lula. Quando criança ele perdeu uma oportunidade de estudo porque, segundo ele, Lula durante uma das greves dos metalúrgicos havia retirado uma bolsa que os funcionários recebiam para que seus filhos estudassem. Meu avô era metalúrgico e meu pai ganhava a tal bolsa para um curso. Então ele a perdeu, e sua antipatia a Lula vem desde então. Essa antipatia tem pelo menos uns quarenta e cinco anos. Durante as eleições de 89 meus pais, ao contrário de alguns outros familiares, não votaram em Lula, mas em Collor, e se arrependeram depois pelos motivos que hoje sabemos. Não sei se eles se arrependem hoje por saberem que foram manipulados na edição do debate feita pela Rede Globo. Mas sei que meu pai votou em Fernando Henrique Cardoso nas duas vezes que ele venceu as eleições, e até hoje o considera o melhor presidente que tivemos, mas não sei se depois deu seu voto a Alckmin e Serra. Também não sei se nos últimos pleitos ele votou em Dilma. Mas respeito profundamente o posicionamento de meu pai, por ser meu pai e por ele ter direito a se expressar politicamente como bem quiser. Minha mãe nunca foi uma pessoa em quem a política desperta paixões.

De todo modo, a antipatia que meu pai tem de Lula foi trazida para mim, pois entre erros e acertos, meu pai é um homem muito inteligente e sabe expor seus argumentos com bastante clareza. Quando eu me tornei professor contratado em São Paulo eu era bastante novo, 19 anos, e as escolas estaduais recebiam a assinatura da revista Veja. Porque? Bom, isto quem tem que responder são os governos do PSDB que estão ora na capital, ora no governo estadual há pelo menos vinte anos. De todo modo, nos intervalos de aula eu as folheava e via em suas páginas, críticas e mais críticas ao governo Lula, já presidente, em 2002. As críticas que eu lia iam de encontro com as que meu pai fazia, de modo que somando um mais um, passei a ter a mesma antipatia por ele. Meus primeiros textos sobre política eram um plágio muito ruim dos textos do Diogo Mainardi, que escrevia uma coluna na Veja naquela época, com ofensas ao fato de Lula beber cerveja e cachaça como qualquer outro brasileiro ou sobre ele não ter um dedo. Coisas assim.

Mas a vida não parou ai. Continuei estudando, me afastei da filosofia política quando conheci Nietzsche e Wittgenstein e fui estudar lógica, linguagem e moral. Voltei a me interessar por filosofia política em um curso extracurricular sobre o livro IV do Capital de Marx. Na época eu já tinha desenvolvido bastante ódio do Lula, dos comunistas, e de toda ideologia que vem a galope. Eu lia diariamente todos os jornais e revistas que me eram acessíveis e em todos eu via as mesmas críticas feitas ao Lula, ao PT e ao comunismo. A corrupção era um tema perene e naquela época eu não sabia que o brasil perdia 200 bilhões por ano com corrupção de um orçamento anual de 2 trilhões. Se você fizer a conta perceberá que, embora muito, o Brasil perde apenas 10% de seu orçamento com corrupção. Se você recebe mil reais e perde cem, é ruim, mas você não decreta falência por isso. Aliás, 10% é o que muitos cristãos devolvem como dízimo a suas igrejas e eles não estão falidos por causa disso. Em contrapartida o governo faz um malabarismo financeiro terrível para pagar 40% de seu orçamento anual com a dívida pública, que tem que ser paga, tanto quanto precisa ser revista, através de uma auditoria pública.

De todo modo, naquela época eu pensava comigo que não era possível que todos os jornais estavam equivocados, afinal eles eram concorrentes entre si e disputavam o leitor apresentando informação de qualidade. Se houvesse algum contraponto, algum jornal haveria de apresentar para assim cativar seu leitor com melhores reportagens.

Mas eu tenho o espírito filosófico, e se a filosofia ensina algo para nós é a escutar principalmente aqueles de quem discordamos. Por isso fui fazer o curso, para compreender melhor aquilo que eu odiava, a fim de ter mais argumentos para fundamentar minha antipatia e derrotar nos debates esquerdistas e afins. Para minha surpresa o que vi fez muito, mas MUITO, sentido.

Marx descreve como dinheiro se torna capital, explica que nossa força de trabalho é uma mercadoria, nos ensina sobre o valor de uso da mercadoria chamada força de trabalho e sobre a mais-valia, e sobre um monte de outras coisas. Eu era um assalariado naquela época, tinha perdido meu contrato como professor, porque em São Paulo você termina o ano como professor, desempregado e torce para ser realocado no próximo ano, o que muitas vezes não acontece. Então eu trabalhava como telemarketing, recebia um salário mínimo e já era pai de uma valente garota de um ano. A mim tudo aquilo fazia bastante sentido porque eu conseguia perceber no campo teórico aquilo que eu viva no campo político. Foi a primeira vez que eu me questionei sobre o motivo de minha raiva. Se eu odiava Marx sem nunca ter lido, talvez o mesmo valesse para todo o resto. Mas o alemão tão temido é um autor difícil. Fui atrás de conhecer portanto o que diziam os marxistas.

Conheci muitos autores e conversei com muita gente. Percebi que Marx não é uma unanimidade entre a esquerda como se supõe, e que há muitos autores que discordam sobre seu legado ou sobre os conceitos marxistas. Há diferenças substanciais entre por exemplo Lukács, Horkheimer e Zizek. Não consigo ver os três sentados numa mesa de bar concordando sobre alguns conceitos como por exemplo, materialismo histórico. Posso estar errado, mas não vejo.

Percebi também que há muita gente que se considera marxista e nunca leu Marx, o que é bastante estranho. De qualquer forma entre debates e leituras acabei me perguntando porque diabos eu continuava odiando o Lula após conhecer o conceito de ideologia, que para quem não sabe é basicamente o conjunto de ideias e valores que são compartilhados por determinada classe social. Há mais nuances, mas é basicamente isso. Estamos então em 2009 e a internet começa a bombar de verdade e eu começo a ter contato com um mundo que até então era desconhecido para um moleque nascido e criado na periferia de São Paulo: a imprensa internacional. Comecei a ler, como podia, com a ajuda do Google Tradutor, todo site gringo que eu tomava conhecimento: BBC, El País, DW. New York Times, The Yorker, Dissent, Le Monde Diplomatique e outros que agora não lembro. Vasculhando sites gringos acabei esbarrando na chamada mídia alternativa: Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, Caros Amigos, Pragmatismo Político.

Comecei a ter acesso a outras fontes de informação e percebi que nem todas eram confiáveis. Mas foi o que bastou para finalmente plantar na minha cabeça a dúvida: porque existem três Lulas? O Lula da imprensa tradicional, o Lula da mídia alternativa de esquerda e o Lula para os gringos.

O Lula da imprensa tradicional a gente vê toda semana na capa da Veja, sempre bravo, triste, com cara de perdedor ou ameaçador, num fundo preto. O Lula da imprensa alternativa que aparece no DCM está sempre sorrindo, esperançoso, abraçando alguma criança, algum operário, uma dona de casa. Já o Lula internacional é uma figura mais neutra, que é citado por aquilo que realizou como presidente de seu país. Ele não sorri tanto, mas também não é o bicho papão que come criancinhas. É aquele que, nas palavras do falecido sociólogo polonês Zygmunt Bauman realizou um milagre inacabado tirando 22 milhões de pessoas da miséria. Porque, bem ou mal, goste você ou não, por causa das commodities ou não, durante seu governo, Lula realmente tirou 22 milhões de pessoas da pobreza.

O que me traz aonde eu queria. Houve fases em minha vida onde eu odiava o Lula, fases onde eu o idolatrava, e a fase onde estou agora, onde eu tento observar com certo distanciamento tudo o que ele fez ou deixou de fazer como presidente. Ele tirou 22 milhões de pessoas da miséria, e isto é maravilhoso, mas a educação no ensino médio está a mesma bosta que estava antes de ele governar. De qualquer forma, eu sou a prova viva de que o ódio cego tem cura, porque se eu fosse um adolescente nesses anos confusos de 2018, eu seria certamente um bolsominion. Mas fui curado de meu ódio, e é por isso que eu digo sempre que é possível conversar com um bolsominion, embora eu não sabia como. Porque meu processo foi lento, durou anos, e eu fiz esse percurso praticamente sozinho, com a ajuda de poucos amigos que sempre me suportaram, como por exemplo o Luiz Carlos que participa no nosso Podcast Cinesofia ou os amigos que fiz no curso de filosofia, Os Fuleirões.

Mas eu consegui. Inclusive hoje eu sei que aquele ódio estranho que me foi dado como herança, tem como raiz um processo ideológico – lembrando que em Marx, a ideologia dominante é sempre a ideologia da classe dominante – que chega até nós através de vários canais, entre eles, a imprensa, que de modo intencional ou não, nos traz a informação que acha mais interessante através da ótica que achar mais conveniente.

Habermas nos alerta no último capítulo de Direito e Democracia que não é possível existir essa coitada da democracia sem uma imprensa controlada, e isso não quer dizer censura como espalham por ai, mas sim, que a voz de determinado veículo de comunicação deve ter condições de alcance limitado pelo seu concorrente. Que deve haver pluralidade de vozes na imprensa para que a população possa deliberar sobre em quem votar ou quais pautas defender. Ou seja a Editora Abril não deve ter mais vantagens no mercado do que o excelente Nexo Jornal. Porque, por exemplo, não da pra você se engajar na defesa do meio ambiente se você não tem informações sobre o real estado do desmatamento da Amazônia. Aliás, pergunte-se: você sabe essa informação? Se não sabe, pergunte-se porque diabos não há matérias em nenhum grande jornal a respeito e se você for procurar, onde conseguiria uma fonte confiável?

Hoje o nosso paradoxo gira em torno da figura do Lula, tão odiada e amada, e perfeita para nos fazer refletir sobre o quanto de nossa visão de mundo vem das informações que chegam até nós. Antes de distribuir rótulos sobre o jornal A ou sobre o canal de televisão B, leia-o, assista-o, compare visões de mundo, de preferência com outros canais em outros países e que tenham uma visão de mundo oposta a sua. Abandone um pouco suas respostas, sua empáfia, sua arrogância e pense. Pensar é grátis, certo? Dói, mas é grátis.

Porque o atual cenário é caótico, e mais uma vez é Lula quem nos permite pensar, bem ou mal, sobre ele. É um ex-presidente que pode ser preso a qualquer momento em um julgamento no mínimo, cheio de controvérsias, ao mesmo tempo que é indicado para o Prêmio Nobel da Paz.  Talvez a verdade esteja no meio e cabe a nós descobrir onde está. No processo você se surpreenderá com as mãos que irá apertar e com os preconceitos que ficarão para trás, seja você petralha ou bolsominion, não importa.

Se der certo, ao invés de qualquer um dos dois, acabe por aparecer um brasileiro.

 

OBS. Adiantando-me as críticas, digo que escolhi uma foto do Lula onde ele me parece simpático. Gosto de utilizar fotos que me passem algum tipo de conforto nas capas de meus textos, e desta vez não foi diferente. Espero que compreendam.

Participe da conversa! 14 comentários

  1. Lembro que após a reeleição da presidenta Dilma, o JN falava exaustivamente da crise que o país atravessava!!! Enquanto isso o povo lotava as ruas fazendo compras e os hoteis estavam lotados para a virada do ano e férias. E eu pensava “crise”! que crise é essa? A partir daí fui abrindo os olhos e ouvidos para outras mídias; cancelei assinatura de jornal que tinha há anos. E fui escolhendo aqueles que me parecem menos extremistas. Hoje, desconfio e descarto 0 8 e o 80! Afinal me sobra muito entre um e outro.

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  2. não existe escritura do triplex no guarujá em nome do lula, nem pagamento de condominio.
    QUE JUSTIÇA É ESSA? QUE CONDENA SEM PROVAS?
    É tudo armação, por que o Aecio Neves ainda não foi a julgamento? a Globo e o PSDB desde qdo a DILMA ganhou a eleiçao atacaram ela até conseguirem o impcheman dela.

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  3. Muito bom! Só lembrando que a responsabilidade pelo ensino médio é prioritariamente dos Estados e não da União. Já o acesso ao ensino superior, que diz mais respeito à união, aí basta uma pesquisa rápida pra ver que o Lula fez muita coisa a respeito. Mais do que em toda a história do país.

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  4. Talvez sejam poucas as pessoas que vão entender o seu texto, pois não estão abertas o suficientes para isso… conhecer o outro lado da moeda e ser honesto sobre a realidade é algo que vemos pouco por ai. Hj eu tbm observo as coisas de longe, e espero que um dia todos os políticos sejam tratados iguais pela lei e condenados por seus crimes… algo talvez até utópico. O texto é mto bom, parabéns!

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  5. Olá, Rafael!

    Antes de mais nada, parabéns pelo texto! Sou graduado em Filosofia, tenho pós em EJA e atualmente trabalho como professor na rede pública estadual de SC.

    Sobre o ensino médio, também esperei por uma federalização da educação. O hoje senador Cristovam Buarque, quando era ministro da educação, tentou, mas não conseguiu. Isso já no primeiro governo Lula. Foi uma pena, realmente, mas mudanças desse naipe, imagino eu, não são tão fáceis de conseguir. Você precisa ter apoio de câmara e senado.

    Depois, com Dilma, veio o Pacto Pelo Fortalecimento do Ensino Médio (PNEM). Não sei se você participou, mas eu sim. Professores do Brasil inteiro participaram ganhando bolsa para estudar, discutir e debater o futuro do Ensino Médio dos próximos 10 anos (2014-24). Foi um excelente curso. Então, havia uma mudança iniciando, mas depois veio o impeachment e, quase em seguida, medida provisória que jogou por água abaixo o trabalho iniciado.

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    • Bah! Eu participei e achava aquilo fantástico! Pra tu ver como as coisas estão acontecendo em um ritmo frenético, acredita que eu havia me esquecido deste Pacto? E realmente, era uma excelente iniciativa! Pena q houve o q houve.
      Sobre o Lula, ele teve em momentos distintos, apoio gigante no Congresso e nas ruas.
      Eu, sendo bem honesto, creio q ele fez muito. Mas queria tê-lo visto fazendo mais e em áreas como educação por ex.
      Obrigado pela lembrança!

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  6. Só hoje encontrei seu post por estar procurando textos relacionados a esse tema: o ódio dirigido não só a Lula, mas à esquerda em geral. Eu nunca tive ódio por Lula nem pela esquerda, pois venho de uma outra trajetória histórico-política que você. Era uma menina quando se deu o golpe em 64; fiz o ginásio com Educação moral e cívica, uma disciplina imposta pelo governo da ditadura, e por isso muito abstrata – levando os alunos a decorarem os conteúdos porque eles eram nada interessantes e incompreensíveis. Na universidade foi quando me dei conta concretamente de uma esquerda – a nata do pensamento crítico e intelectual era de esquerda, a MPB era de esquerda, muitos artistas eram de esquerda – e foi a esquerda que nos salvou do poço ditatorial porque a situação política partidária antes estava bem polarizada. Para os estudantes em geral que quisessem
    pensar criticamente avaliando o que uma ditadura militar significa para uma nação, só existia praticamente a esquerda. Eu tenho esta experiência política, como milhões, e por isso não posso me adaptar a sistemas conservadores, e isto eu agradeço a esquerda. Hoje a situação não está tão diferente: o ódio ressurge, e bem perigoso; a polarização está se agravando, e também é perigosa, mas ainda acho que os brasileiros aprenderam algumas lições e por elas não vão deixar de lutar – é a perspectiva que se pode deixar para as futuras gerações, assim como a esquerda foi uma lição para mim. O bom hoje é que está se tornando mais claro o quanto os políticos com seus partidos estão despreparados para os problemas aos quais nos enfrentamos, e como é importante a ação dos grupos minoritários que compõem a sociedade – não é o PT exclusivamente que seria capaz de mudar coisas no Brasil, mas sim o que ele congrega como uma força democrática. Gostei do seu post e um abraço da Mariluz.

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  7. Excelente texto, obrigado por compartilhar. O pensamento critico, independente está em crise também nos dias atuais.

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Filosofia

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