Herbert Marcuse (Berlim, 19 de julho de 1898 — Starnberg, 29 de julho de 1979) se perguntou em O homem unidimensional e agora pergunto eu a você: “não lhe incomoda a terrível harmonia entre liberdade e opressão, produtividade e destruição, crescimento e regressão?” Que vivamos em um mundo onde em alguns anos parta um foguete apenas de ida a Marte para colonizarmos outro planeta, enquanto estamos muito distantes de produzirmos um sistema político minimamente igualitário? Que ao mesmo tempo em que exista remédios e procedimentos médicos impressionantes, 815 milhões de pessoas passem fome diariamente no mundo?

Nossa liberdade nos é dada na mesma medida que é tirada. Somos livres para viajarmos o mundo e podemos viver onde queremos. Mas, se você pretende passar uma temporada na Irlanda, vai precisar comprovar sete mil reais na sua conta poupança. E se você não está roubando ou traficando, essa grana não virá rápido. A Marcuse incomodava tanto quanto incomoda a mim. Nosso modelo social é uma fábrica de sofrimento e ultimamente nem mesmo a arte tem nos ajudado tanto quanto poderia. Para cada Pearl Jam produzindo um pôster criticando a ocupação do exército no Rio de Janeiro, há uma Anitta cantando Vai Malandra, e na favela calada diante da execução política de Marielle. A voz empoderada que sai da favela se cala quando falar parece tão necessário. Porque vai que uma vírgula acaba por ofender algum patrocinador ou anunciante, e no BBB 19 a Globo não a chame mais, não é verdade?

Essa contradição nos mostrada por Marcuse se revela poderosa ferramenta para conhecermos o posicionamento filosófico de Hajime Tanabe,  (Tokyo, 3 de fevereiro de 1885 — Maebashi, 29 de abril de 1962) filósofo japonês, para quem a filosofia se trata primeiramente de um ato de confissão. Tanabe estudou por algum tempo na Alemanha durante a década de 20, com os filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger. Regressou  ao Japão em 1945, onde passa a fazer parte da Escola de Filosofia de Kyoto, para um ano depois publicar sua obra Filosofia como Metanoética onde ele desenvolve seus conceitos filosóficos em um inteligente e criativo campo conceitual que consegue referenciar campos tão distintos da filosofia ocidental – como o existencialismo alemão – e da filosofia oriental – como os textos budistas, que também serviram de referência a Schopenhauer.

Para Tanabe, devemos antes de qualquer debate ou estudo confessarmos, a maneira socrática, aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos. E nestes anos selvagens de 2018, que sabemos? O que podemos saber destes anos, onde você escreve um texto pedindo diálogo e reflexão, e uma galera parte para o linchamento virtual com as ofensas padrão que vão desde “imbecil e idiota” até outros mais agressivos e perversos como “quero que o texto morra” porque no título talvez esteja escrito a palavra “Lula”?

A confissão de Tanabe é fruto de um processo por vezes longo de reflexão solitária, quase a maneira de Thoureau vivendo sozinho em frente ao lago Walden. Há um famoso ditado chinês que diz que não se consegue pensar com muito barulho na cabeça. Como podemos pensar sobre qualquer coisa quando as vozes de Sakamoto, Bolsonaro, Jean Wyllys, Reinaldo Azevedo, ou de qualquer youtuber, que terrivelmente se meteu a falar sobre tudo, de política a astronomia, na cabeça? Primeiramente pense, solitariamente.

Este silêncio é capaz de nos conduzir a nossa própria voz, onde despidos de nosso ego, vaidade e orgulho, podemos confessar o que realmente sabemos e então compreendermos quem realmente somos. Tanabe dirá que o que sabemos é Nada – ou o vazio – e que nosso “eu” é um sujeito que age sem um sujeito atuante. Difícil? Vamos tentar traduzir: quando passamos a ter conhecimento de nossa profunda ignorância sobre as coisas que nos cercam, passamos a compreender como é vazio agirmos para sustentar uma visão de mundo fundamentada na ignorância. Passamos a não mais criarmos atrito e desgaste, mas a nos recolhermos no silêncio. Em termos mais práticos, ao invés de inundarmos a área de comentário com #Bolsomito2018, #cholamais,  #FechoComFreixo, #QueSaudadeDoMeuEx, e #etc, nos silenciamos. Quando admitimos que o mundo é tão mais complexo do que podemos supor ou imaginarmos, o silêncio se tornar uma opção bastante viável. Se forçarmos o conceito de Tanabe até ele não mais suportar, quase tocamos na ideia de absurdo produzida por Albert Camus, filósofo franco argelino.

O absurdo para Camus é a total falta de sentido que nos acomete quando fazemos perguntas transcendentais como por exemplo, “porque estamos aqui?”. Camus dirá que nossa consciência nos da a sensação de sentido que, entretanto, se perde quando admitimos a perspectiva cósmica do universo e percebemos que somos uma gota de carbono infinitamente pequena, perdida em um pálido ponto azul, para citar Sagan, em um universo com aproximadamente 93 bilhões de anos-luz, que existe há pelo menos 13,3 bilhões anos. Camus aponta que devemos superar esta contradição entre nossa consciência da vida e os fatos concretos. Porque senão, acabamos por nos perder em fatos da vida profundamente empobrecedores.

Como por exemplo o UFC entre os ministros Gilmar Mendes e Luis Roberto Barroso. Que a imensa maioria do Brasil – eu inclusive – tenha ficado em êxtase com a metralhadora que Barroso disparou contra Mendes durante a sessão no TSF é compreensível. Após meses (ou seriam anos?) assistindo ao que Gilmar Mendes vem fazendo e desfazendo com sua toga, as palavras de Barroso nos gravam fortemente. “Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia.”

Mas mais do que isso, nosso frenesi diante do bate boca de dois ministros revela o quão pouco sabemos. Porque afinal de contas, hoje eu já vi no meu feed no Facebook e no Twitter as mesmas pessoas que tiveram um orgasmo com as palavras de Barroso, já meio injuriadas porque ele votou por não admitir o habeas corpus ao ex presidente Lula no dia de hoje (21/03). É como o pessoa que passa a noite transando com a outra, para no outro dia vê-la cagar de porta aberta. Pode ser que se quebre o encanto.

Por trás disso, pelo menos a mim, fica a sensação do quão pouco eu e a grande maioria das pessoas nada sabe sobre o que REALMENTE acontece nos bastidores políticos de nosso país, e é por isso que para esse texto me lembrei de Tanabe: não seria melhor admitirmos ignorância, nos silenciarmos sobre algumas questões, ao invés de repetir feito papagaios os colunistas e jornalistas de sempre?

E se o convite ao silêncio e a ignorância de Tanabe não forem suficientes, talvez a compreensão do absurdo em Camus seja uma saída. Nascemos de modo aleatório, em famílias que não pedimos, próximo a pessoas que não conhecíamos antes do nascimento com valores morais e éticos dos mais diversos, e que foram responsáveis por formarem boa parte de nosso caráter e personalidade. Então crescemos e vamos reproduzindo a afirmação ou a negação daquilo que vamos encontrando durante a vida, sabendo que vivemos pouco demais para compreender e experimentar a imensidão de tudo que nos cerca. Nunca se esqueça daquilo que Nietzsche nos lembra logo no primeiro parágrafo de Sobre Verdade e Mentira no sentido extramoral: houve eternidades onde o universo existia e nós, seres humanos, não estávamos aqui; e quando de novo a raça humana tiver passado, será, para o universo, como se nada houvesse acontecido.

Somos um breve suspiro da natureza. 

Me diga então, se faz algum sentido desperdiçar o pouco tempo que temos brigando e xingando desconhecidos na internet ou vibrando com disputas, sobre as quais nada sabemos. Sinceramente, eu creio que não.

Mas agora este problema é seu também. Faça o que quiser com ele, e, se possível, viva mutos anos e morra em paz.

 

 

 

Participe da conversa! 5 comentários

  1. O problema, Rafael, é que esse apedrejar-se mutuamente faz parte da natureza humana. E foi ele um dos motores que nos trouxe até aqui.

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  2. Talvez, talvez, sejamos o produto inacabado (em metamorfose) do processo evolutivo. Não passamos de meros espelhos da sociedade onde vivemos. Carregados de subjetividade. Foi assim no passado, e será assim até o dia em que o ser humano deixar de ser alienado pelo poder de um Estado partidário, isto é, quando os valores deixarem de se expressarem através do voto, mas sim, através do mérito. Até estes tempos chegarem haverá sofrimento em vão; para que alguns vivam bem, muitos devem sofrer… é este nosso atual paradigma socioeconômico. Não sou de Esquerda, nem de Direita… não sou nada. Odeio política.

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  3. Quando utilizei a expressão ” odeio política ” foi com o intuito de demonstrar imparcialidade, Isto é, não pretender ser conotado de tendencioso. Certamente existem pessoas credíveis no mundo político; o problema está no aparelho político. O poder administrando através do populismo, sem um cariz científico, baseado apenas na propaganda progressista, cria constrangimentos financeiros-económicos. O resultado a seguir poderá ser aferido através da componente histórica, através de incontroláveis transtornos sociais. Dependendo da magnitude mudam completamente o paradigma social. Contornar os problemas criados através do interesse coletivo e individual, é possível, mas criam dissabores em larga escala; saber gerir este enorme constrangimento requer magnânimo conhecimento e sabedoria.

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