Anos de fartura, do escritor chinês Chan Koon-Chung  (Xangai, 1952), está na lista dos melhores livros que já li. É fantástico de muitas formas: da forma como escreve à história que conta. Não quero da muitos detalhes do livro, mas infelizmente terei que revelar o seu enredo.

O cenário do livro se passa após a forte crise econômica de 2008, onde os países ocidentais se perdem no campo econômico, aprofundam esta crise e a China acaba por ocupar o lugar dos EUA como principal potência econômica, distribuindo renda e bem estar social a seus cidadãos de forma jamais vista. Há um sentimento de felicidade geral e quando Lao Chen, escritor taiwanês e personagem principal da obra, retorna de seu exílio e reencontra Shiao Xi – que no livro é traduzido como Pequena Xi – Chen inicia uma investigação para tentar descobrir que fim levaram os 28 dias que desapareceram como que por passe de mágica do calendário, de cujos terríveis acontecimentos ninguém se recorda, e o que causou a aparente amnésia coletiva.

Praticamente um mês inteiro – ou então, todo o mês de fevereiro – desapareceu da memória coletiva, mas sabe-se que após este período, houve um crescimento exponencial e um significativo aumento da felicidade entre a população.

Vou ter que revelar o final do livro, infelizmente, para continuar este texto.

Após a investigação, Chen acaba por conseguir a informação de um funcionário público chinês com acesso a informação privilegiada e ele acaba por confessar o que houve naqueles vinte e oito dias que mudaram a China, mas que apagou da memória coletiva seus acontecimentos. Afinal, o que o governo chinês fez para apagar a memória de mais de um bilhão de pessoas? E a resposta é fantástica: nada.

De fato, aqueles dias foram trágicos, e passados estes dias o governo decide tomar com mão de ferro a direção do país, restringindo algumas liberdades individuais, distribuindo drogas controladas para a população para que esta não sinta mais sentimentos ruins, como tristeza ou angústia, e a população acaba por esquecer do ocorrido pois a recompensa recebida é boa demais para ser investigada. E este é um fenômeno clínico real. Existe um fenômeno real chamado dissonância cognitiva que se caracteriza justamente por não pensar em um assunto incômodo, para o qual o sujeito não tem resposta. Ou caso possua a resposta, esta agride tanto seus valores pessoais, que o inconsciente acaba por esconder esta informação do ego. Pense naquele seu amigo ou amiga, que trata seu cachorrinho como um filho, mas que devora um bife sangrento de gado com um sorriso no rosto, e que jamais se questiona o porque comer um e dormir com o outro.

Sempre que a resposta nos agride de alguma forma, nosso cérebro acaba por arrumar uma forma de nos fazer suportar o peso da contradição. E não há nada mais humano, demasiado humano, do que a contradição. Há uma infinidade de coisas que não estamos dispostos a pensar sobre. Desde as razões para votar em determinado candidato até o porque de se acreditar em um sistema de crenças ligadas a deus específico, entre os deuses disponíveis nas mais de dez mil religiões existentes.

Essa breve introdução é porque fiquei sabendo – um pouco tarde – que o governo chinês lançou um programa chamado Pontuação de Crédito Social (SCR, em sua sigla em inglês) que foi anunciado em 2014 e hoje conta com mais ou menos 6 ou 7 milhões de chineses cadastrados. A expectativa é que até 2020 todos os cidadãos chineses já tenham sido cadastrados. E para que serve o SCR? Para dar notas ao comportamento social dos chineses através do cruzamento de dados como consumo, dívida, conversas privadas em aplicativos como o WeChat (Whatsapp chinês) ou em outras redes sociais entre outros.

Uma pessoa que, por exemplo, passe dez horas jogando seu PS4 com frequência seria classificada como preguiçosa, já um homem adulto que compra fraldas para seu filho seria classificado como responsável. Mas para o que o governo pretende fazer com esse ranking, que é público, diga-se de passagem?

Ele pretende premiar ou recompensar comportamentos sociais específicos.

Pessoas com baixa nota estarão proibidas de coisas como trabalhar como funcionário público, não poderá fazer reservas em hotéis ou restaurantes caros, não terá direito a viajar de trem ou avião, seus filhos não poderão estudar em escolas privadas mais caras. Também serão revistados com mais afinco pela alfândega, não conseguirão crédito para compras de automóveis ou residências, serão retirados de cargos mais altos de setores como o alimentício ou farmacêutico entre outras sanções que ainda serão anunciadas.

O principal problema é responder a pergunta: o que significa ter um bom comportamento social? Neste ponto quem responde, de modo bastante claro e sem debate, é o governo chinês. Será como uma cartilha que, ou é seguida a risca, ou as sanções sociais serão tão profundas que sua vida cotidiana acabará por se tornar insuportável. Por outro lado, ao seguir as normas de comportamento social estipuladas pelo governo, você receberá a recompensa de viver em um país que cresce uma média de sete por cento ao ano.

É muito provável que passado o choque inicial a própria população acabe em algum momento esquecendo que vive em um regime totalitário, que vigia sua vida privada, pois as recompensas valem a pena. Além do mais, o que se pede em troca não é um sacrifício dos mais terríveis, mas sim que a pessoa seja um bom cidadão não é mesmo? Que seja um cidadão de bem, que pague suas contas, que não brigue com o vizinho, que tenha hábitos saudáveis, que coopere com sua comunidade. Olhando de perto, acredito que há quem esteja lendo este texto e diga: “Ora, eu já faço isso hoje e não sou recompensado por isso. A ideia de receber benefícios por ser o que já sou, um bom cidadão, me parece atraente”.

Ao menos é com isso em mente que o escritor chinês Chan Koon-Chung escreveu seu romance. Com a ideia de que a dissonância cognitiva é capaz de nos fazer parar de pensar naqueles problemas para os quais nossas categorias éticas entram em conflito. Afinal, responda rápido, o que é melhor: ser recompensado por tudo aquilo que você já vem fazendo ou ter liberdade para fazer aquilo que você normalmente nunca faz?

Foucault dirá que é exatamente apostando nisso que as estruturas de poder se movem e se atualizam: incorporando um sistema de recompensa bom o suficiente para que o sujeito queira, voluntariamente, modificar seu comportamento, e agir de acordo com a vontade daquele que controla.

Hannah Arendt vai um pouco mais além e, em Eichmann em Jerusalém dirá que o comportamento gerado e premiado do “cidadão de bem” acaba por obstruir o pensamento, como já foi exposto, e uma vez que o senso crítico tenha sido bloqueado, a banalização do mal aparece. O regime nazi-fascista foi consequência deste bloqueio crítico, ela afirma. Arendt nos mostrará em Origens do Totalitarismo, que o sentimento antisemita vem sendo cozinhado em fogo brando na Europa desde o século 18, quando as monarquias europeias caíram, e os banqueiros de origem judaica passaram a oferecer crédito para os governos que estavam nascendo, em troca de alguns privilégios que lentamente foram se estendendo para a comunidade judaica como um todo.

Porém, foi durante o milagre econômico alemão, já com Hitler a frente do governo, que a população alemã desenvolve o comportamento social desejável pelo governo alemão em troca do crescimento da qualidade de vida. Bastava que não se importassem com os judeus que eram recrutados a força pelo exército para os campos de concentração, ou que os entregassem quando viravam fugitivos. Não era pedido a nenhum alemão civil que matasse ou torturasse um judeu, mas que o entregasse ao governo e que não se metesse no assunto. Ou seja, era pedido que o cidadão alemão seguisse as leis de seu país, que fosse obediente – e obediência é sempre considerado uma virtude social -, e que cuidasse de sua vida.

É a mesma coisa que o governo chinês passará a pedir de seus cidadãos, mas com ferramentas mais sofisticadas de vigilância e recompensa. Ninguém me perguntou, mas eu sou filósofo, e por isso digo mesmo assim: a China será, muito provavelmente a nova Alemanha nazista. Basta darmos tempo ao tempo.

Minha pergunta é o que acontecerá no cenário geopolítico – uma nova guerra talvez? -, e em quanto tempo o governo de um Bolsonaro da vida, importaria este sistema para o Brasil, para que eu finalmente deixe o país.

Porque leiam e anotem, é só questão de tempo.

 

Participe da conversa! 7 comentários

  1. Pois é acho que o que está prevalecendo é o ‘sei lá mais o quê” mas o que esperar se certo partido “de esquerda” chama o governo da Venezuela de “ditadura comunista bolivariana(sic) “, como se Bolívar tivesse alguma a ver , de alguma forma com comunismo, que naõ existe de fato no mundo ( só existe em teoria )
    Daí citar este exemplo de “Bolha assassina” como diria Zizek , sim porque este livro é grande merecedor de um filme de hollywood como a Bolha e ainda a China nem mesmo se firmou como maior potência mundial, mas esse livro é tudo que os EUA gostariam de falar da China,ou seja: Você não pode com eles, denigra-os !
    Achei o enredo do livro péssimo se fosse professor usaria para citar a Bolha assassina !!

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  2. Rafael,
    Se me permite, achei fraca a referência ao Bolsonaro, e por N motivos que acho desnecessário citá-los aqui. O que eu acho que teria sido melhor citar ao final do texto é a teocracia, que para muitos como eu será nossa maior ameaça.

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    • Opa Antonio!
      No fim do texto eu me referia a um candidato qualquer com as mesmas características. Eu digo “um Bolsonaro da vida”.
      Mas concordo qdo diz sobre a teocracia, esse é um problema enorme e de fato, não está sendo abordado com a frequência e intensidade merecida.
      Abração!

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  3. Então tá , não vamos confundir o Partido Nacional Socialista de Hitler com nenhum, país tido como socialista ( pois cada país implantou o socialismo a sua maneira, mas em linhas gerais segundo Marx escreveu )
    E também entendi a “Bolha” muito melhor depois de Zizek, e também Tubarão ,mas a respeito do enredo para filme de hollywood seria que ” o monstro vermelho comunista é agora representado pela China ! ” . Como a bolha vermelha saia pelas ruas estadunidenses engolindo seus devotados cidadãos, mas prefiro o filme “A onda” cineasta alemão conta como o nazismo se dissemina e sem ilusões de “ataques comunistas” !

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  4. Uma observação. A dissonância cognitiva aqui citada pode ser aplicada também a veganos: afinal, a suposta contradição que os mesmos (ou ao menos o autor do texto) apontam a carnívoros possivelmente não passa de uma racionalização a posteriori para justificar para si próprios o porquê de uma empatia por animais em geral. Existem fortes evidências nesse sentido, para começar pelas fragilidades da filosofia utilitarista Singeriana, que é uma das mais representativas desse movimento.

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    • Não sei se concordo com a crítica. Pq o ponto do texto aponta para a criação de categorias éticas, q precisam ser a posteriori.
      Eu compreendo o q diz, mas de saída diria q não concordo.

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