Eu já expus isto aqui no Cinesofia. Em Origens do Totalitarismo, a filosofa judia Hannah Arendt faz um levantamento histórico e filosófico de dois movimentos sociopolíticos: o nazismo alemão e o stalinismo russo.

Na página 59, ela nos diz que “o antissemitismo flamejou primeiro na Prússia, imediatamente após a derrota ante Napoleão em 1807, quando a mudança da estrutura política levou a nobreza à perda de seus privilégios e a classe média conquistou o direito à ascensão. Essa reforma, uma ‘revolução de cima’, transformou a estrutura semifeudal do despotismo esclarecido prussiano num Estado-nação mais ou menos moderno, cujo estágio final foi o Reich Alemão de 1871. Embora naquela época a maioria dos banqueiros de Berlim fosse judia, as reformas não necessitavam de considerável auxílio financeiro de sua parte.” (ARENDT, 2012, pág 65).

A autora segue analisando os primórdios do sentimento anti judaico, explorando o quão pouco o autor Karl Marx, alemão judeu ou mesmo Nietzsche, dedicaram sua atenção a uma questão latente e relativamente fácil de ser verificada. De toda forma, o movimento operário alemão do século 19 adquiriu através dos escritos de Marx, uma “preocupação exclusiva com a luta de classes e com os problemas da produção capitalista, na qual os judeus não estavam envolvidos nem como consumidores nem como fornecedores de mão de ora, e seu completo descaso pelas questões políticas. […] Os judeus realmente tinham pouca ou nenhuma importância nas lutas sociais da época.” (ARENDT, 2012, pág 66). Este sentimento e consciência de classe que nascem na segunda metade do século 19 será duramente combatia pela elite política e financeira como nos diz Noam Chomsky em seu excelente documentário Requiem for the American Dream.

De qualquer forma as estruturas que produziram o antissemitismo na Alemanha é bastante complexo, mas pode ser investigado a partir da falta de instrução, pois “enquanto os trabalhadores europeus, graças à sua experiência e à educação marxista, sabiam que era dupla a função do capitalista – de explorá-los, de um lado, mas, do outro, dar-lhes a oportunidade de produzir -, o pequeno lojista não encontrou quem o esclarecesse a respeito do seu destino social e econômico” (ARENDT, 2012, pág 69). E sua situação era a de quem estava “exposto às privações de uma sociedade competitiva e os destituíra de toda proteção especial e dos privilégios concedidos pelas autoridades públicas” (ARENDT, 2012, pág 69).

Os banqueiros de origem judia que começavam a operar como os rentistas modernos, despertaram o ressentimento deste pequeno lojista sem instrução acerca de sua condição social e política, que se encontrava esmagado por estruturas também sociais e políticas, que não lhe ofereciam garantias mínimas acerca do futuro, ao mesmo tempo que via autoridades públicas e a elite financeira judia responsável por conceder empréstimos às instituições governamentais, alcançando níveis elevadíssimos de renda, poder de compra e em pouco tempo, poder político. Somado ao fato de que “muitos destes banqueiros eram judeus, mais importante ainda, a imagem geral do banqueiro tinha traços definitivamente judaicos por múltiplas razões históricas” (ARENDT, 2012, pág 70).

O ressentimento direcionado ao judeu ganha contornos cada vez mais intensos quando as classes médias passaram a acreditar que esses judeus tão odiados estavam em vias de ganhar poder político. Essa combinação de uma estrutura econômica precária, baixa educação política, falta de consciência de seu papel social, aliada a um forte sentimento de ressentimento com a elite financeira rentista judia é a fagulha que incendiará o rastro de pólvora que explodirá na forma do Holocausto nazista.

Essa longa introdução sobre as raízes do sentimento antissemita na Alemanha tem como finalidade apresentar duas coisas: quais as origens do nosso sentimento fascista e quais são os judeus que a classe média brasileira escolheu para direcionar suas frustrações.

Eu acredito que nossos sentimentos não remontam ao nosso período colonial, muito embora a brilhante explanação de Darcy Ribeiro sobre nosso processo de construção do sujeito brasileiro em O Povo Brasileiro nos mostre que o mesmo tenha sido permeado por uma tensão constante entre a elite portuguesa e financeira, permeada pela presença quase nunca pacífica de negros, índios, crioulos e mulatos. Este caldo cultural entre classes sociais e classes étnicas, ao contrário do que nos mostraria Casa Grande & Senzala, magnífica obra de Gilberto Freyre, não foi pacífica. Para ficar em apenas um exemplo crítico, o professor Clóvis Moura afirma que, Gilberto Freyre caracterizou a escravidão no Brasil como composta de senhores bons e escravos submissos. O mito do bom senhor de Freyre seria uma tentativa no sentido de interpretar as contradições do escravismo como simples episódio sem importância, e que não teria o poder de desfazer a harmonia entre exploradores e explorados durante aquele período.

Creio de qualquer forma que nosso primeiro passo é identificar e aceitar – ou confessar, se pudermos usar o conceito do filósofo japonês Hajime Tanabe – que a nossa formação enquanto sujeito brasileiro é tensa e conflituosa. Mas nossas raízes fascistas não provém disto. Provém do fato de que estas mesmas elites – políticas e financeiras – tardaram tanto quanto foi possível o acesso popular ao ensino, como podemos ver quanto analisamos a chegada de centros universitários. No Brasil, a primeira instituição de ensino superior foi a Escola de Cirurgia da Bahia, criada em 1808. Depois vieram as faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda, em 1827. O Brasil foi colonizado e estuprado por portugueses no ano da Graça de Nosso Senhor de 1500. Por trezentos anos o acesso ao ensino superior foi bloqueado no país. E mesmo depois que as primeiras universidades passaram a ser criadas, ainda assim foram, como ainda são, reservadas a mesma elite. Mesmo a educação básica começa a se popularizar apenas no fim dos anos 80. A minha geração é a primeira nestes mais de 500 anos a ter acesso ao ensino básico.

Falar em educação política, em consciência do papel social do trabalhador (seja ele empregado ou empregador) em nosso país é uma conversa entre uma jaguatirica e um ornitorrinco. Simplesmente não é possível, e imaginar esta conversa é tão absurdo quanto.

Nós fabricamos um povo sem consciência social, política e sem consciência de classe, não porque o povo brasileiro é menos inteligente que o europeu. Mas porque o acesso disponível a estas informações foram e são até hoje bloqueados. Lembrem-se e jamais se esqueçam de “Madison – um Senador Americano do século 17, uma época onde os políticos eram escolhidos entre a elite financeira – quando este afirma que Sistema Constitucional formal foi feito para garantir que o poder fique sempre nas mãos daqueles mais ricos, pois eles seriam mais responsáveis. Nos debates da Convenção Constitucional vê-se Madison afirmar que “a maior preocupação da Sociedade tem que ser proteger a minoria rica contra a maioria [pobre]”.

Porque? Madison responde: “Suponha que todos votem livremente: a maioria, os pobres, se reuniriam, se organizariam e tirariam as propriedades dos ricos. Isso obviamente seria injusto, então não é possível.” Isto quer dizer que o Sistema Constitucional norte americano – e sabemos, não apenas o deles – foi pensado para minimizar a democracia de modo que os pobres continuem sem voz. Porque quando os pobres falam, quando o povo grita, não há quem não escute e os mais ricos sofrem. E quem diz isto, não se esqueçam, era um político rico.” [este trecho foi retirado do texto “Porque querem assassinar Marielle pela segunda vez?” disponível aqui no blog].

Minha tese para o Brasil portanto é a mesma de Arendt. Nosso pequeno burguês, nossa classe média, e por favor, não me entendam mal, não tenho nada contra o pequeno burguês nem contra a classe média, não possui as mínimas condições de saber verdadeiramente sua posição enquanto agente político. Isto explica as manifestações com o Pato Amarelo. A classe média brasileira, assim como a alemã do século 19, está desesperada com a falta de perspectiva ao mesmo tempo que não compreende como o caos social em que vivemos foi, historicamente, gerado e gerenciado. Então, como todo sentimento fascista, acaba por eleger um inimigo.

E assim o é, não porque o brasileiro típico da classe média é um monstro horripilante. Isso ocorre porque o cidadão de classe média é humano e seu cérebro funciona como o cérebro de qualquer ser humano. Zizek nos explica no filme Guia pervertido do cinema que os múltiplos medos, anseios, angústias, desejos, inseguranças e etc, são pesados e impessoais demais para nosso ego lidar. Então nosso inconsciente acaba criando um personagem contra quem será direcionado nossa perplexidade e incompreensão dos múltiplos e complexos problemas da realidade. Este personagem já foi o judeu, o negro, a mulher, antisoviético, e… o esquerdista.

Aliás, diga-se de passagem a caça aos comunistas, socialistas ou a qualquer ser humano que critique o capitalismo, é algo que não nasceu recentemente. Para ficar em um único exemplo, o ex presidente Collor discursa ao fim do debate editado da Rede Globo com o então candidato Lula, dizendo que os brasileiros votassem sim a nossa bandeira que é verde, amarela, azul e branco, não a bandeira comunista vermelha. Collor sofreu o impeachment meses depois de eleito, ao ser flagrado em um caso de corrupção que ele mesmo, anos depois, acabou por confessar ainda que indiretamente.

O discurso que pretende culpar a esquerda e os esquerdistas, possui paralelos com o do alemão que pretendia culpar o judeu tão grandes que não podem ser ignorados. Ainda mais quando de 2014 para cá este sentimento tão forte e assustador tomou as ruas. Primeiro na internet com agressões verbais contra qualquer pessoa que vista vermelho. Depois nas ruas, com ofensas e ameças. Então com brigas físicas de fato. E por fim atirando na caravana do ex presidente, condenado em segunda instância, Lula.

Minha leitura é que Lula não é execrado publicamente por ser corrupto como advogam seus detratores. Fosse assim o brasileiro também se mobilizaria contra outros corruptos como Temer, Sarney, Aécio ou qualquer político tão corrupto quanto. E também contra outros criminosos como Robinho, ex jogador do Santos e do Atlético Mineiro, condenado por participar de um ESTUPRO COLETIVO.

O meu ponto é que sua figura é execrada porque Lula, ao menos no campo do discurso, se identifica com as esquerdas e, queira você ou não, a lidera. Ele representa no campo do imaginário das classes médias despolitizadas, o mal a ser combatido. E quando atiram contra sua comitiva, meu sinal de alerta dispara. Porque hoje é Lula, amanhã sou eu.

Embora eu muito fale de Lula, não tenho lá muita simpatia por ele. Reconheço os avanços de seu governo, não sou cego, mas também reflito sobre suas falhas. Então se você me acompanhou e me entendeu até aqui, meu ponto como sempre não é o Lula, mas o sentimento fascista que tomou conta da população. Obviamente eu não ignoro o papel das fake news e dos grupos que orbitam a internet alimentando este ódio.

Mas este texto fica pra amanhã.

 

 

 

Participe da conversa! 3 comentários

  1. Como sempre, ótimo texto. Tudo fica ainda mais explícito quando, por exemplo, tentam redirecionar qualquer debate político – especialmente no Facebook – aos governos Lula e Dilma, ou como preferem, à ditadura petista.

    Curtido por 1 pessoa

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  2. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    A CADELA NO CIO DO FASCISMO AGORA PARIU: TEMPO DE TERROR – UM RESUMO DOS ÚLTIMOS 15 DIAS
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/03/29/a-cadela-no-cio-do-fascismo-agora-pariu-tempo-de-terror-um-resumo-dos-ultimos-15-dias/

    O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes.

    Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres.

    Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 24 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado.

    A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares.

    Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias.

    O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500.

    Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas.

    O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. … …

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