A filosofia possui em seus 2.500 anos um grande número de autores que se dedicaram a estudar a democracia. Desde os clássicos Platão e Aristóteles até o relativamente desconhecido Amartya Sen (Santiniketan, 3 de novembro de 1933), professor de Economia e Filosofia da universidade de Harvard, que embora se defina como economista, possui reflexões típicas da filosofia política.

Enquanto diversos autores divergem de diversas formas em questões sobre a natureza do homem, a legitimidade do governo, o monopólio da violência, a mensuração da pobreza, o destino dos recursos, o gerenciamento da natureza entre tantos outros pontos discutíveis, todos concordam que a democracia se pretende um governo onde o poder está nas mãos do povo. Há inclusive debate sobre o que é este conceito abstrato de poder. Weber o compreende de modo teleológico. Arendt não apenas discorda como afirma que aquilo que Weber chama de poder, na verdade é violência; poder é o que emerge da reunião de pessoas livres e iguais. Habermas concorda em parte com Arendt, pois ele aponta para o poder administrativo como forma de organizar as decisões que, por questões de urgência, precisam ser tomadas sem irem a plebiscito.

De qualquer forma, fiquemos com o conceito que corre pelo senso comum, que a democracia pressupõe o poder junto ao povo que, de tempos em tempos, o empresta para um político de sua escolha.

Quando falamos que democracia pressupõe isto, o debate precisa ser direcionado para a seguinte pergunta: quais são os fatores decisivos para a tomada de decisão de uma pessoa e de uma população? E isto complica muito as coisas.

No momento em que profissionais do marketing, da propaganda, do design e de áreas correlatas compreenderam sobre os processos de tomada de decisão do seu público consumidor, essa lógica passou a ser incorporada de modo estratégico pelos políticos em suas campanhas eleitorais, tornando eles mesmos produtos a serem vendidos. É inclusive assim que Christopher Wylie, ex funcionário da Cambridge Analytica, define
Trump: como sandálias Croc. Como um item de consumo que apesar de esteticamente feio, é desejado e consumido.

Não fosse verdade, a verba de campanha destinada para agências publicitárias não seria a quantidade absurda que hoje é. Em 2014 os partidos políticos brasileiros gastaram mais de 5 bilhões de reais em publicidade de acordo com o site do Estadão e políticos eleitos tem um gasto em média 11 vezes maiores do que os não eleitos.

Esse problema por si só já incomoda. Explicitamente está posto que uma eleição, em nosso país, é vencida através dos recursos alocados corretamente, o que torna a disputa eleitoral em estratégia econômico-marketeira. Não precisa pensar muito para descobrir que, infelizmente, as propostas apresentadas para o Estado são postas em segundo lugar e questões absurdamente irrelevantes são colocadas em pauta pois, os profissionais destas áreas conseguem mapear com grande precisão, quais assuntos são relevantes para seu eleitorado. Temas como a religiosidade do candidato tomam espaço cada vez maiores, e cada vez menos as pessoas se questionam se faz diferença seu governador ser cristão, satanista, budista, ateu, ou professar qualquer tipo de fé, se sua administração for eficiente, se ele cumprir com suas promessas, respeitar as leis vigentes, for humano e atencioso no trato da coisa pública. Tanto é verdade que em pleno 2018, aproximadamente 20% dos eleitores seguem seu líder religioso na hora do voto de acordo com pesquisa do Data Folha. Um quinto do Brasil. Entre os evangélicos esse número sobe para 26% e entre os evangélicos neopentecostais esse número chega a 31%, o que quer dizer que de cada três evangélicos neopentecostais, um vota com seu pastor sem refletir sobre o assunto.

A supressão do elemento lógico na tomada de decisão para o pleito político me assusta. O recente caso do Cambridge Analytica nos deveria colocar a todos em estado de desespero social.

Sendo bastante sucinto, e ignorando detalhes, o caso em si trata de uma empresa que colheu dados dos usuários do Facebook de modo ilegal, mapeou o perfil de 50 milhões de usuários da rede social e com esses dados em mãos, foi possível manipular o resultado de eleições que mudaram a geopolítica do planeta inteiro, fazendo o Reino Unido votar a favor da saída da União Europeia e colaborando na eleição de Donald Trump.

É assustador e distópico imaginar que com os dados de apenas 50 milhões de pessoas seja possível influenciar de modo decisivo o destino do mundo. Isto é tão problemático que até mesmo o presidente da Apple, Tim Cook, critica o fato. Em suas palavras, “nós poderíamos fazer muito dinheiro de nossos consumidores se eles fossem o nosso produto. Nós decidimos não agir dessa forma”.

Cara, quando o presidente de uma empresa acusada de usar trabalho escravo (como você pode ler aqui e aqui) acha o que você faz indigno, é sinal de que você foi longe demais.

Ao compreender que os políticos se tornaram definitivamente produtos a serem vendidos (como se fossem sandálias Croc) e como os eleitores decidem seus votos de modo irracional, muitas vezes votando contra seus próprios interesses, a rachadura da frágil casca que é a democracia se mostra. Basta algumas marteladas e o verniz democrático que nossa sociedade plutocrática tem. E essas marteladas podem vir em forma de campanhas alimentadas de modo direto ou indireto, fazendo a população crer que o regime democrático não é capaz de melhorar sua situação social. Elegendo inimigos que, por causa de sua existência, atrapalham o bom funcionamento do Estado. Lembra-se da população do eixo sul-sudeste reclamando do voto dos nordestinos em 2014? Dizendo que o país havia afundado “porque eles não sabiam votar?” Bom, é isso.

Estes sentimentos, em uma democracia saudável precisa ser combatido com informação, debate, política pública, ações sociais. Há uma infinidade de ferramentas que podemos utilizar para integrar a população para que possamos conviver com o contraditório. Para que saibamos que a crítica não pressupõe o ódio. Ao invés disso, de posse destes dados colhidos através de sofisticadas ferramentas de colheita de informações, os medos, anseios, dúvidas e raiva da população são habilmente manipuladas para que ações políticas destruam processos de diálogo intercontinentais que estão há décadas sendo construídos em uma tentativa de integrar nações em redes coopetitivas.

Habermas nos alerta sobre o risco que a democracia sofre em regimes onde a mídia não tem sua força entre a opinião pública regulada. Hoje o problema não respeita fronteiras e invade espaços como Brasil, EUA e Reino Unido com a mesma facilidade e os legisladores sequer são capazes de pensar em um código internacional para tratar de problemas que afligem a comunidade global.

Estamos presenciando o começo do fim da democracia como conhecemos. O que virá a seguir eu não sei, mas nossos filhos e filhas provavelmente viverão em um ambiente político bastante diferente quando morrermos.

E não me sinto otimista para dizer que irá melhorar.

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