Defino minha religião como um budista não-metafísico por ter lido mais Wittgenstein (Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951) do que um religioso gostaria. Em seu livro Tractatus Lógico-Philosophico, Wittgenstein argumenta que se existe qualquer coisa de metafísico no mundo nós não podemos pensar ou mesmo falar sobre, devido a estrutura de nossa linguagem. Todo o argumento do livro gira em torno da ligação entre signos linguísticos, o que significa dizer o verdadeiro, como dizemos o que pensamos, o que significa pensar, e de modo bastante simplista, a linguagem trabalha associando fatos simples do mundo e é somente sobre essas coisas que podemos falar.

O aforismo número 2.0121 da obra diz que “não podemos pensar em nenhum objeto fora da possibilidade de sua ligação com outros” o que significa dizer que como o místico ou o metafísico, está para além destas ligações por representarem o absoluto, sobre elas, nada podemos dizer. Ao fim, o livro encerra com a famosa proposição número 7 que diz que sobre o que não se pode falar, deve-se calar. Um conselho pra lá de necessário nos dias de hoje, onde um especialista em direito, história ou filosofia aparece a cada dois minutos na internet formado em vídeos no youtube ou em páginas famosas por espalharem fake news.

De qualquer forma, uma vez exposto em linhas gerais parte de minha espiritualidade, irei supor neste texto que você também não é um cristão típico, ou mesmo que não possui espiritualidade alguma, e crendo que ainda assim o recado lhe serve. Dito isto, ao texto.

A coisa mais interessante que já ouvi sobre a páscoa nos últimos tempos veio da boca de uma pastora responsável por uma igreja Luterana em um município do interior do Rio Grande do Sul. Ela dizia que a páscoa fala tanto sobre o divino quanto sobre o humano. Ela citou uma passagem que não faço a mínima ideia de onde se encontra no textos bíblicos, aonde uma mulher pobre banha Jesus Cristo com um perfume caríssimo e os seus discípulos acham aquilo um desperdício. Pensaram, como qualquer pessoa razoável, que se ela vendesse o tal perfume, poderia ganhar um troco e colocar pão na mesa vazia. Da mesma forma, foi um de seus discípulos, o tão mal falado Judas, quem o vende. A pastora ainda disse que ao contrário da crença popular – minha inclusive -, Judas não o vendeu por 30 moedas de prata. Judas entregou Jesus aos soldados romanos pela quantia que eles estavam dispostos a pagar. Tivessem oferecido 15 moedas, Judas teria aceitado. Um outro discípulo negou a Cristo três vezes antes do galo cantar. Não me recordo de nenhum deles indo visitar Jesus no cárcere, e quem ajuda Cristo com sua cruz durante o calvário é um desconhecido até então. Nenhum de seus seguidores se dispôs voluntariamente. Aliás não consta nos textos bíblicos que nenhum dos seus discípulos o tenha ajudado de forma alguma durante os tempos difíceis que antecedem sua morte.

A pergunta aqui, mesmo que você ache tudo isso um conto ficcional, é como lidamos com aquilo que acreditamos ter valor.

O que achei bastante interessante na abordagem da pastora foi o fato de que ela falou da páscoa sem necessariamente falar de Jesus. E também sem cair no discurso fácil que está inundando a timeline do Facebook ou o feed do Twitter: “Jesus foi condenado a morte pelo cidadão de bem”.

O ponto é como uma mulher anônima – e a pastora fez questão de frisar em tom crítico como as mulheres são quase sempre anônimas na bíblia, o que me fez prestar ainda mais atenção ao seu discurso – tratou Jesus e como seus discípulo o trataram. A primeira deu aquilo que tinha de melhor mesmo podendo fazer bastante dinheiro com o tal perfume. Os segundos viveram alguns anos com Jesus e o viram fazer coisas que não se vê todo dia como andar sobre a água, multiplicar pão e peixe e – o melhor dos milagres – transformar água em vinho. E mesmo assim o abandonaram, o negaram e o traíram.

Creia você ou não na veracidade das histórias narradas na bíblia, a reflexão é valida por nos fazer pensar um pouco sobre aquilo que tem valor a nós mesmos e como estamos tratando este objeto.

Este objeto pode ser de diferentes categorias. Podemos estar falando da família, algo bastante palpável e óbvio de certa forma, mas também podemos estar falando de coisas mais subjetivas como por exemplo nossa saúde mental, nossa dignidade, nossa alegria, a amizade. A lista é tão grande quanto você quiser que seja.

Pense com carinho se as brigas que você vem comprando com desconhecidos no Facebook vale a pena. Se os xingamentos que você direciona está lhe fazendo bem. Será que as brigas que você comprou com seu tio são mais importantes do que as vezes em que vocês riram juntos, antes do país virar este poço de ódio que virou? Tem valido a pena brigar com seu pai por política todo almoço de domingo que deus dá?

Será que não há nada que lhe deixe feliz fora da internet para ser feito? Ler um livro, fazer uma comida, ligar para um amigo? Aliás, quando foi a última vez que você usou o celular para ligar para alguém para jogar conversa fora? Com as ligações via Whatsaap dá pra ligar sem pagar nada por isso.

Afinal de contas, porque espalhar ódio e arrumar briga parece tão importante para tanta gente? Rir quando alguém morre, se deliciar quando alguém é espancado, humilhado, ignorado. Quantos vídeos circulam pelo whats, as vezes em grupo de família, aonde uma pessoa é espancada até a morte por ter cometido algum crime? Se você se considerar um cristão e ainda assim assiste ou compartilha vídeos como este, imagine que no momento em que você o está assistindo ou compartilhando, soem as trombetas do Apocalipse e Cristo venha para julgar a tudo e a todos. Você iria para junto do Criador ou se juntaria a Lúcifer no inferno? Creio que a resposta está bem clara.

Será que não existem outras coisas importantes em nossas vidas, que estão sendo negligenciadas quando gastamos nosso pouco tempo livre em debates intermináveis, seja on line, seja ao vivo. Ainda ontem eu exclui um comentário aqui no Cinesofia porque senti que a pessoa estava sendo agressiva comigo. Então ela foi na área de comentários da Pense, é Grátis, página onde eu sou criador de conteúdo – e com bastante orgulho de sê-lo por ser uma das poucas páginas realmente humana e plural que eu conheço – me xingar por ter apagado seu comentário dizendo que “além de dizer besteira ainda teve a deselegância de deletar meus comentários! Exibindo arrogância, imaturidade, e abuso do pequeno poder que ele tem que é o de censurar os comentários em seu blog. Um tirano mirim, ainda engatinhando no mundo da comunicação digital democrática.”

Fiquei pensando cá comigo: mas porque ele se importou tanto em ter seu comentário deletado por mim? Ele sequer me conhece… Porque foi até onde seu comentário poderia ser exibido me atacar dizendo que eu exibia arrogância, imaturidade, me chamar de ditador e etc?

Eu não tenho uma resposta, mas acredito que a reflexão proposta pela pastora que citei pode nos fazer refletir sobre como estamos gastando nossas vidas. Se com coisas que realmente nos importam ou com brigas tolas.

Porque a vida é uma só meus caros. Desperdice-a como quiser.

PS. Em tempo: exclui o comentário da pessoa citada no texto por me sentir agredido com o mesmo. Não importa se sua intenção era me agredir, importa que eu estou empenhado em duas coisas: me sentir bem e fazer com que a área de comentários do Cinesofia não se torne a do G1.

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