Porque os marxistas gostam tanto de psicanálise? Porque os psicanalistas são os únicos capazes de responder, bem ou mal, porque Marx errou quando previu a revolução do proletariado.

Slavoj Zizek costuma contar esta piada (piada?) em suas entrevistas e ensaios, mas na verdade, esta é uma preocupação real para o campo esquerdista/progressista por ser a principal crítica que a direita/conservadores lhe dirigem. Para quem não sabe a historinha – afinal, há muita gente anti-marx ou ainda marxista que nunca leu o autor -, Marx prevê que quando o trabalhador tomar consciência de sua condição na sociedade burguesa ele naturalmente tomaria os meios de produção e a revolução se instauraria. Há quem diga que Marx diz isso olhando para os eventos da Revolução Francesa. Mas há também quem diga o contrário. Não há problema. O fato é que todo ser humano que bate cartão, que obedece a um patrão, tem contas atrasadas, se mata fazendo hora extra para pagar o transporte escolar do filho, sabe que a maior fatia de tudo que ele produz fica com o dono dos meios de produção; que a partilha dos lucros (ou da mais valia, para usar um termo marxista) deveria ser menos gritante para se pretender minimamente justa. E olha que estou sendo mais razoável que a maioria dos marxistas: estou até mesmo admitindo uma partilha desigual do dinheiro recolhido com o fruto do trabalho. Que o patrão fique com uma fatia maior, que o maquinário seja pago, que as contas da empresa sejam honradas e, vá lá, se retire uma margem do lucro para reinvestir na própria empresa. Ok, ok. Ainda assim eu gostaria que o trabalhador não ficasse ao fim do mês com um salário de R$ 954,00 fora os descontos dos impostos.

Trocando em miúdos, o operário da esteira de produção sabe que é explorado quando ele chega para trabalhar suado do busão e do metrô lotado (no caso das mulheres ainda estão sujeitas a algum tipo de assédio dentro dos transportes coletivos) e vê seu patrão chegando com um carro mais caro do que sua vida inteira de salário. A contradição de nossa sociedade lhe grita na cara quando ele percebe que todo o seu dinheiro ganho na vida não paga um item comprado por seu patrão. Não vamos nem comentar o apartamento que ele deve ter em Ipanema ou o duplex na Av. Paulista.

Porque a revolução dos trabalhadores nunca aconteceu e creio, jamais ocorrerá, mesmo tendo plena consciência de que estamos em uma sistema social que nos torna próximos a nada? Não digo nada apenas porque tenho plena consciência de que é a mão pobre que sustenta toda essa engrenagem.

Porque a consciência ideológica do trabalhador é conservadora. Edmundo Burke (Dublin, 12 de janeiro de 1729 — Beaconsfield, 9 de julho de 1797), filósofo britânico-irlandês foi um dos poucos a criticar a Revolução Francesa com os argumentos que vistos de perto, parecem frágeis, e que passam o recibo de conservador. Apesar da população francesa sofrer há anos com a inépcia de um sistema político onde sua voz não alcançava a realeza e por conta disso, mas não somente por isso, sofriam de males como fome e miséria, a tentativa popular de romper com o sistema político francês bem como com os alicerces da monarquia para fazer nascer o que hoje compreendemos como democracia foi duramente criticado por Burke em sua obra Reflexões sobre a Revolução em França sob a alegação de que “É impossível estimar a perda que resulta da supressão dos antigos costumes e regras de vida. A partir desse momento não há bússola que nos guie, nem temos meios de saber a qual porto nos dirigimos. A Europa, considerada em seu conjunto, estava sem dúvida em uma situação florescente quando a Revolução Francesa foi consumada. Quanto daquela prosperidade não se deveu ao espírito de nossos costumes e opiniões antigas não é fácil dizer; mas, como tais causas não podem ter sido indiferentes a seus efeitos, deve-se presumir que, no todo, tiveram uma ação benfazeja” (BURKE, 1982, 102).

Burke representa o típico pensamento conservador, com o qual Helio Gurovitz, colunista da revista Época concorda, ao expressar sua preocupação com o futuro uma vez que as tradições e costumes se foram e com uma “situação florescente” da qual a maior parte da população não sente sequer o cheiro. Pouco ou nada importa a Burke a situação real do camponês francês. Sua visão é de longo prazo. Que o camponês de hoje passe fome para que, talvez seu tataraneto tenha três refeições ao dia. Romper com o ritmo social significa colocar em risco tudo, inclusive a refeição de seu descendente.

É uma visão bastante pessimista com relação a capacidade popular de concretizar seus desejos na vida prática. Embora a Revolução Francesa tenha custado a vida de muitos (nobres inclusive) e a ela tenha se seguido o Terror e a Era Napoleônica, hoje a História nos mostra que desse turbilhão histórico nasceu nossas instituições democráticas e nossa noção de Estado e separação dos poderes republicanos. E a França vai mais ou menos bem, obrigado.

O ponto defendido por filósofos como Adorno e Horkheimer, e em certa medida até mesmo por Kant, dependendo de como você lê seu texto, O que é o Esclarecimento, é que a população, em geral, tende ao conservadorismo e apoia sua agenda política. É por isso que o golpe dado em 2016 com a ajuda do parlamento, do judiciário e da imprensa foi apoiado por um número gigantesco de pessoas.

E é por isso que o Golpe Militar de 1964, foi pedido naquelas terríveis Marcha da Família com Deus pela Liberdade que ocorreram 19 de março e 8 de junho de 1964 e depois saudado como Revolução pelos jornais da época. Quando João Goulart (São Borja, 1 de março de 1919 — Mercedes, 6 de dezembro de 1976) anunciou suas Reformas para o país, entre elas as Reformas Agrária, Bancária, Educacional, Fiscal, Urbana e Eleitoral, pretendia-se mudar, e muito, a estrutura do Estado brasileiro bem como sua concepção e cultura.

A Reforma Agrária pretendia democratizar o uso da terra, e antes que você esperneie, saiba que os EUA fizeram esta reforma em 1862 pela caneta de Abraham Lincon. A Reforma Educacional se pretendia emancipadora e crítica, tendo como norte as teorias de Paulo Freire, único autor brasileiro na lista dos cem livros mais pedidos na Universidade de Harvard, a melhor universidade do mundo. A Reforma Fiscal pretendia limitar o envio de capital para o exterior, tendo em vista uma política nacional de valorização do consumo interno. Antes de gritar contra essa reforma, lembre-se: é exatamente o que Trump faz hoje em dia. A Reforma Bancária pretendia aumentar a linha de crédito para o consumidor, porque o pobre também quer ter televisão e geladeira boa, além de aquecer o consumo, a indústria e o consumo interno. A Reforma Urbana pretendia ser o que foi o programa Minha Casa, Minha Vida e a Reforma Eleitoral daria voto aos analfabetos e militares de baixa patente, além de legalizar o Partido Comunista Brasileiro. Porque em uma democracia legítima você pode ter partidos das mais variadas ideologias, e que o povo decida em quem votar.

Se essas reformas dariam certou ou não jamais saberemos. Os militares não deixaram com o apoio, hoje sabido, do governo dos Estados Unidos. Poderiam ser um sucesso gigantesco ou então a elas poderiam suceder o Terror, como na França. De qualquer forma jamais saberemos, e os franceses ainda são uma exceção a regra conservadora. Ao menor sinal de mudança social, cultural, política, estrutural profunda, a população recua com medo de perder os poucos recursos que possui e ter que construir para si não apenas um projeto de vida, mas também as condições sociais que pavimentaram este projeto.

Daí o apoio ao golpe, com poucas pessoas articulando alguma resistência sem muito êxito ao longo das décadas de 70 e 80. E é por isso que, mesmo com muito pesar e tristeza, eu prevejo a vitória de Bolsonaro para as eleições de 2018. Porque a memória das mudanças estruturais promovidas pelos governos Lula/Dilma ainda estão bastante presentes. Os programas que, goste você ou não, ajudaram parte da população mais carente como o Bolsa Família e o Prouni/FIES, ainda são vistos com desconfiança e seus defeitos são muito mais apontados que seus êxitos. Isto quando os programas são creditados a outros presidentes.

Esta lembrança ainda é forte e recente para que um candidato reformista ganhe o pleito. Acredito que o segundo turno (se houver) ficará entre Alckimin e Bolsonaro, e então, o candidato do nióbio e do grafeno, leva.

Ao fim, a certeza de que nosso caos social não mudará e a previsão bastante palpável de um terceiro impeachment acontecendo entre os anos de 2018 e 2022 devido a flagrante falta de capacidade como articulador demonstrada até aqui, por este candidato.

Como sempre, quero estar errado, mas nesses casos, costumo acertar. Lembro quando alertei em um texto de 24 de outubro de 2014 (você pode conferir clicando aqui) que um golpe se avizinhava, e ninguém me levou a sério. Bom, eu estava certo e quem duvidou, errado.

Espero, de verdade, estar errado dessa vez. Mas não creio, novamente e infelizmente, ser o caso.

 

Participe da conversa! 5 comentários

  1. Misericórdia senho!! Amo seus textos, mas espero verdadeiramente que você esteja errado dessa vez, kkkkk

    Curtido por 2 pessoas

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  2. O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE, UMA LEITURA FUNDAMENTAL

    Curtido por 1 pessoa

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  3. MAIS UM ÁLBUM DE FIGURINHAS ALEATÓRIAS, MAS NADA DESPRETENSIOSAS; QUE NOJEIRA!
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2017/10/19/mais-um-album-de-figurinhas-aleatorias-mas-nada-despretensiosas-que-nojeira/

    Mais um álbum de figurinhas nojentas… quem tiver estômagos (quem sabe com estômagos múltiplos se consegue…), é só abrir este arquivo.

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