Hoje é um dia bastante especial ao mesmo tempo que simbólico. Em 4 de abril de 1968 era assassinado Martin Luther King (Atlanta, 15 de janeiro de 1929 — Memphis, 4 de abril de 1968), no mesmo ano em que Hannah Arendt publicava seu ensaio sobre a violência, era decretado no Brasil o AI 5, os Beatles lançavam um dos melhores discos da história, o Álbum Branco, os estudantes de Paris insurgiam contra um sistema educacional excludente e se insurgiram contra a polícia francesa. Bastante coisa importante acontecia em 1968, e para nós, brasileiros, não está sendo lá muito diferente.

Em especial hoje, dia 4 de abril de 2018, exatos cinquenta anos após a morte de Luther King, Lula está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal sobre sue habeas corpus. Goste você ou não do ex presidente, é preciso aceitar que muita coisa está em jogo neste julgamento, além da liberdade ou não dele.

Luther King, pastor, ativista político e Nobel da Paz, era adepto daquilo que Henry David Thoreau chamou de desobediência civil, que é o direito e o dever que o cidadão possui de se colocar diante de uma lei que promove injustiça. No caso de Thoreau, ele foi preso por se recusar a pagar um imposto destinado a guerra contra o México. Pensemos conosco, em um tempo onde pensar é grátis, mas cada vez mais raro. Me pergunto o que será de nosso tempo quando finalmente acharem uma forma de cobrar por nosso pensamento.

Enfim, pensemos sobre a quantidade absurda de leis que passaram por todo o processo legal antes de serem sancionadas, que contavam com grande apoio popular, e ainda assim, são atrocidades inumanas. Ou eu preciso justificar as razões pelas quais a escravidão é nefasta? Minha bisavó, Severiana Patrícia nasceu escrava. Deus sabe quais foram as atrocidades cometidas contra ela. Além da escravidão em si, não ser dono do seu corpo, da sua vontade, ela também foi classificada pela igreja como mais próxima dos macacos do que dos brancos, lhe foi negada uma alma, e muito provavelmente foi estuprada por seu dono. Ela morreu sem saber sua idade pois não tinha nenhum registro de seu nascimento. Minha família inventou para ela uma data para comemorar seu aniversário. Ela veio a falecer em 1991. Ontem né? Ela atravessou quase todo o século XX com traumas e marcas que, veja só, eram legítimas, pois a escravidão constava na legislação de sua época.

A mesma coisa vale para a Alemanha nazista. É importante demais lembrar que o Holocausto judeu não foi a vontade ou a ação de um indivíduo – Hitler – mas sim, uma política de Estado. Aqueles que cumprissem estas ordens recebiam recompensa social e financeira, quem não o fazia não era morto, ao contrário da crença popular, mas sofria punições administrativas. Isso torna tudo ainda mais perverso: afinal as pessoas que participavam ativamente do extermínio judeu – entre eles o caso mais famoso, o de Adolf Eichmann – o fazia de caso pensado e por livre vontade. Faziam o que faziam pois era legítimo fazê-lo. O advogado Robert Servatius, argumentou no julgamento de Eichmann, que o mesmo precisava ser revisto pois não se podia julgar um indivíduo por ter agido de acordo com a Constituição de seu país. A corte de Jerusalém, aonde Eichamann foi julgado, precisou fazer um grande esforço para simplesmente poder julgá-lo, portanto. É preciso dizer ainda que a obediência, característica que Eichmann deu a si mesmo, é sempre considerado uma virtude social. Obedecer a lei de seu país é sempre visto com bons olhos.

Até os anos 1960, nos EUA, terra da liberdade, os negros passavam por humilhações terríveis, fruto de um sistema escravagista que acabou por segregar a população. Não podiam comer nos mesmos restaurantes dos brancos, não podiam beber água nos seus bebedouros, sentar nos seus bancos de ônibus. É famosa a entrevista de Muhammad Ali dizendo que após ganhar o ouro olímpico e derrotar nações comunistas – e portanto inimigas dos EUA – não pode comer um cachorro quente na lanchonete da cidade onde nasceu e cresceu. Não podia por ser negro, e caso ele protestasse, o errado seria ele, porque a lei assim dizia.

É neste cenário que a liderança de Luther King aparece. Seu ideal é o fim da segregação racial e sua ação política é exatamente questionar a lei com o argumento de que “é nosso dever moral, e obrigação, desobedecer uma lei injusta.” Em consonância com Luther King, o filósofo negro William Du Bois (Great Barrington, 23 de fevereiro de 1868 — Acra, 27 de agosto de 1963) também classificou a segregação racial o principal problema de sua época. Du Bois rejeitava o que ficou conhecido como “racismos científico”, que hoje sabemos foi produzido por cientistas que receberam dinheiro para produzir artigos a favor do racismo. Porque você se pergunta? Para que a “autoridade” da ciência se colocasse a favor dos poderes estabelecidos. Se lhe parece absurdo isso, pense nos 3% de pesquisadores que recebem verbas das companhias petroleiras hoje em dia para dizer que o aquecimento global é uma farsa. Mesmo que em 2040 nós possamos navegar pelas camadas polares do Oceano Ártico e que ilhas como a Groelândia desapareçam.

O ideal de Du Bois pode ser resumido em sua principal convicção: acredite na vida. Acredite no progresso, que possamos ser capazes de viver de forma melhor e mais completa. Desacreditar do progresso humano em todos os campos, mas especialmente no campo ético e moral, é desacreditar que nossas contradições e complicações terão fim. Significa aceitar que sempre haverá crianças escravas produzindo ovos de páscoa para você comprar para seu filho, ou que chineses continuarão trabalhando de modo desumano para que ano que vem a Apple lance seu iPhone 9. Que os trabalhadores boia fria do nordeste brasileiro continuarão recebendo centavos pelo quilo da cana de açúcar para que sua Coca Cola continue em um preço aceitável ou que ainda aceitemos os fato de que atualmente uma pessoa morra de fome a cada quatro segundos no mundo. e a insegurança alimentar atinga um contingente de 104 milhões de seres humanos.

Acreditar na vida é necessário para que as nossas desgraças e tragédias possam ter ao menos a esperança de desaparecer. Entretanto, como nos alerta Gilles Deleuze (Paris, 18 de Janeiro de 1925 — Paris, 4 de Novembro de 1995),  “vivemos em um mundo que é geralmente desagradável, onde não só as pessoas, mas os poderes estabelecidos tem uma participação na transmissão de afetos tristes para nós. […] Os poderes estabelecidos precisam da nossa tristeza para nos manter escravos. […] Para administrar e organizar nossos pequenos medos íntimos”. 

Há uma relação íntima entre medo e tristeza e é fundamental, diz Deleuze, manter a população triste e temerosa para que ela seja controlada, administrada e organizada da maneira que é. É preciso que você sinta medo de se expressar livremente, de protestar contra algum partido político específico, para que tudo permaneça como está.

E é então que nós voltamos para o Brasil de 2018.

A menos que você seja uma samambaia, você já deve ter percebido que todo protesto contra o PT – que é legítimo, é preciso dizer – acaba com a população abraçando a PM e tirando selfies bacanas para o Insta. E que todo protesto contra partidos como o PSDB ou o MDB acabam com a população correndo da polícia e no outro dia os jornais estampem o rosto ensanguentado de manifestantes. É preciso que você se pergunte porque um protesto é elogiado e o outro é reprimido SEMPRE. E antes que você me diga que é porque em um tem baderneiros e em outro não, eu peço gentilmente que você olhe para o passado e veja como os protestos contra o poder estabelecido era tratado. Como eram tratados os negros que protestavam contra o fim da segregação racial, como eram tratados os sul africanos que protestava contra o fim do Apartheid – Nelson Mandela, ex presidente da África do Sul e Nobel da Paz ficou preso 27 anos em decorrência desses protestos -, como eram tratados os indianos que lutavam pela independência de seu país.

Sempre que há protestos contra o poder estabelecido, há violência, pois, além de quebrar dentes e ossos, o medo precisa ser gerado naqueles que estão desejosos de participar desses protestos no futuro. É preciso que cada coração desejoso de mudança pense duas, três, quatro vezes antes de pisar o pé para protestar contra um sistema profundamente desigual e injusto como o nosso. O medo paralisa e mantém o mundo horrível. Para isso espancam manifestantes que se colocam contra, para isso assassinam Marielle, para isso nos dizem sempre que a vida é dura e sempre será.

A merda com isso! A merda com a dureza da vida e com qualquer lei que me obrigue a viver uma vida penosa e sem sentido, batendo cartão das oito a seis, vivendo mal e porcamente entre feriados e finais de semana. A merda!

É preciso que você pense, pelo amor de Deus, que pense, porque uns protestos são permitidos e outros não. E não me venha, de novo, com a ladainha do “manifestante cidadão de bem” porque o sistema estabelecido está cagando para o cidadão de bem ou não. Ele se importa em manter a estrutura social desigual e só. Qualquer movimento que coloque esta estrutura em risco é combatida. Qualquer movimento que alimente esta estrutura é incentivada.

E é por isso meu caro que uns manifestantes são espancados e outros elogiados. Por isso uns vão para o Insta fantasiado de Neymar e outros para a capa de jornal cheio de sangue.

Porque um deles é de fato um corajoso manifestante. Alguém que venceu o medo e a tristeza para estar na rua quando a cavalaria da PM é solta, quando bombas de gás lacrimogêneo são lançadas junto com granadas de efeito moral e balas de borracha. O outro mal fica suado enquanto desfila pela Av. Paulista.

Ao fim um deles deixaria gente como Mandela, Marthin Luther King, Mahatma Gandhi, William du Bois, Gilles Deleuze, Thoureau, bastante feliz.

O outro arranca elogios de Alexandre Frota, Roger, Beto Barbosa, Zezé di Camargo, talvez até mesmo de Eichmann. E vira piada no carnaval.

Escolha seu lado meu amigo. Escolha com sabedoria, porque a História já está lhe cobrando.

 

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. Que texto sensacional! Brilhante a sua condução. Que mais pessoas possam abrir os olhos e sair dessas cavernas de egoísmo e ignorância que as cercam.

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