Kant (Königsberg, 22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) é uma pedra. A filosofia tem desses filósofos que nos trancam o caminho e, ou nos entendemos com ele, ou não conseguimos entender nada do que vem depois. Kant é assim. Todo filósofo que vem depois dele precisa se posicionar com relação ao prussiano mais metódico de todos os tempos. Já disse antes, e repito agora, mas a piada é que os habitantes de Königsberg, sua cidade natal e onde passou toda a vida, ajustavam seus relógios pela hora em que Kant passeava no parque. Porque ele passeava todos os dias, sempre ao mesmo horário e sempre o mesmo trajeto. Deus me dibre!

Eu adoraria tratar de outros temas em Kant, como por exemplo a influência que ele exerceu e ainda exerce, sobre a filosofia da mente tão presente hoje em dia, e da qual Daniel Dennett é o principal expoente. Mas os tempos pedem que voltemos ao Kant ético, uma vez mais. Digo uma vez mais pois a tese do imperativo categórico já apareceu por aqui quando falei de Robinho e Neymar. De qualquer forma, expliquemos novamente o tal do imperativo categórico tal e qual já foi falado aqui, no Cinesofia.

Para quem nunca ouviu falar do imperativo categórico, esta é uma teoria desenvolvida por Kant com a finalidade de desenvolver um “dever-ser” ético. O que isto quer dizer? Quer dizer que as motivações das ações humanas deveriam ter o imperativo categórico como pressuposto sempre, e desta forma todas as relações sociais estariam livres de problemas como corrupção e mentira. Mas do que trata a ideia do imperativo categórico?

Ela diz que toda ação humana deve ser motivada respondendo sim para as seguintes perguntas:

a) o que quero fazer pode se tornar uma lei universal seguida por todas as pessoas deste momento em diante? – princípio da lei universal.

b) o que quero fazer tem a humanidade, incluindo eu mesmo e qualquer outro, como finalidade, e não como meio? – princípio do fim em si mesmo.

c) a minha vontade pode encarar a ela mesma como legisladora universal através do que desejo? – princípio do legislador universal ou da autonomia.

Respondendo sim as três perguntas, a sua ação está pronta para servir de base a todos os seres humanos e pode ser aplicada em todos os momentos sem causar dano ou prejuízo intencional a ninguém. É uma decisão pautada pela razão, e não por interesses escusos, muitas vezes danosos. As ações humanas para Kant não devem seguir o princípio da utilidade – farei o que é importante para mim -, mas sim o princípio da universalidade tendo como base a humanidade. Isto quer dizer: farei o que é racional fazer de modo que o que eu estou fazendo agora poderá ser feito contra mim no futuro e eu não serei prejudicado.

Fácil não é? Ao menos no papel. Porque na prática costuma ser um pouco mais difícil que isso, porque o imperativo categórico, que serve de sustentação para todo o comportamento ético em Kant é bastante severo, afinal pede que você aja sempre tendo em mente o tempo futuro. É preciso que você se pergunte se entre agora e o fim de sua vida, não haverá um único momento em que você não irá agir de modo a romper com sua ação no presente. Por exemplo: se você afirma que roubar é errado, então essa máxima irá ser sempre utilizada quando um roubo acontece, não importando o motivo, porque afinal, roubar é errado, mesmo que, por exemplo, seja uma mulher roubando uma maçã para dar de alimento a seu filho ou, também por exemplo, o ex presidente da república roubando para supostamente comprar um triplex. É a mesma coisa não é mesmo? Roubo é roubo, e fim de papo. Podemos discutir as penas para cada crime, mas, repito, roubo é roubo.

O mesmo para outros comportamentos. Traição, por exemplo. Se você acha que trair a esposa ou o esposo, o namorado ou a namorada é errado, então isso vale para você e para seu parceiro(a) enquanto a relação durar, e também para outras relações que você vier a ter entre hoje e o fim dos tempos. Tanto você quanto a outra pessoa não podem fazer sexo com outras pessoas, porque isso foi determinado como errado. E só vale se a regra valer para ambos, certo?

E quando você disse para o amigo na fila do pão, para o vizinho enquanto lavava o carro, ou para o colega do escritório que não tolera mais corrupção e saiu fantasiado de Neymar pela Av Paulista contra a ex presidente Dilma lá em 2016, você agiu de acordo com sua consciência, afinal, corrupção é corrupção certo? E nós temos que começar combatendo a corrupção de alguém! Que seja a da presidente, para que todos entendam o recado! Primeiro tiramos a Dilma, depois tiramos o resto, você deve ter dito. A máxima aqui é uma só: ser contra a corrupção. E tanto é verdade, que ontem, já em 2018, você deve ter retirado sua camiseta da CBF de dentro do roupeiro para, novamente pedir a condenação e prisão de Lula, porque você é contra a corrupção. E Lula é corrupto, todo mundo sabe: a Veja sabe, a Globo sabe, o o Estadão sabe, a Folha de São Paulo sabe, o Zero Hora sabe, a RBS sabe, o Sergio Moro – abençoado seja – sabe, outros juízes também sabem… Bom talvez os juízes não saibam ainda, porque parece que faltam as provas, mas sobram convicções. Mas se a imprensa sabe, parece que basta, para que se forme a convicção que basta por si só.

De qualquer forma, quem pode ser a favor da corrupção, pelo amor de Deus? Ninguém!

Mas e nesses dois anos de intervalo, entre uma passeata e outra, onde você estava? Porque os uniformes da CBF parecem tão novinhos, como se tivessem sido usado uma ou duas vezes apenas? Se a sua máxima é ser contra a corrupção, onde você estava quando o áudio de Romero Jucá foi revelado e ele continuou como  líder do governo no Senado Federal e vice-líder no Congresso Nacional? Ou quando o Aécio foi gravado dizendo ter que escolher um laranja que ele possa matar antes de delatar? Ou quando Temer teve seus processos de investigação por corrupção engavetados duas vezes? Aonde você estava, eu gostaria muito de saber.

Porque o mais interessante em Kant é que suas teses são bastante complexas nas obras originais, mas quando você as entende, percebe que são de simples compreensão, e, vá lá, bastante úteis. São úteis porque revelam com extrema clareza o nível de hipocrisia que vive velado debaixo dos ternos caros, dos sapatos engraxados, dentro de carros importados e apartamentos de luxo.

E se a carapuça lhe serve, meu caro, a vista, e faça um favor a todos nós. Na primeira oportunidade que tiver – e eu espero que tenha logo – vá morar confortavelmente em Miami e deixe o Brasil para quem tem sangue correndo debaixo das veias e precisa urgentemente de seu país realmente funcionando, sem hipócritas ou fascistas. Vá ser feliz com o Pateta, e pode deixar que a gente aqui promete arrumar o resultado desastroso de sua hipocrisia.

Palavra de honra.

 

 

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