A Filosofia entrou sem ser convidada no Ensino Médio brasileiro em 2008. Forçou sua passagem após ser eliminada pelos militares durante a Ditadura Militar. Foi substituída por aquele horror chamado Educação Moral e Cívica. Eu digo sempre a meus alunos que uma disciplina que não te ensine a pensar não merece ser ensinada ou aprendida, e a matriz curricular de Moral e Cívica era horrorosa por recitar códigos como se mantras fossem. Em teoria ensinavam a amar a pátria sem antes ensinar que ninguém deve amar nada que não mereça amor. Que antes de eu amar o Brasil e os brasileiros, eles devem ser antes, dignos de meu amor. Ou ainda, que não existe diferença nenhuma entre um brasileiro e um argentino, salvo que um nasceu em uma porção de terra e outro, noutra. Nenhum ser vivo há de me convencer porque devo amar menos uma pessoa por causa de sua cultura ou idioma. Hannah Arendt foi acusada de não amar os judeus quando escreveu Eichmann em Jerusalém, e respondeu em carta a um amigo que ele estava certo. Ela não tinha nenhum amor especial por um povo ou pátria. Entretanto amava a todos os seres humanos por igual, exceto aqueles que eram próximos a ela, e a estes, dedicava um amor especial. Aprendeu a diferença entre uma filosofa e um militar?

Prossigamos.

De qualquer forma a Filosofia foi escorraçada pelos militares em 1964, voltou em 2008, e já saiu fora em 2018. O Ministério da Educação entregou na terça-feira 3/04 a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio para o Conselho Nacional de Educação, e a Filosofia voltou a ser um conteúdo transversal a ser abordado por qualquer pessoa. Como detalhe macabro, Educação Moral e Cívica voltaram, também como conteúdo transversal. Coincidência? Óbvio que não.

Não bastasse o problema da Filosofia, outras disciplinas também passaram a ter seu componente curricular de modo transversal, como Química ou História. Apenas Português e Matemática são obrigatórias, porque tudo indica que, segundo o MEC, aprender ditongos e o teorema de Pitágoras é mais importante que qualquer coisa escrita em dois mil e quinhentos anos por qualquer filosofa ou filósofo que já pisaram no planeta. E olha que eu sou daqueles professores antigos, que acredita que saber ditongos e teoremas tem bastante valor.

O problema no caso da Filosofia – e no meu em especial, pois eu começo a ver um futuro onde minha profissão simplesmente desapareça – é que nenhum professor de nenhuma outra disciplina precisa ouvir aquela pergunta que dói os ouvidos: “Mas, para que serve filosofia?” 

Talvez a exceção sejam os professores de Sociologia, mas creio que eles não escutam tanto quanto nós. De qualquer forma, esta pergunta é respondida por Deleuze em sua obra Nietzsche e a Filosofia:

“Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja, que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém, não é uma filosofia. A filosofia serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, além da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos algozes. Fazer, enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres, isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado, da moral, da religião. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem interesse em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica mostra-nos o mais positivo de si mesma: obra de desmistificação. (…) A tolice e a bizarria, por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia para impedi-las, em cada época, de ir tão longe quanto desejariam, para proibi-las, mesmo que seja por ouvir dizer, de serem tão tolas e tão baixas quanto cada uma delas desejaria.” (Deleuze, 1976, p. 87).

A Filosofia, portanto, não serve para nada, porque não tem senhor. Não serve para nada porque não se faz sapatos mais coloridos com ela. Não tem serventia ao Estado, ao contrário. Para o Estado, a Filosofia é um tipo de câncer, pois agride o pensamento comum e padronizado. Sabemos que o padrão retira sua força da repetição. Quanto mais pessoas repetirem uma ação ou um pensamento mais padronizado a ação e/ou pensamento se tornam. Agora imagine milhões de pessoas pensando e fazendo a mesma coisa durante vários anos. Então aparece a célula cancerígena, o filósofo, que produz e reproduz outra forma. Que ao invés de comprar um monte de coisas que não precisa, faz como Sócrates e diz ao vendedor, e a quem mais quiser ouvir, que os shoppings estão cheios de coisas que não precisamos. E a isto eu acrescento que o celular novo que você comprou não vem com a felicidade inclusa. Você terá que aprender a ser feliz sozinho. Ou não também, problema seu.

A Filosofia precisa causar transtorno, raiva, tristeza em pessoas, principalmente naquelas que não sabem para ela que serve. Muitas pessoas ficam nervosas comigo na área de comentários, principalmente quando se sentem lesadas pelo texto, quando aquilo que está escrito agride seu senso de realidade. Sempre que eu vejo essas pessoas tristes e nervosas, me xingando ou tentando debochar de mim ou do que escrevi, Deleuze me lembra que estou no caminho certo. Agride a ignorância, a tolice, a mistificação, a verdade que vem de poderes estabelecidos, como a mídia.

A Filosofia não serve a pensamentos que dizem sim ou não para tudo que vê ou ouve. Mas ela excita aqueles que pensam em termos de “talvez“, “quem sabe“, “não sei“. Meu grande amigo deleuziano e fulero, William Dubal (Santo André, 1979), resumiu bem a coisa: fazer Filosofia nesses termos é tão bom se masturbar, quanto transar. É tão bom quanto gozar e dormir.

Nenhuma transa é igual a outra, mesmo que seja com as mesmas pessoas. Há de se chupar aqui, colocar ali, beijar lá entre gemidos, tapas e palavrões. Cada pergunta leva a um caminho novo, diferente, e os frígidos e rígidos não suportam essa incerteza.

Querem o gozo rápido, o sim, o não, a certeza, nunca a dúvida ou a ignorância. Querem prazer rápido, parar logo de pensar, porque pensar dói, mas prazer assim, só galo e galinha tem, dizia Rubem Alves.

Daí para eliminarem a Filosofia de vez é um pulo, e aí quando alguém reclamar dirão que a Filosofia está lá, porque eles não sabem nada de Filosofia, vão dizer que qualquer coisa dita é Filosofia. Algo tão bom, em bocas tão podres…

Depois ninguém entende porque um fascista, em nosso país, tem tanta intenção de voto, nem porque há tanta gente pedindo a volta da Ditadura. Nós, filósofos, explicamos. Mas quase ninguém pergunta, e mesmo assim, quando respondemos, menos pessoas ainda nos escutam. O resultado está aí ó, na sua cara.

Pode colocar seu cinto de castidade: bem vindo de volta a 1964.

Edit: Uma matéria veiculada pelo jornal Folha de São Paulo cita uma pesquisa relacionando o ensino da filosofia e da sociologia a queda no desempenho de disciplinas como português e matemática. Não é verdade. O texto mente por não oferecer nenhuma relação causal entre um fato e outro. E mesmo que fosse verdade, prefiro que meu aluno saiba Foucault e Deleuze a saber o que é um ditongo ou teorema de Tales.

Porque se eu tiver que lutar pela minha disciplina, pode apostar que eu lutarei.

Participe da conversa! 10 comentários

  1. Saiu a lista dos crimes cometidos por Lula.
    Minha gente, quase 70.

    01) FIES
    02) Pronatec
    03) Prouni
    04) Ciência sem Fronteiras
    05) Mais Médicos
    06) Farmácia Popular
    07) Minha Casa, Minha Vida
    08) Bolsa Família
    09) Cisternas no sertão
    10) Luz para Todos
    11) Transposição do Rio São Francisco
    12) Reativação do Transporte Ferroviário
    13) Ferrovia Norte-Sul
    14) Ferrovia Transnordestina
    15) Aumento do salário mínimo acima da inflação
    16) Água para Todos
    17) Brasil Sorridente
    18) Pronaf
    19) FAT
    20) Programa Brasil Sem Miséria
    21) Bolsa Atleta
    22) Bolsa Estiagem
    23) Bolsa Verde
    24) Bolsa-escola
    25) Brasil Carinhoso
    26) Pontos de Cultura
    27) Programa Biodiesel
    28) SUS
    29) SAMU/UPAS
    30 Saúde da Família
    31) FGEDUC (Seguro do FIES)
    32) Casa da Mulher Brasileira
    33) Aprendiz na Micro e Pequena Empresa
    34) MEI Microempreendedores Individuais
    35) Pagamento da Dívida Externa ao FMI
    36) Empréstimo ao FMI
    37) BRICS
    38) Retirada pela ONU do Brasil do Mapa da Fome
    39) Reequipagem, Valorização e Autonomia da Polícia Federal
    40) Liberdade para a PGR
    41) Liberdade para o MP
    42) Escolha para os órgãos da Justiça dos primeiros das listas das corporações
    43) Jogos Pan-americanos
    44) Copa do Mundo
    45) Olimpíadas
    46) 98 conferências nacionais de 43 áreas, como educação, juventude, saúde, cidades, mulheres, comunicação, direitos LGBT, entre outras.
    47) Orçamento para a Cultura cresceu de R$ 276,4 milhões em 2002 para R$ 3,27 bilhões em 2014
    48) Vale-cultura
    49) Programa Cultura Viva
    50) Programa Mais Cultura nas Escolas
    51) PND – Política Nacional de Defesa – Investimentos em defesa cresceram dez vezes: de R$ 900 milhões em 2003 para R$ 8,9 bilhões em 2013
    52) Participação das FFAA em 11 missões militares de paz da ONU
    53) Projeto Submarino Nuclear
    54) Modernização da frota de aeronaves da FAB com transferência da tecnologia
    55) Pré-sal
    56) Redução de 79% do desmatamento da Amazônia brasileira
    57) Aumento em mais de 50% da extensão total de área florestal protegida.
    58) Liderança mundial em redução de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Entre 2010 e 2013, o Brasil deixou de lançar na atmosfera uma média de 650 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.
    59) Valorização do polo naval
    60) Refinaria Abreu e Lima
    61) Novas usinas hidrelétricas: Teles Pires, Belo Monte, São Manoel, Santo Antônio, Jirau, São Luiz do Tapajós
    62) Conferência Mundial Rio+20
    63) PPP
    64) PAC
    65) Aumento exponencial do parque eólico brasileiro
    66) Polos de desenvolvimento NE: Suape PE, Pecém CE e Camaçari BA: Investimentos somam cerca de R$ 100 bilhões.
    O PT tinha dinheiro para todos estes programas e projetos e ainda deixou um caixa de US$ 371 bilhões.

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  2. Tirando a % de cada projeto deve estar milionário. Ele e seus comparsas.

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  3. A filosofia é fundamental para esclarecer as pessoas sobre as contradições do mundo. Sobre a opressão e a miséria. Ela desembrutece, quando encontra sujeitos abertos e disponíveis… Por isso, o governo atual precisa colocá-la de lado.

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  4. Para o governo,não é interessante que as pessoas pensem,muito menos que o jovem aprenda a pensar,a formar o seu próprio conhecimento ,sem as velhas decorebas,A partir dos questionamentos que surgem quando se estuda filosofia,adquirimos a capacidade de não nos deixar levar pelas lavagens cerebrais,tão oportunas para aqueles que se consideram mais sabidos e querem fazer os demais de trouxas! É isso que está ocorrendo em nosso país,onde educação nunca foi prioridade! Sem educação jamais seremos uma Nação! Mas quem mesmo se importa com isso!

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  5. A Sociologia nem regulamentada é, até hoje. Fico preocupada um pouco, porque não sei se há espaço de trabalho para nós, Sociólogos. Parece que não. Porém, é o seguinte, nós temos que criar uma frente forte e não deixar o goiverno nadar de braçada para destruir com tanta fúria tudo o que quer.

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  6. Sou estudante de letras – língua portuguesa, amo a filosofia e concordo com tudo que foi dito, com exceção da parte do menosprezo ao ensino da nossa língua. Ao reduzi-la a apenas “ensinar ditongos”, você acaba descaracterizando a luta por uma educação ampla que forme realmente cidadãos e a transforma em uma picuinha sem muito fundamento.
    Acaba fazendo o mesmo que aqueles que, por ignorância, criticam o ensino da filosofia.
    Penso que a importância das disciplinas é a mesma e deveriam ser obrigatórias sim.
    Afinal o ensino da língua e da literatura tem muito a ver com a filosofia também. As áreas se completam.
    Nós estudantes e professores do nosso idioma temos também a consciência e o ideal de que é possível humanizar, preparar cidadãos críticos e integrais e transformar o mundo através da linguagem.

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