“O que significa dizer o falso?”, se pergunta Ludwig Wittgenstein (Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951) um dos maiores filósofos da linguagem desde Platão, em seu primeiro livro, Tractatus Logico Philosophicus. Para compreender melhor a amplitude de sua pergunta sobre dizer o falso, convém explicar que Wittgenstein está interessado em descobrir, na realidade, aquilo que é possível ser dito e, por consequência, aquilo que não pode ser dito.

E o que pode ser dito? Aquilo que pode ser apreendido pelo pensamento e pela linguagem. Faça um esforço e pense em um objeto único, e falhe miseravelmente, ao constatar que você provavelmente pensa no objeto – uma caneta, por exemplo – sem se dar conta que a pensou num espaço preto ou branco, e, que o preto ou o branco são outra coisa. Você pensou portanto, em uma caneta em relação ao espaço que ocupa. Poderíamos brincar dizendo que a própria caneta é um objeto composto por outros menores que mantém relação entre si: a tinta, o corpo plástico, sua tampa. E que essa regressão é infinita até o átomo. Porém, para pensar um objeto indivisível, é necessário conhecer o conceito de divisão, o que é impossível de ser pensado antes de ter a experiência – através da vivência de ver objetos divisíveis ou através do estudo – da divisão. O que nos leva a um paradoxo: só é possível pensar objetos indivisíveis, se, e somente se, você conhecer o conceito de divisão primeiro.

A estrutura da linguagem e do pensamento também nos impede de dizer o falso, pois dizer o falso significa dizer aquilo que não existe, e não podemos dizer aquilo que não existe. Então um ateu se levanta e diz: mas e Deus? Se Deus não existe, porque há milhões de pessoas falando dele? Supondo que o ateu esteja correto, ao falar de Deus nestes termos, estamos cometendo um contrassenso, ou seja, pensamos estar falando sobre algo, mas como nossa linguagem não remete a nada, de nada falamos. É um diálogo vazio sobre coisa alguma e, por isso, não produzirá nada.

Wittgenstein avança descrevendo coisas cada vez mais complexas como por exemplo a explanação que ele nos oferece na proposição 4.1252, onde ele descreve a relação lógica interna da estrutura lógico-matemática – compreendendo linguagem enquanto linguagem – capaz de fornecer a base causal de ordenamento sequencial da seguinte forma: “série dos números não se ordena segundo uma relação externa, mas segundo uma relação interna.  Da mesma maneira, a série de proposições “aRb”, “(3x) : aRx . xRb”,
“(3x, y) : aRx . xRy . yRb”, e assim por diante. (Estando b numa dessas relações com a, chamo-lhe de sucessor de a.)”

Ou então quando está se contrapondo a Bertrand Russel a respeito do conceito de verdade, entre as proposições 5.530 e 5.533, quando ele afirma que a “definição dada por Russell de ” =” não é suficiente, pois, segundo ela, não é possível dizer que dois objetos possuem em comum todas as propriedades. (Ainda que esta proposição não seja correta, possui sentido.) Falando grosso modo: dizer de dois objetos que são idênticos é absurdo, e de um único que é idêntico consigo mesmo por certo não diz nada. Não escrevo pois “f(a, b) . a = b” mas “f(a, a) (ou “f(b, b)”). Não escrevo “f(a, b)” . = b”, mas “f(a, b)”. E analogamente: não “(∃x, y) f(x, y) . x= y”, mas “(∃x) . f(x, x)”; não “(∃x, y) . f(x, y) . ¬x= y”, mas “(∃x, y) • f(x, • (Desse modo, em vez da fórmula de Russell “(∃x, y) . f(x, y)”, temos “(∃x, y) . f(x, y) . v . (∃x) . • f(x, x)”). Em vez de “(x) : fx ⊃ x = a” escrevemos, por exemplo, “(∃x) . fx ⊃ . fa: ¬(∃x; y) • fx • fy”. E a proposição “somente um x satisfaz f( )” será “(∃x) . fx : ¬(∃x, y) • fx • fy”•. O signo da igualdade não é, pois, parte essencial da ideografia.”

Difícil? Pois é. Isto é apenas um argumento utilizado por Wittgenstein para demonstrar que dizer que algo é igual a alguma coisa, no âmbito lógico linguístico, é não dizer nada, ao contrário do que pretendeu supor Russel, professor de Wittgentein. Sabe aquele ditado do técnico em computação que cobra um real pelo parafuso e mil reais pelo conhecimento de qual parafuso trocar? Então, é o que estou demonstrando aqui. Que para compreender coisas complexas, e torná-las simples para quem lê, é necessário mais do que ver vídeos de adolescentes raivosos falando como se fossem uma cópia descolada do William Bonner. Mas prossigamos.

A conclusão do Tractatus é alocar as coisas que podem ser ditas, como logicamente pensáveis e dizíveis e apontar para aquilo que não pode ser dito ou pensado. Neste campo Wittgenstein coloca o metafísico e o místico. E a ética.

Como assim?

A ética é um campo da filosofia, ou de qualquer outra área do conhecimento onde se estipula os comportamentos que todos devem ter. Ela diz como se comportar em cada situação, e não abre exceções. Aquilo que você chama de exceção, não é exceção, mas antes um código previamente pensado. Por exemplo: é antiético passar a mão na bunda de uma mulher. Exceção a regra: ela permitir. Não é exceção portanto, mas um adendo a regra original, que prevê casos específicos nos quais a regra pode ser violada. A regra portanto não é simples, mas complexa, e importante dizer, universalizante, porque deve ser seguida por todos nós sempre.

Entretanto este conjunto de regras é impossível de ser pensado em sua totalidade, o que já faz da ética um campo, no mínimo, maleável. Mas também há um problema: a única coisa que justifica a regra são as vontades dos concernidos. Podemos cair facilmente, apenas no campo lógico do debate, em uma regressão infinita. Quer dizer, porque é errado passar a mão da na bunda de uma mulher sem consentimento? Porque isso a agride. E porque agride? Porque ela não deseja isso? E porque não deseja isso? E assim por diante, até o fim dos tempos. A resposta final nunca chega, no campo lógico, de modo que as regras éticas são auto reguláveis por si só. Porém, isso é o que chamamos na filosofia da matemática de problema de Euclides. O geômetra Euclides é quem nos diz que um ponto no espaço plano, é um ponto. Dois pontos formam uma reta e duas retas paralelas jamais se cruzam no infinito. Mas daí há dois problemas: primeiro que o campo de visão mostra o oposto, pois duas retas se cruzam no ponto de fuga, e segundo que ninguém jamais conseguirá medir duas retas infinitas para saber se em algum lugar elas se cruzam. Tanto é verdade este problema que hoje os matemáticos trabalham com geometrias não-euclidianas para dar conta deste problema que foi estudado e melhor desenvolvido por Kurt Gödel, matemático amigo de Albert Einstein e desafeto de Wittgenstein.

Toda essa explanação para que possamos colocar Arthur do Val, do canal Mamãe Falei, como um sujeito que preenche os requisitos éticos de Wittgenstein, por simplesmente ignorar qualquer tipo de conduta minimamente ética segundo o senso comum.

É bastante peculiar que ele sempre encontre uma justificativa – quase sempre boba e infantil – para suas perguntas – igualmente bobas e infantis. A última presepada de nosso novo Ivo Holanda, foi receber um tapa na nuca – “pescotapa in football street language” – do presidenciável Ciro Gomes. O roteiro de Arthur é o de sempre: ele liga a câmera, faz umas piadas, preparando seu espectador, vai até o seu alvo, faz umas perguntas olhando de modo alternado para a câmera e para seu entrevistado, rindo como quem está debochando, e não importa o que ele responda, o entrevistado tem a certeza de que será ridicularizado. Se o convidado é arrogante, é ridicularizado por sua arrogância; se é desarticulado, idem; se é agressivo; idem; e assim por diante ad infinitum. Seus vídeos se resumem apenas a nos fazer pensar qual será o comportamento do convidado que será ridicularizado.

E se você perguntar porque diabos ele faz isso, ele responderá com argumentos dos mais variados que vão desde o mais comum, “é minha liberdade de expressão“, até algo ligeiramente mais complexo, como “o povo tem o direito de saber a resposta para essa pergunta”.

Pois bem, o que Wittgenstein diria é que, exatamente por este motivo, não é possível falar em ética. Porque alguém pode se comportar de modo semelhante a um macaco bonobo, que joga fezes nas pessoas, e ainda assim arrumar justificativas que soam plausíveis para seus atos. É possível se esconder atrás de argumentos dos mais variados para as ações mais infantis e tolas possíveis. E neste ponto, vendo o rapaz fazendo o que faz, podemos entender como Wittgenstein está certo. No fim, se existir algo como a ética, ela não é possível de ser dita ou pensada.

O interessante aqui é que possamos perceber, através do exemplo citado e do filósofo escolhido para o texto, como é fácil viver uma eterna quinta série, e ainda assim se esquivar das críticas. E fazer grana com isso. Muita grana.

Mas Wittgenstein, antes de morrer, escreve sua obra Investigações Filosóficas, reescrevendo tudo que já havia pensado, dizendo: as favas com isso. Ele repensa tudo que já havia dito no Tractatus, e passa a afirmar que a linguagem retira seu valor através dos jogos linguísticos e do valor de uso das palavras em situações específicas. Então ética é definida segundo o uso cotidiano que damos para esta palavra e para este conceito. E assim, de acordo com o “segundoWittgenstein, Arthur do Val é antiético neste sentido, porque age de modo deselegante para conseguir seus vídeos e receber dinheiro com seus vídeos. E isso, meus caros, é bastante errado, qualquer um sabe, desde minha filha que fará doze anos dia 30 de abril, até meu avô, com 88 anos que frequentou apenas o primário, mas que aprendeu com a vida tudo o que a vida tem a ensinar. Ao fim, vocês já devem saber o que dizer nestes casos.

A merda com Arthur.

 

 

 

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