Naomi Klein é uma filosofa sem querer ser. Sua formação original é jornalismo, mas após refletir sobre consumo e marketing, publicou sua primeira grande obra, Sem Logo, e se tornou uma ativista de causas que envolvem repensarmos nosso consumo e a preservação do meio ambiente.

Sua contribuição para o debate que ela propõe pensar e discutir é enorme e inegável. Mesmo que ela não proponha um sistema de pensamento, como é o caso da maioria dos filósofos, suas teses e explanações são suficientemente boas para que eu não a considere filosofa, embora haja muitos que discordem.

De todo modo ela é uma pensadora que sempre aparece em meu mapa mental quando estou pensando em um texto. E hoje foi inevitável não citá-la. Inclusive o título desta postagem é também o nome de seu último livro, Não basta dizer não, onde ela argumenta as razões pelas quais Trump se elegeu. De modo resumido e sintetizado, ela aponta para Trump como uma espécie de supermarca que nada produz. Ao contrário, Trump já deu prejuízos bilionários, mas, ao saber interpretar muito bem o papel de empresário marqueteiro, e saber administrar seu nome e pessoa como uma marca que nada produz, como por exemplo a Nike que terceiriza sua produção, Trump conseguiu fixar no imaginário popular sua imagem adjetivada. Trump, o administrador. Trump, o self made man. Trump, o empresário bem sucedido. Trump, etc.

Klein prossegue nos mostrando que, se ele se elegeu ao se transformar conscientemente em um produto, ele governa produzindo uma avalanche de mentiras e polêmicas calculadas para causar uma enxurrada de informações conflitantes, e muitas vezes contraditórias, para que sua agenda política – que visa beneficiar grandes conglomerados empresariais como a Exxon Mobil, para ficar em um exemplo – se cumpra. Por isso os tuítes irados, a briga com a imprensa, as declarações politicamente incorretas. Trump é um homem que maneja muito bem os símbolos culturais e consegue pautar o debate público com bastante destreza, de modo que é bastante improvável que ele não saiba o que está fazendo quando age de modo aparentemente irascível. Ele sabe, e sabe muito bem. Tolos somos nós se pensarmos nele como um bufão.

Se Trump se elegeu e governa como Klein nos mostra, Hilary Clinton perdeu por ter tornado multiétnico e inclusivo seu programa de governo sem debater com o devido cuidado os problemas enfrentados pela classe média operária norte americana. Ao menos esta é a tese de Nancy Fraser, filosofa feminista, autora de “Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis” (“Fortunas do Feminismo: do Capitalismo de Estado à Crise Neoliberal”, em tradução livre), em um artigo publicado para a Dissent Magazine. Em suas palavras, “eles [o comitê de campanha de Hilary, ela própria e seus apoiadores] terão de deixar de lado a cômoda, mas falsa narrativa de que perderam para um “grupo de deploráveis” (racistas, misóginos, islamofóbicos e homofóbicos) ajudados por Vladimir Putin e pelo FBI. Eles terão de reconhecer que têm sua parcela de culpa, ao sacrificar a causa da proteção social, do bem estar material e a dignidade da classe trabalhadora em prol de uma falsa compreensão de emancipação, definida em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento.” Trocando em miúdos, Hilary perdeu porque não soube dialogar com a classe operária norte americana ao mesmo tempo em que não compreendeu aquilo que os movimentos sociais de minorias como o movimento negro, feminista ou LGBTQ, propõe como emancipação política e social. Hilary resumiu uma questão bastante ampla, diversa e complexa como o reconhecimento político e social dessas minorias em uma pequena ampliação do sistema meritocrático que acabaria por tocar apenas as mulheres brancas, hétero e com excelente educação universitária.

Eu não costumo comentar o debate político norte americano, mas a notícia de que Trump atacará com mísseis a Síria, contanto com o apoio do Reino Unido e França me colocam em estado de alerta. Quando cruzamos esta informação com uma possível interferência russa, o sinal de alerta vira temor. Mas antes de tudo isso, há o problema moral e humano. Eu já havia publicado anteriormente o porque você não se importa realmente com o problema na Síria. Mas é preciso que você se importe.

É preciso porque dessa forma seremos capazes de pensar uma forma de governar que não se paute pela violência como forma de resolução de conflito, seja na Síria, seja no Rio de Janeiro. Acreditar que um homem armado com um fuzil ou uma bomba caindo do céu seja capaz de resolver algum tipo de problema é aceitar que somos mais próximos dos macacos do que seria razoável supor. Que um macaco resolva seus problemas batendo e gritando com outro macaco, eu aceito. Um ser humano, não.

Temos tecnologia para tentarmos colonizar Marte. Se aceitarmos que não temos formas mais pacíficas e sofisticadas de solucionar conflitos dessa natureza, estamos aceitando que colonizar Marte é mais simples que construir um sistema político eficaz, razoável, racional. Eu particularmente não quero crer nisso, mas se for o caso, abandonem o navio. Aceitemos o caos e o fim de tudo. Ou entreguemos as chaves dos governos para nós filósofos, como queria Platão, que nós consertamos a bagunça criada pelas grandes corporações e pelos políticos profissionais.

Porque não dá pra aceitar essa situação. Um país não pode anunciar que irá bombardear outro e todo mundo achar normal. Não é normal, fim de papo. E para esta situação, não basta dizer não, é preciso propor. A esquerda brasileira – e também a mundial – encontra-se em estado catatônico desde a crise de 2008. Não tem feito muita coisa além de dizer não para a agenda política da direita. E é importante dizer que a direita tem todo direito do mundo de propor sua agenda política; isto é democrático e saudável.

Estou pedindo encarecidamente que a esquerda faça o mesmo, ao invés de apenas negar aquilo que a direita liberal ou conservadora tem a oferecer. Trocando em miúdos, não basta dizer que Trump está errado ao bombardear a Síria usando como desculpa responder às evidências de um ataque químico na cidade síria de Douma, denunciando que o ataque teria sido protagonizado pelo regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, que por sua vez nega tal participação. Dizer isto é dizer o óbvio. Mas e aí? Qual a solução que a esquerda tem para propor no debate? Como resolver um problema humanitário e responsabilizar seus culpados, sem causar mais dor e sofrimento a população local?

Eu particularmente condeno veementemente os ataques de Trump. Acho de uma imbecilidade gigantesca supor que mísseis resolveram aquilo que o diálogo falhou em resolver. E isto me parece ainda mais verdade neste conflito em especial, que reúne uma rede bastante complexa de interesses. Por outro lado, qual a outra solução? Asfixiamento econômico? Sanções internacionais? A suspensão das embaixadas do país em questão?

Não sei. A esquerda tem dito não com bastante enfase, e nada mais. As palavras de ordem são essas: não para isto, fora aquilo, não passarão aquilo outro. Mas o não tem virado sim, quem devia sair fora não sai e quem não devia passar está passando e desfilando.

E nós, o que estamos fazendo para melhorar de fato o mundo?

 

 

 

 

 

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  1. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    POIS É.

    Curtido por 1 pessoa

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