Eduardo Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940 – Montevidéu, 13 de abril de 2015), quando vivo, era um farol de lucidez e inteligência abaixo dos trópicos. Jornalista de formação, escritor por ofício e vocação, conseguia escrever com muita aspereza e leveza sobre temas que nos acoçam enquanto latino americanos. Porque não se engane você; ter a pele clara, bochecha rosada, olhos verdes, ser bem nutrido, cabelos castanhos, boa escolaridade… nada disto te torna europeu. Talvez isto lhe incomode, mas se buscarmos a fundo em seu passado e antepassados é muito provável que encontremos um bisavô guarani kaiowá, uma tataravó escrava, ou, ainda pior, um antepassado capataz ou senhor de engenho. Eu pessoalmente prefiro ter minha biografia de vida marcada pelo açoite do que manchada pela mão que o segura. De qualquer forma, mesmo que só existam europeus nórdicos em sua família, se o seu local de nascimento for um nome pronunciável, se você falar inglês com sotaque, bem vindo ao meu clube, o clube dos latinos brasileiros.

Em sua obra De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, Galeano reúne uma série de crônicas sobre diversos temas como, por exemplo, ética, educação, ecologia e medo. Ele cita que em “em abril de 1997, os telespectadores brasileiros foram convidados a votar: que fim merecia o jovem autor de um assalto violento? A maioria esmagadora dos votos foi pelo extermínio: pena de morte dobrou os votos da pena de prisão. Segundo a investigadora Vera Malaguti, o inimigo público número um está sendo esculpido tendo por modelo o rapaz bisneto de escravos, que vive nas favelas, não sabe ler, adora funk, consome drogas ou vive delas, é arrogante e agressivo e não mostra sinal de resignação” (GALEANO, 1999, p. 90). Já vimos aqui mesmo, no Cinesofia, porque disto a partir de uma entrevista de Deleuze: porque este sistema em que vivemos precisa criar e administrar medos íntimos.  É preciso que eu sinta medo do rapaz descrito acima, mas nunca do engravatado que age como um empresário do agronegócio em Taiwan onde “um terço do arroz não pode ser comido: está envenenado de mercúrio, arsênico e cádmio” (GALEANO, 1999, p. 232), e foda-se. É o preço do progresso. É preciso desenvolver venenos mais potentes para termos mais comida, mesmo sabendo que os lixos estão cheios de comida: um relatório de 2013 mostra que metade da comida produzida no mundo acaba no lixo. A comida produzida pelo planeta seria suficiente para erradicar a fome no planeta; isto não ocorre não porque há falta de comida, mas sim, porque comida é mercadoria: quem pode pagar por ela come, quem não pode não come. A fome não é mais um problema moral, é um problema econômico e político.

Nossos jornais estão cheios de eufemismos para lidar com situações que qualquer adolescente consegue nomear. Inventam nomes, discursos, argumentos, imagens e até músicas para convencer a população daquilo que é contra-intuitivo e, assim, se perca perigosamente de vista a solução adequada para problemas óbvios. Fome, doença, sede, educação, moradia. São problemas que nos acompanham a séculos. E que eu já estou perdendo as esperanças de que sejam resolvidos, porque a verdadeira resposta para estes problemas todos sabem, mas convenientemente a escondem.

Então verdade se perde, e quando os EUA soltam bombas sobre a Síria com a ajuda da França e do Reino Unido, a desculpa está na ponta da língua. Todos os jornais do planeta soltam a mesma notícia, com pouquíssimas diferenças: os EUA estão ajudando o povo sírio a não mais sofrer nas mãos do seu governador, Bashar al-Assad. Isto me faz lembrar Thoreau, em seu livro Walden, ao narrar o porque não se preocupou com jornais e revistas quando foi viver no meio da mata; porque os jornais dão sempre as mesmas notícias, mudando apenas os nomes e as localidades. Chidanand Rajghatta, jornalista, colunista e editor de assuntos internacionais do jornal Times, da Índia nos mostra que os Estados Unidos fizeram cerca de 70 guerras desde sua independência, 234 anos atrás. Pelo menos 10 delas eram grandes conflitos. Da uma média aproximada de uma guerra a cada três ou quatro anos. Trocando em miúdos, uma guerra a cada mandato presidencial. E em quantas dessas guerras, seja ela a guerra contra o México ou contra o Vietnam, ou a Guerra Hispano Americana e a Ocupação da Nicarágua, os EUA disseram estar equivocados? Aliás, estamos esperando até hoje muito mais que um pedido de desculpas pelo que os EUA fizeram ao invadir o Iraque buscando armas de destruição em massa que nunca existiram. Uma guerra que acabou formalmente em 2011 e que assassinou entre 97.461 e 106.348 mortes de civis iraquianos até julho de 2010 e que custou a bagatela de US$ 802 bilhões de dólares. Em um comparativo simples, a ONU lançou um relatório em 2015 demonstrando que são necessários 239 bilhões de euros por ano para acabar com a fome em todo o planeta até 2030.

É muito fácil compreender portanto de onde vem tanto ódio contra o governo norte americano ao redor do mundo.

E para voltar a Galeano, quando é que os EUA, ou qualquer outra nação, terão a honradez de dizer a verdade? Porque “as guerras dizem que ocorrem por nobres razões: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da civilização ou a vontade de Deus. Nenhuma tem a honestidade de confessar: ‘Eu mato para roubar'”. Quando é que Trump virá a imprensa, dizer que o real motivo para o bombardeio sobre a Síria e os sírios, está na fala de George Bush pai ao explicar porque os EUA se negaram a assinar a Convenção da Biodiversidade, na cúpula mundial do Rio de Janeiro, em 1992 quando declara que “é importante proteger nossos direitos, os direitos de nossos negócios” (GALEANO, 1999, p. 223)?

Quando é que Putin dirá que disponibiliza seus recursos para interceptar mísseis norte americanos, por também defender os interesses de seus negócios na região? Quando é que terão a sinceridade desavisada do ex Ministro da Fazenda, Rubens Ricupero que, em 1994, nos estúdios da Rede Globo, enquanto conversava bem a vontade com os jornalistas antes de ir ao ar, confessa só divulgar dados econômicos favoráveis ao governo, que ocultava números que não convinham e completa: “Eu não tenho escrúpulos” E completa, cheio de confiança aos mesmos jornalistas, conversando como que entre comadres: “depois das eleições vamos botar a polícia contra os grevistas” (GALEANO, 1999, 152). Mas nessa ocasião houve uma falha e a fala de Ricupero foi ao ar. Um ato de sinceridade costuma vir a tona sempre por engano. A mentira é a regra.

Estamos esperando que os EUA digam para nós que matam sírios para roubar aquilo que decidiram que lhes pertencia. Peço que não tenham medo, nada lhes acontecerá. Trump disse que pegava mulheres pela boceta, que podia fazer o que bem quisesse por ser rico, e ainda assim venceu as eleições. Ricupero após ser exposto para o país inteiro acabou se tornando secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento. Nada mais simbólico que alguém sem coração acabe secretário-geral de alguma pasta ligada ao comércio, que, todos sabemos, não possui coração igualmente. Números não dialogam, números cobram.

Nada há a temer portanto senhores Trump e Putin. Matem a vontade, destruam como quiserem com os maiores e melhores mísseis e gases tóxicos, mas sejam sinceros ao menos. Todos sabemos que nada acontecerá aos senhores.

A justiça, assim como a serpente, só morde os pés descalços.

 

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. …E FICA CALADO POR MUITO TEMPO, BEM MANSINHO.
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/04/13/e-fica-calado-por-muito-tempo-bem-mansinho/

    … Vai por aí afora…

    Por outro lado, roube muito, trafique grandes quantidades de drogas em helicópteros e aviões, construa aeroportos em suas terras, roube para valer do povo, à vontade. Esbanje, esculache, esculhambe, escrache, arregace. Cheire muita cocaína que terá toda a equipe de um hospital a proteger você e a escamotear seu problema. Claro, com trocas e favores…

    Dinheiro do povo, patrimônio da nação, é igual cu de bêbado, não tem dono. Pode meter a mão, tá liberado. … …

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