Ninguém acha estranho que a mesma sociedade que prega felicidade 24 horas por dia seja a mesma que vendeu 60,6 milhões de unidades de antidepressivos e ansiolíticos em 2017?

Acredito que não estamos repetindo isto o suficiente, então tatue no corpo a seguinte frase: “nossa sociedade é uma fábrica de tristeza“. Mostre-a a seu parceiro sexual da próxima vez em que você estiver indisposto para o sexo.  Mostre a seu patrão quando não bater a meta do mês. Mostre a seu professor quando devolver a prova em branco.

E pense consigo mesmo, o que nós estamos aceitando como critério de felicidade, afinal de contas. O que? Que nossa sociedade segue um modelo fabril, todos sabemos desde Adam Smith. Que nossa sociedade é obcecada com controle, todos sabemos desde Jeremy Bentham. Misturamos as duas coisas em uma só e nasce mais um condomínio privado conforme nos mostra a pesquisa conduzida por Felipe Barbosa Margarido, que nos mostra que a existência do sonho de consumo de viver em um condomínio fechado é fruto do controle social, onde você é capaz de determinar quem entra e quem sai do espaço que você frequenta, que são os espaços comuns do condomínio. Mistura-se os conceitos de público e privado de modo muito sutil e simbiótico, e quanto mais elementos do espaço público puder ser  trazido para dentro do espaço do condomínio, melhor. Churrasqueiras, quadras de futebol, baquete, tênis, as piscinas e academias de musculação, a ciclofaixa, os parquinhos e praças. Ultimamente algumas padarias estão levando foodtrucks para dentro destes condomínios para que os condôminos possam comprar os itens do armazém sem precisar tocar o pé na rua. O controle é absoluto através das muitas câmeras e também dos porteiros e portarias, e tudo funciona como um relógio dentro de uma fábrica.

Por trás deste exemplo, está uma sociedade fundada sobre uma coluna de medo do espaço social. Medo do garoto maltrapilho, do morador de rua que trânsita com papelão e seu cãozinho ao lado, do desempregado que fuma na praça durante a tarde. Medo não apenas do outro, mas de não conseguir ter sucesso nas relações com o outro. Como reagir durante um conflito? Se o pedinte me pede dinheiro, como faço para negar e não criar constrangimento com os outros a minha volta? Como demonstro que sou piedoso quando ignoro a criança faminta? Essas perguntas rondam a mente de muita gente, nos dando indícios que a obsessão pelo controle é também uma incapacidade de lidar com situações onde o risco de não ser bem sucedido existe.

O medo social em não ser bem sucedido beira inclusive o ridículo. Basta abrir seu Instagram e constatar aquele seu amigo ou amiga tirando a melhor foto, no melhor ângulo, com o melhor filtro, na melhor paisagem, no melhor destino turístico, comendo a melhor comida, bebendo a melhor cerveja, sempre na companhia de pessoas que se pretendem bonitas, sorrindo sabe-se Deus porque ou do que. De que sorriem tanto, eu me pergunto? Sem querer ser amargo, por favor, mas a vida não é tão engraçada e bonita assim. Passamos mais tempo de nossas vidas olhando para a merda que sai de nossa bunda no papel higiênico, do que tomando cerveja artesanal no bar descolado às sextas a tarde.

É preciso ser feliz o tempo todo, nos cobram, e diante da impossibilidade, precisamos projetar uma felicidade passageira, como se eterna fosse. Youtubers e digital influencers elevaram essa arte a máxima potência. Canso de ver histories desse povo que começa com “olha gente, que presente mara!”; ou “pessoal, olha como é o metrô em Nova York!”; ou então aqueles pretensamente irônicos da pessoa numa praia dizendo “que dia horrível…”.

Por trás disto há o filtro: postam aquilo que sabem, despertará interesse. Mostram o metrô de Nova York ou o ônibus de Londres, porque sabem que o sonho de consumo do brasileiro médio é visitar os EUA ou a Europa. É como o Quico dizendo “eu tenho, você não tem”. A pergunta é porque, em muitos casos, nos deixamos afetar por essas mensagens que não chegam até nós apenas através da internet, mas sim de todo canto.

Porque nos deixamos levar por critérios de felicidade tão vazios assim? Esta resposta é longa, complexa e não vou falar dela agora. Prefiro lhe dizer o que fazer para lidar com a frustração que é não ser feliz como nos pressionam.

Epicuro (em grego antigo: Ἐπίκουρος, Epikouros, “aliado, camarada”; 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas) e seus discípulos nos dizem que a ataraxia (em grego antigo: Ἀταραξία) é o melhor remédio. O termo se traduz como não perturbação do espírito, e, de modo bem sucinto, pode ser colocado com o que você faz com os fracassos que vem acumulando na vida. Porque não se engane, nós sabemos desde Schopenhauer, ou mais distante ainda, desde Gautama Sidarta (em sânscrito, सिद्धार्थ गौतम, transliteração  Siddhārtha Gautama; em páli, Siddhāttha Gotama) ou simplesmente Buda, para os íntimos, que nossa vida é um ciclo infinito entre desejo e sofrimento. Desejamos muitas coisas e conquistamos poucas delas. Sofremos quando, ou enquanto, não alcançamos o objeto desejado, e o número de vezes que conseguimos realizar nossos desejos são infinitamente maiores do que o oposto. Basta olha na sua conta bancária e se perguntar quanto você gostaria de ver lá, impresso no seu extrato, e lembrar que a curto prazo continuará assim, salvo raríssimas exceções.

Este conceito grego é importante para nossos dias, pois nos dá uma forma interessante de pensar sobre as coisas. É como dizer que sim, você tem um problema e ele está a sua frente, mas que a vida segue, não é mesmo? Que talvez você tenha que mudar um pouco seu rumo na vida para se adaptar ao fato de que reprovou no vestibular, perdeu o emprego, atrasou alguma conta, mas que essas coisas não podem, nem devem, determinar seu cociente de felicidade. Eu sei exatamente o que eu estou falando, e não se trata de se contentar com as migalhas que caem da mesa, mas sim de dizer que é possível ser feliz com as migalhas ou com o frango inteiro. Que a felicidade não depende de conquistar algo, que vencer na vida é um conceito horrível. É importante lembrar que o conceito de vencedor produz milhões de perdedores.

E se você conseguir ir ainda mais fundo, experimente aquilo que Sidarta ensina sobre vontade e ego. Primeiro convém lembrar, como já foi dito, que a origem do sofrimento é o desejo quando não realizado. Ora, diz Sidarta, então vamos acabar com o desejo. Mas isto não é tarefa fácil. De qualquer forma, o fundador do budismo nos dá oito caminhos para suprimir o desejo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta. Sem me alongar muito, o foco aqui é dizer que, primeiro, enxergamos o mundo de acordo com a visão que temos de nós mesmos. Raramente enxergamos as coisas como são, mas sim qual sua função em meu mundo. É sempre um mundo-para-mim, quase nunca um mundo-em-si. Para compreender melhor tente imaginar seus pais transando de modo bastante selvagem, quase como num filme pornográfico. Difícil? Pois é, porque sua mãe não costuma ser uma mulher com nome e sobrenome, frustrações, tristezas, passado e futuro, mas apenas, mãe. Ela é, para você, aquilo que ela faz para você. E sempre que ela descumpre as funções que você espera que ela cumpra, você se enerva.

Bom, a proposta é enxergar não apenas a sua mãe, mas a tudo e todos, como coisas independentes de você, e sem nenhuma obrigatoriedade para contigo. Segundo é compreender que sua ilusão acerca das coisas que lhe cercam vem da imagem que você tem de si: o filho que se acha importante demais a ponto de desejar e exigir que a mãe abra mão de seus desejos pelos dele; do homem que acredita ser tão importante a ponto de desejar e exigir que sua mulher tem o dever de lhe cozinhar; do patrão que se acha tão importante a ponto de desejar e exigir que seus funcionários lhe tratem por senhor. E, tão importante quanto, toda vez que estas coisas acontecem (a mãe abrindo mão de seus desejos, a mulher cozinhando para o marido, o funcionário chamando o patrão por senhor) a imagem da pessoa é reforçada.

Experimente abrir mão dessas coisas todas, e junto com elas do desejo. Experimente não desejar que lhe façam algo, e se surpreender quando lhe fizerem. Retire dos ombros dos outros e também do seu, a obsessão com tolices como a felicidade, e se permita ficar entediado, entristecido, frustrado, perdido. Vai doer no começo, mas depois você se acostuma, e aí, tudo aquilo que lhe vier na vida começará a lhe parecer mais bonito e interessante. Ao menos é o que nos explica Gerd Bornheim (Caxias do Sul, 19 de novembro de 1929 – Rio de Janeiro, 5 de setembro de 2002), em seu excelente Introdução ao Filosofar, quando, no capítulo 2, nos explica sobre Admiração Ingênua.

Mas isto fica para outro texto.

Participe da conversa! 3 comentários

  1. …tudo aparentemente correto. Da mesma forma que a verdade – tudo é verdade, depende de qual a verdade que você pretenda acreditar. “A infelicidade é o resultado do poder devastador das convicções de cada um , que alteram os esquemas de percepção da realidade. “

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  2. “[…] o número de vezes que conseguimos realizar nossos desejos são infinitamente maiores do que o oposto.”
    Acho que algo está invertido aqui 🤔

    Curtido por 1 pessoa

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