Há anos venho notando o rompimento do tecido social brasileiro, que foi brutalmente rompido com o golpe parlamentar dado contra a ex presidente Dilma e agora, completamente rompido com a prisão do também ex presidente Lula.

Tenho participado ativamente do debate público e venho observando em meus textos, debates, aulas, lives e vídeos que em ambos os lados políticos – direita e esquerda – há muita desinformação, preconceito, mitos e ódio. Pensando nisso começarei aqui uma sequência de textos apresentando algumas teorias políticas alinhadas a direita e a esquerda, não com a intenção de esgotar o debate, mas sim, de clarificá-lo e tentar torná-lo mais racional e menos passional. Minha ideia é, fundamentalmente, qualificar o debate sobre estes conceitos e termos.

De saída assumo meu posicionamento político: estou a esquerda. Não acredito entretanto, que meu posicionamento me impedirá de tentar ser honesto em minhas leituras com os autores alinhados a direita. Afirmo sem problemas que há muita coisa boa neste campo, e que é possível dialogar de modo muito interessante com a direita.

Ao texto então.

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Podemos começar esclarecendo que, do mesmo modo que a esquerda possui diferenças entre si, a direita também o possui. A começar pela diferenciação que a direita faz entre a direita liberal e conservadora, que, geralmente se posiciona no campo moral – dos costumes – e econômico.

No campo conservador, a direita tem como um de seus primeiros pensadores o filósofo irlandês, Edmund Burke (Dublin, 12 de janeiro de 1729 — Beaconsfield, 9 de julho de 1797), que viveu durante a época da Revolução Francesa, a qual se opôs e teceu críticas em sua obra Reflexões sobre a revolução na França, publicado em 1790 e lançado no Brasil em 2014. Pesquisadores do pensamento burkeano apontam para o tom panfletário, pouco científico e raso do autor, mas há, ali, interessantes intuições a serem pensadas com cuidado. Afinal, se a esquerda defende o Manifesto do Partido Comunista, de Marx, igualmente panfletário, pouco científico e igualmente raso, porque com Burke, não poderia ser feito o mesmo? Aliás, o próprio Marx referenciou Burke no capitulo XXIV da obra O Capital, de modo crítico, expressando desprezo. Em suas palavras, “Edmund Burke […]. Esse sicofanta, que a soldo da oligarquia inglesa bancou o romântico em face da Revolução Francesa, do mesmo modo que, a soldo das colônias norte-americanas, bancara no início dos motins americanos o liberal diante da oligarquia inglesa, era sob todos os aspectos um burguês ordinário: ‘As leis do comércio são as leis da Natureza e consequentemente as leis de Deus’. […] Não é de admirar que ele, fiel às leis de Deus e da Natureza, vendeu sempre a si mesmo no melhor mercado! […] Em face da infame falta de caráter, que predomina hoje, e da crença mais devota nas “leis do comércio”, é dever estigmatizar, sempre de novo, os Burkes, que se diferenciam de seus sucessores apenas por uma coisa: Talento!” (MARX, 1985, p. 292).

Mas antes de aceitar ou não, a crítica de Marx, é importante compreender o que dizia Burke, sendo fiel e honesto com seu legado filosófico. Seu ponto fundamental é a análise das capacidades humanas, para com isso evidenciar as diferenças que existem entre os cidadãos. Seu argumento pode ser enunciado afirmando que pessoas com capacidades diferentes, alcançarão coisas diferentes ao longo da vida, tendo como pré suposto o fato de que devemos ter acesso apenas àquilo que nossas capacidades individuais são merecedoras. Deste desnível encontrado nas capacidades individuais, decorre um desnível social e político, algo que podemos encontrar já em Platão, um defensor do modelo político aristocrático, que do grego se traduz como governo dos melhores, pois apenas estes teriam condições de saber coisas como justiça, e então tornarem a cidade justa. Quer dizer, não da pra tornar uma cidade justa sem antes saber o que é o justo, correto?

Burke infere que é melhor que reis e rainhas governem as cidades e países, pois eles são mais capacitados para a tarefa, mas no caso de Burke, há um adendo religioso: Deus se encarregaria de fazer nascer os melhores do ventre real, de modo que, uma vez nascido, os nobres tenham acesso ao que precisam para governar o melhor possível no momento em que forem responsáveis pelo trono.

O argumento de Burke deriva de sua análise realizada do modelo político britânico, que em sua visão, teria sido responsável pelos avanços sociais e econômicos europeus. Deste modo a Revolução Francesa, alvo de sua crítica, estaria destruindo as bases do progresso humano ao tentar distribuir direitos que tinham como finalidade igualar os não iguais. Como ele próprio expressa na obra já citada, “aqueles que tentam nivelar nunca igualam. Em todas as sociedades, consistindo em várias categorias de cidadãos, é preciso que alguma delas predomine. Os niveladores, portanto, somente alteram e pervertem a ordem natural das coisas, sobrecarregando o edifício social ao suspender o que a solidez da
estrutura requer seja posto no chão.” (BURKE, 2014, p. 70).

Sua análise evidencia uma espécie de caráter antinatural dos processos revolucionários capazes de perverter aquilo que sustenta o avanço social, pervertendo a própria natureza humana no e durante o processo. Há uma simbiose muito forte e evidente entre as capacidades humanas e os sistemas políticos construídos, de modo que o segundo precisa, necessariamente, derivar do primeiro. No campo lógico, o argumento de Burke é muito bom: ele não recai em nenhum tipo de falácia, ou seja, não tira conclusões que as premissas não permitam. É possível criticar as bases do seu argumento, questionando por exemplo sua análise das capacidades humanas. Porém, uma vez que se aceite suas premissas, o debate fica cada vez mais difícil, e portanto, mais rico e interessante.

Burke prossegue argumentando que ao subverter o ordenamento humano e político natural presente na sociedade de sua época, o resultado se viu em “leis viradas de cabeça para baixo; tribunais subvertidos; indústria sem vigor; comércio agonizante; impostos sonegados e, ainda assim, o povo empobrecido; uma Igreja saqueada sem o que o Estado obtivesse alívio com isso; anarquia civil e militar transformada em constituição do reino; tudo que era humano e divino sacrificado.” (Burke, 2014, p. 60-61). A Revolução Francesa, e qualquer outro movimento revolucionário pecaria, portanto, em não compreender a fundo a natureza humana – desigual em suas capacidades – e com isso, acabar com todo o ordenamento social.

Sua postura conservadora, entretanto, não é apenas no sentido de garantir as estruturas sociais norteadoras do progresso humano, mas também a garantia de que o ordenamento humano se dê com legitimidade. Trata de, em um primeiro momento, analisar o indivíduo ontologicamente – isto quer dizer: analisá-lo apenas como ser humano e nada mais – para, após esta análise, pensar no melhor sistema político para que este tipo de indivíduo seja o mais feliz possível. Não há em Burke, nenhum problema com o fato de que a nobreza real tenha acesso a mais direitos, não apenas porque eles seriam merecedores destes direitos, mas também por que é a partir destes direitos que a nobreza é capaz de governar de modo satisfatório para todos os cidadãos. Talvez existam nobres que não o fazem, que não governam com sabedoria de modo a melhorar a vida do povo, mas isto não é um problema da monarquia em si, mas do nobre que não utilizou as ferramentas de que dispõe para fazê-lo.

É tolice pensar que Burke, um filósofo capaz de resistir aos séculos, pensaria em um modelo político essencialmente tolo. Embora o autor teça críticas aos valores iluministas – que foram os norteadores da Revolução Francesa – na obra já citada, Reflexões, seu objetivo, por traz de sua investigação sobre a natureza humana e política, era a preservação das instituições, em especial as britânicas, capazes de lidar com os primeiros estágios do capitalismo, com a subordinação do trabalho ao capital, com a organização do trabalho em regimes cooperativos, e, principalmente, com as formas de luta proletária que se insurgiam no campo e nas cidades. Isto demonstra que em maior ou menor grau, Burke está atendo ao seu mundo e pensa junto com ele. Tenta responder aos anseios e mudanças que estão aparecendo em uma sociedade que precisa responder as complexidades e desigualdades, garantindo que haja prosperidade e felicidade disponível a todo cidadão.

Ao fim, Burke revela-se como o primeiro de uma série de autores cuja característica é a investigação de modelos políticos capazes de assegurar a manutenção de estruturas sociais que seriam necessárias para o ordenamento social e político, tendo em vista as capacidades humanas disponíveis. Uma outra forma de apresentar seu pensamento é através da pergunta sobre quais norteadores que trouxeram a humanidade de suas comunidades ancestrais até o presente estágio de desenvolvimento são essenciais e não podem ser abandonadas.

Colocado desta forma somos obrigados e perceber que nem toda Revolução é gloriosa por completo, haja vista o stalinismo que se seguiu a Revolução Russa ou o terror jacobino que se seguiu a Revolução Francesa, bem como o fato de que alguns itens de consumo – e porque não dizer, de felicidade nestes tempos selvagens – presentes em nossa sociedade são provenientes de estruturas reprováveis, que se forem abandonadas ou destruídas, pediriam uma complexa mudança em nossa organização social. O exemplo mais claro e interessante pode ser colocado nos seguintes termos: hoje nossa sociedade de consumo tem qualquer um de seus itens postos a venda passando em alguma escala pelo trabalho escravo, de acordo com Leonardo Sakamoto em uma fala para o TEDx.

É importantíssimo perceber que a destruição deste modelo de produção acarretará em uma elevação de preço nos itens que consumimos. Desde a Coca Cola que colocamos a mesa durante o aniversário de cinco anos do seu filho, até o iPhone 8 que você está planejando comprar quando pegar o dinheiro de suas férias.

Uma vez que essa cadeia produtiva mude, estes itens terão seus preços atualizados, porque certamente o capital gasto no pagamento justo destes trabalhadores será repassado para o consumidor final. A pergunta é: você está disposto a não ter mais Coca na mesa e um iPhone no bolso para que a escravidão desapareça? E antes que me diga que é possível mudar toda a estrutura social, eu peço que você reflita sobre o que está dizendo e perceba que não é tão simples assim. É muito mais simples acabar com a escravidão na cadeia produtiva do que com toda a estrutura econômica que temos.

Porque para ser justo com o irlandês, sempre há algo a ser conservado em qualquer sociedade. Creio que a pergunta seria sobre o que precisa ser conservado e o que precisa ser modificado. Afinal é muito mais fácil acusar Burke de querer conservar estruturas sociais desiguais. Mas e você? Quantos de nós não brigamos para manter estruturas sociais desiguais, apenas porque elas nos beneficiam em alguma instância?

A resposta eu não sei. Este problema é seu, pense nele se quiser. Mas se não quiser, esteja pronto para estender a mão a alguém da direita e perceber que vocês tem mais em comum do que pensam a princípio.

Participe da conversa! 1 comentário

  1. Oi Rafael, a decisão de não ter mais Coca Cola na mesa de aniversário do filho pequeno, ou o novo iphone tem que ver mais com uma consciência que se quer expandir, tanto em termos ecológicos, como por uma posição frente ao consumo, ou seja, – preciso mesmo do iphone? No fundo a confrontação da coca com um suco natural é a mesma que a confrontação do consumo com valores ecológicos: se a saúde ganhar em prioridade, é saúde tanto para os viventes do planeta, como para o próprio planeta. É claro que eu sei que “não é tão simples assim”, mas as mudanças sociais também passam fora do esquema político, quando as pessoas não estão mais conformes com imposições, e mesmo assim não deixam de ser políticas. Acho que pequenas mudanças podem ser extremamente eficientes quando somadas, pois o processo não tem fim, a história continua. Não conhecia o Edmund Burke, obrigada por ter me apresentado, apesar de não pensar como ele.

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