Meu principal problema com o pensamento alinhado a direita – em especial a direita liberal – é a tendência a classificar como problema econômico, algo que no fundo é um problema ético. Como é o caso da desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Mas antes, convém uma simples diferenciação entre ética e moral, pois percebo que ambos se confundem no debate público com bastante frequência. O primeiro, geralmente, é um valor social que identifica, qualifica e guia princípios universais e crenças e ações humanas; o segundo é a diferenciação de intenções, decisões e ações entre aquelas que são distinguidas como próprias e as que são impróprias. Em linhas gerais podemos dizer que ética nos aponta como devemos agir e a segunda quais desejos são bons e quais são maus.

Há muitas nuances entre os conceitos: Aristóteles e Wittgenstein, por exemplo, não concordariam em absoluto sobre o conceito de ética. O mesmo vale para Kant e Nietzsche no debate sobre moralidade. Mas prossigamos, voltando a falar de Thomas Piketty, economista francês, ex professor adjunto do MIT.

Sua obra, O Capital no século 21 é muito interessante por alguns motivos, entre eles por conseguir reunir dados econômicos de diversos países (40 países) durante um período de 200 anos e não ter seu método desvalidado pelos grandes institutos de economia ou ciência política do mundo. O principal argumento do livro é que a desigualdade de renda presente no século 21 consegue ser maior do que durante a idade média, e para sustentar este argumento, há dados.

O que os muitos gráficos de sua obra nos mostram é que a taxa de crescimento dos países é fundamentada pela ideia do crescimento infinito, ou seja, o ano de 2018 tem que criar mais riqueza do que o ano anterior, e assim por diante. Este modelo de pensamento econômico projeta um modelo político pautado pelo desenvolvimento de tecnologias capazes de proporcionar aumento de riqueza constante. E por tecnologia não pensem em computadores, mas sim, em tecnologias capazes de controlar desde produção de sapatos até comportamentos. Sim, tecnologia para criar comportamentos.

Basta dizer que nos primeiros anos da Revolução Industrial existia a figura do “batedor“, uma pessoa responsável por andar pelas ruas batendo nas janelas das casas para acordar os trabalhadores para a jornada do dia. Não havia naqueles dias o comportamento de acordar nos horários estipulados pelos donos das fábricas. Um equipamento foi desenvolvido para que este comportamento fosse ensinado aos trabalhadores – o relógio despertador – e deu certo. Meu ponto é o mesmo de Foucault: o corpo humano se tornou mais um item a ser modificado e administrado pelo sistema econômico para alcançar objetivos específicos. Podemos perceber isto já na educação básica, quando entre os componentes curriculares está o desenvolvimento de habilidades e comportamentos dos alunos.

Neste caso convém perguntar, obviamente, porque alguns comportamentos são estimulados e outros não? Porque é estimulado que o aluno suporte quatro, cinco horas sentado em uma cadeira desconfortável, que aprenda a comer e socializar rapidamente durante apenas quinze minutos, que suporte ter sua imaginação castrada em tão poucos períodos dedicados a arte? Ou uma pergunta melhor ainda: quem se beneficia com estes comportamentos estimulados? A primeira resposta é o próprio aluno, mas eu sou filósofo, e preciso te pedir que pense, pelo menos um pouquinho, no fato de que há uma ou mais pessoas que estipulam quais comportamentos são aceitáveis e quais não são, com base naquilo que se pretende desenvolver através dos comportamentos. Pensado desta forma, o comportamento humano é uma ferramenta necessária para desenvolver produtos, negociações, renda e riqueza. Seja amável com seu cliente, seja obediente com seu chefe, seja delicado e atento com o produto que está fabricando. Ao fim o trabalhador ficará com uns dois ou três salários mínimos de recompensa.

E o dono do estabelecimento?

Para ficar em um exemplo, uma filia das Lojas Taqi, uma rede de lojas comerciais semelhante as Casas Bahia, do município de Campo Bom vende aproximadamente R$ 1,5 milhão por mês, todo mês que Deus dá. E Campo Bom é um município com aproximadamente 60 mil habitantes. Sacou aonde vai parar o resultado do seu comportamento e educação?

E este é o ponto de Piketty, que completa, alertando que o desenvolvimento de uma democracia saudável passa, necessariamente, por uma redistribuição da riqueza. De acordo com uma entrevista cedida para o jornal Folha de São Paulo, Piketty nos diz que “a história dos EUA e da Europa mostra que só depois de grandes choques políticos como as duas grandes guerras do século 20 a desigualdade diminuiu e a economia cresceu com vigor, permitindo que fatias maiores da população colhessem os benefícios.” Sem estas forças políticas, todo o mais acaba caindo por terra, e é por isso que a desigualdade de renda é tão brutal em países com um sistema político frágil, como é o caso do Brasil.

Os dados de Piketty sobre o Brasil nos mostram que nossas elites políticas de diferentes partidos foram incapazes de criar legislação competente o suficiente para executar políticas capazes de distribuir a renda do crescimento produzido pelo país, que não é pouca diga-se de passagem: o PIB de 2017 foi de R$ 1,595 trilhão. Ainda de acordo com os dados de Piketty, no Brasil, 1% da população fica com 28% de toda renda produzida pelo restante dos brasileiros.

E isto se dá por motivos diversos, que passam tanto pelo nosso desenvolvimento tecnológico quanto pela nossa cultura e história. Lembremo-nos que o Brasil é o último país a abolir a escravidão no século 19 e que as políticas governamentais que se seguiram não corrigiram esta mancha em nossa história, ao contrário, indenizaram os donos dos escravos. Somado a isso, Piketty nos lembra que nosso sistema tributário é pouco progressivo, com poucas isenções de renda sobre capital e impostos sobre heranças tem alíquota baixíssimas. Enquanto os EUA tem um imposto sobre herança na casa dos 40%, no Japão é de 55%, no Brasil é 4%.  A alíquota mais alta do Imposto de Renda em países como EUA, Alemanha, França e Japão está entre 35 e 50%, enquanto no Brasil, a alíquota máxima do Imposto de Renda é de 27,5%.

A desculpa padrão para o Brasil não aumentar os impostos sobre as camadas mais altas da população costuma ser a fuga do capital: as pessoas ricas iriam embora do Brasil e levariam junto suas fortunas. Mas elas iriam exatamente para onde? Para os EUA, Alemanha, França, Japão? Que as elites não queiram pagar mais impostos, me parece óbvio. Que o restante da população aceite calada, não tão óbvio assim.

De qualquer forma, trocando em miúdos, foi preciso força política – entre elas, mas não somente, duas gerras – para que os benefícios do crescimento econômico chegasse a um numero maior de pessoas no decorrer da história. Entre as pessoas contempladas por estas políticas, as mulheres notavelmente conseguiram romper com velhas tradições do passado e exercer um protagonismo jamais visto nos outros 19 séculos anteriores.

Foi apenas quando as demandas organizadas pelas mulheres conseguiram chegar até a esfera política, e se transformaram em legislação, é que elas conseguiram exercer direitos historicamente negados como o voto ou o trabalho. Sendo mais específico, percebemos que o direito a herança, a requerer a guarda dos filhos em caso de separação, ou ainda o direito de trabalhar sem precisar da autorização do marido, foi alcançado graças ao Estatuto da Mulher, criado no dia 27 de agosto de 1962.

E aqui eu chego no ponto que eu desejava, após demonstrar que nossa sociedade cria comportamentos e conhecimentos voltados para o acúmulo de capital, e evidenciar que este acumulo acaba se concentrando nas mãos de poucas pessoas devido a negligência de governos e governantes, é que eu não aceito que João Amoedo, candidato a presidência pelo Partido Novo e ex vice-presidente do Unibanco em 2004 e fez ex membro do conselho de Administração do Itaú-BBA, diga em entrevista ao site do El País, que não é competência do Estado interferir em um cenário político e econômico onde a diferença salarial chega a 53% entre homens e mulheres para exercer o mesmo cargo segundo reportagem do G1.

A reportagem nos mostra através do levantamento de dados obtidos pela Catho, que a diferença ocorre em todos os níveis hierárquicos, mas se acentua em cargos mais altos. Apenas 25,85% dos cargos de presidência são ocupados pelas mulheres. Entretanto estes dados não podem ser analisados apenas como números, mas sim, contextualizados através de nossa tradição histórica, nossa cultura, nossos valores éticos e morais, nossos comportamentos, competências e conhecimentos desenvolvidos através de nossa história como povo e país.

Creio que em 2018 não exista mais uma viv’alma que negue nossa cultura machista. Se há, minha conversa não é com você: eu escrevo textos, não opero milagres. Se for o seu caso eu recomendo que volte para o ensino fundamental, e reaprenda um pouquinho mais sobre nossa história, daí podemos conversar melhor.

Mas se você conseguiu me acompanhar até aqui, deve ter percebido que meu argumento é que é necessário intervenção política, especialmente via Estado, para que as desigualdades diminuam, como nos mostra o exemplo de países como EUA e Japão.

Porque foi exatamente a negligência política que atenuou nossas desigualdades, mas é através dela que casos como estes serão resolvidos. Deixar que o mercado regule estas situações como quer João Amoedo é a receita que nos trouxe até aqui. E que você não duvide nem por um minuto meu caro, minha cara: seu patrão só lhe paga um salário porque é obrigado a isto, e mesmo assim, lhe paga o mínimo possível, sempre. Se pudesse escravizá-lo, sem prejuízo financeiro, o faria sem pensar duas vezes.

Não o faz por duas razões bem simples: há leis que os proíbem – e talvez por isso muitos buscasm mão de obra em países onde podem contratar trabalhadores em regime análogo a escravidão – e eles, os patrões, precisam de consumidores.

Não fosse isso, estaríamos todos agrilhoados, mas com alguns dentre nós, defendendo o direito do patrão de nos chicotear.

 

 

 

 

 

 

 

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