Ayn Rand  São Petersburgo, 2 de fevereiro de 1905 — Nova Iorque, 6 de março de 1982), filosofa russa nascida como Alisa Zinov’yevna Rozenbaum, (em russo: Алиса Зиновьевна Розенбаум) foi também romancista e roteirista, possui um projeto filosófico semelhante em alguns princípios com o projeto kantiano, embora com um grau de complexidade bastante inferior, e com objetivos muito distintos. 

A aproximação entre ambos pode ser encontrada, de alguma forma, na primazia da razão e em seu uso no espaço público. No breve ensaio, O que é o Esclarecimento, Kant se pergunta como pode o ser humano sair de sua minoridade, ou seja, como pode o ser humano deixar de ser tutelado para cuidar de si próprio, sem que com isso, suas ações acabem por prejudicar a ordem social e a norma política. A resposta de Kant é breve e sucinta: abandonar a preguiça e a covardia e fazer uso público da razão, pontuando que é muito cômodo ser menor no sentido de ser tutelado. 

No que diz respeito ao uso público da razão, Kant evidencia que para que ela seja utilizada, é necessário que este espaço público tenha uma estrutura onde seja possível o exercício da liberdade. Guardada as devidas proporções e precauções, é um projeto filosófico que se assemelha ao de Rand: primazia da razão, auto tutelamento e um espaço público onde a liberdade possa ser exercida.

Seu projeto filosófico entretanto, é alvo de um debate tolo por conta da polaridade vivida em nosso debate político, de modo que se Ayn Rand não tem um projeto filosófico robusto como o de seus contemporâneos como por exemplo Adorno, Habermas, Sartre ou Arendt, não é verdade também que o mesmo é simplesmente desprezível. É no mínimo interessante pensá-lo em termos puramente filosóficos ou em modos e maneiras de aplicabilidade social.

A semelhança de Sartre, Rand produz filosofia através de romances e publica Atlas Shrugged, (em tradução literal, Atlas de ombros encolhidos), no Brasil traduzido primeiro como Quem É John Galt?, inicialmente lançado em 1987 e, posteriormente, relançado em 2010 como A Revolta de Atlas, para trabalhar temas que, posteriormente, seriam a base teórica da corrente filosófica descrita como objetivismo. Nas palavras da autora, em A revolta de Atlas, está sendo trabalhado o papel do homem na existência, passando pela defesa da razão, do individualismo, do capitalismo e apontado o que ela compreende como falhas da coerção governamental sobre o indivíduo.

Esta sua defesa do individualismo se dá por compreender que o ser humano possui em si as potencialidades necessárias para cuidar de si. Este argumento deriva do fato de que, de acordo com Rand, o ser humano deve produzir seus valores a partir de critérios racionais, o que significa dizer que tais valores deve estar em acordo com formas de convivência pacífica entre as pessoas no espaço público.

Ao responder quais seriam estes valores, em especial os éticos, o objetivismo de Rand nos mostra que um de seus princípios fundamentais é o fato do ser humano ser um fim em si mesmo, e não um meio para o fim de outros humanos: o ser humano deve existir em função de seus próprios propósitos, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele. Para que este axioma – regra sem fundamentos anteriores – não acabe por produzir impeditivos sociais (ou seja, que eu não destrua você para alcançar meus objetivos), através do exercício da principal virtude, a razão, é possível derivar outros seis (produtividade, justiça, orgulho, independência, integridade, honestidade) que, somados e vistos em conjunto, seriam capazes de garantir a estabilidade social necessária e suficiente para abrir vias de acesso entre o sujeito e seus próprios objetivos.

Uma vez que estes processos sejam observados todo sistema político acaba descolado do centro da vida pública, para um conjunto administrativo capaz de garantir que todo indivíduo tenha condições suficientes para que seus objetivos auto impostos possam ser alcançados. A política se torna responsável por construir vias de acesso para a realização de objetivos individuais, garantido que cada pessoa possa sobreviver através de sua habilidade de exercitar e utilizar a razão, banindo a iniciação da violência e proteger os direitos do indivíduo a vida, liberdade, propriedade e sua busca pela felicidade.

As instituições políticas ficam portanto reduzidas a instituições policiais (polícia doméstica e para conflitos internacionais) e jurídicas (para criação e execução de leis), existindo em separado da economia, religião, educação e ciência e sendo financiado por doações espontâneas de seus cidadãos. Destes pressupostos advém a defesa que a autora faz do capitalismo, que seria em sua visão, o sistema político-econômico capaz de garantir que, através de um livre comércio de serviços e mercadorias, o indivíduo possa, através do exercício de sua racionalidade, alcançar seus objetivos e sua felicidade. Em outros termos, é o exercício da razão através da liberdade, a via de acesso para a felicidade, e qualquer impeditivo a isto se torna um impeditivo a própria felicidade em si. Em termos teóricos, o capitalismo seria, para a autora, capaz de garantir este pré requisito.

Particularmente acredito que a obra de Rand é pobre teoricamente, para descrever as dificuldades políticas presente nos governos e instituições do mundo contemporâneo. Há teóricos como Habermas, Rawls e Amartya Sen, que nos apontam para a complexidade de se pensar processos relacionados a direito transnacional, comércio internacionais, a contaminação de culturas excludentes nas instituições e em seus operadores, um sistema administrativo que institucionalize o uso ético normativo dos recursos naturais que cruzam fronteiras como o vento e as águas de um rio, os processos de formação de identidade negativa e as motivações para os processos de luta social. Ademais sua análise teórica parece excluir dados empíricos disponíveis sobre o impacto, positivo ou negativo, da intervenção estatal em campos como por exemplo, o científico, o que diminui o impacto de sua produção teórica.

Entretanto, excluindo estas prerrogativas, que são muitas, penso que sua análise da razão e do fundamento das liberdades individuais são problemas postos no debate público ainda hoje. Seja pela qualidade intelectual de Rand, seja pelo debate público que está posto no Brasil atualmente, acredito que ao menos conhecer em linhas gerais sua produção filosófica, seja interessante para perceber pontos de atrito e também pontos de contato no campo político entre nós que estamos no debate público.

Concordar ou não com ela não depende de mim, tampouco dela. Depende de você, e é bom que seja assim.

 

 

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