A filosofia tem uma fama de ciência briguenta por jamais se satisfazer, nunca se contentar e questionar tudo o tempo todo, sem respeitar nenhum valor moral, nenhum dogma ético, nenhum tipo de espiritualidade ou conveniência. O passado que abrigue o que se foi e deixe a nós, sujeitos filhos do presente, a tarefa de criar o novo. Entendo que existam aqueles que a semelhança de Edmund Burke querem conservar algo, mas sobre estes não me importo. Os conservadores que lutem contra o avanço do tempo, e percam no longo prazo.

No passado houve quem tentou conservar a escravidão, as Cruzadas, a caça as bruxas, assim como hoje ainda existe quem defenda ou relativize a discriminação contra as mulheres, contra a população LGBTQ, os árabes e muçulmanos. A estes um recado bem simples: vocês irão desaparecer, mais dia menos dia, de modo que se tal modo de pensar causa dor e sofrimento para um contingente enorme de pessoas nos dias de hoje, eu não me preocupo tanto com eles.

Minha preocupação reside exatamente sobre este futuro que estamos criando, pois começa a existir indícios claros de que não parece haver espaço neste futuro para todos nós. Aliás, o futuro parece cada dia menos um lugar habitável para nós.

Digo isto baseado em dois documentos, um privado que acabou vazando e outro público.

O documento público ao qual me refiro é o Relatório do Desenvolvimento Mundial para 2019, publicado pelo Banco Mundial, uma instituição financeira internacional que efetua empréstimos a países em desenvolvimento. Neste relatório o Banco Mundial nos lembra que realizar a troca de um trabalhador humano para uma máquina é um mecanismo eficiente para reduzir os custos de produção nas fábricas ao redor do mundo, por motivos óbvios: máquinas não comem, não recebem salário, não tem direitos trabalhistas, não entram em férias, não se machucam, não fazem greve, e etc.

Ok, até ai. Porém o Banco Mundial compreende que este cenário, embora não seja considerado pelo banco como alarmista, é complicado pois põe em risco a fonte de renda e o padrão de consumo do trabalhador. Sua sugestão para combater o problema é diminuir ou erradicar os salários mínimos e flexibilizar as leis laborais, facilitando os despedimentos. O argumento frisado pelo documento é de que os salários mínimos aumentam os encargos sobre as contratações.

A parte cruel vem a seguir. Antevendo que o salário mínimo tem como prerrogativa garantir um mínimo de dignidade humana a pessoa, e que diminuir ou erradicar os salários mínimos possam colocar a dignidade do trabalhador em risco, o Banco sugere que os governos possam suprir este problema através de programas voltados a pessoas carentes.

Se você compreendeu da mesma forma que eu, podemos resumir da seguinte forma: as máquinas aumentam a produtividade da fábrica, gera lucros maiores para os donos da fábrica, o que aumentaria o capital da empresa. Mas ao invés desse aumento de produtividade ser revertido em melhores salários para os trabalhadores, eles acabariam indo para o olho da rua, pois o Bando Mundial, ao contrário do MBL, sabe como pensa um patrão de verdade. Então para este trabalhador ser realocado no mercado de trabalho, o mesmo Banco aconselha a diminuir o salário deste trabalhador, mesmo sabendo que ao fazê-lo, sua dignidade como ser humano estará ameaçada. Por fim joga a conta da fatura no colo dos Governos, não no dos donos das empresas.

Eu não sei como, de que maneira, isto pode ser humanamente viável. O cenário que se desenha é um onde o trabalhador, que hoje já sofre horrores, sofra ainda mais, e perca o pouco de dignidade que conseguiu. Ao menos é o que diz o relatório do Banco Mundial.

Talvez este futuro não se construa, mas que fique claro, não será por falta de tentativa nem de planejamento, afinal o Banco Mundial oferece crédito a países necessitados (e é bom lembrar que os países necessitados, que ainda hoje atravessam sua fase de desenvolvimento, o são, em sua maioria por sofrerem os horrores que sofreram nas mãos dos países desenvolvidos da Europa, quando não dos EUA), mas tal crédito só é liberado se o país em questão aceitar seguir os apontamentos ditados pelo Banco. O dinheiro de que o país necessita para sair de sua subsistência é oferecido cobrando a dignidade do trabalhador.

Eu não sei como entender estas coisas de um modo que não seja desumano. Mas calma lá, que o futuro piora. Sempre piora.

Um relatório elaborado pela multinacional Goldman Sachs, um grupo financeiro multinacional, vazado na última semana, aponta que investir em tratamento médico que vise curar rápido o paciente não é viável financeiramente. No relatório vazado, o analista Salveen Richter cita o exemplo do tratamento de hepatite C que foi desenvolvido pelo laboratório Gilead Sciences, que gerou um lucro de U$ 12,5 bilhões em 2015, apenas nos EUA, desenvolvendo medicamentos para a doença. Porém um novo recurso no tratamento da hepatite C diminuiu o tempo de tratamento para apenas doze semanas, o que, a longo prazo, prevê uma queda de aproximadamente U$ 4 bilhões de investimentos para 2018, o que traria problemas para o setor.

E não nos esqueçamos jamais da NextSource Biotechnology, um laboratório desconhecido com sede em Miami, que comprou em 2013 a licença do fármaco lomustina da Bristol-Myers Squibb, utilizado para tratamento de glioblastoma, um agressivo tumor cerebral,  que vendia o comprimido de 100 miligramas por cerca de 50 dólares. Após comprar a licença do medicamento, a NextSource aumentou para 768 dólares o preço do mesmo comprimido, comercializando-o nos Estados Unidos com o nome Gleostine. Um aumento de apenas 1400%, em um medicamento para tratar um tumor no cérebro. E há quem queira privatizar o SUS… vai entender.

Lembram a indignação do Criolo, naquele famoso vídeo sobre a ascensão da classe C, onde ele bate na perna, emputecido, dizendo que sempre fomos mal tratados, e que se fosse diferente saúde não seria comércio? Bom, é. Saúde é comércio, rende horrores anualmente, e quem desenvolve os medicamentos para nossas doenças está pouco se fodendo para nossa saúde.

Ai eu pergunto: como ficará o trabalhador, substituído por alguma máquina, com seu salário reduzido a menos que nada, tendo sua dignidade retirada, sobrevivendo com ajuda governamental, mesmo estando empregado, quando ele tiver hepatite C? Ou câncer? O que ele faz? Senta na calçada e chora até a morte chegar? Alguém nos ajude, Lázaro, a entender. Porque eu não estou conseguindo compreender que tipo de futuro querem para nós. Ou melhor, eu compreendo, mas não consigo aceitar.
Não que no presente momento já não esteja difícil. É fim de mês e todos estão como eu, contando moeda e torcendo para não acabar o gás de cozinha. Minha pergunta é mais sobre que tipo de pessoas são essas, e se já não passou da hora de pensarmos seriamente em mudar esse jogo.
E antes que me digam que não é possível, me adianto e retruco: mentira, é possível sim. Não importa se hoje não conseguimos perceber nada melhor no horizonte, mas um aldeão do século 12 diria o mesmo sobre o feudalismo em sua época. Hoje somos nós os aldeões do século 21, vivendo em outro tipo de sistema feudal. É possível sim e, ou nós, os pobres, passamos ajudar uns aos outros, independente da nossa orientação política, ou quando perdermos o pouco de dignidade que temos, ou ficarmos doentes em um futuro próximo aceitemos a desgraça e a morte com o restinho de dignidade que ainda não terão retirado de nós.

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