Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt remonta o passado da Europa com a intenção de mapear o nascimento do sentimento antijudaico, para concluir que a semente da Segunda Grande Guerra havia sido germinada muitos anos antes.

Na primeira parte da extensa obra, Arendt relata, no subcapítulo 2, Os primórdios do antissemitismo, exatamente quando é possível observar historicamente este momento, onde a serpente botou seu ovo pra chocar. Diz ela que “o antissemitismo flamejou primeiro na Prússia, imediatamente após a derrota de Napoleão em 1807, quando a mudança da estrutura política levou a nobreza à perda de seus privilégios e a classe média conquistou o direito a ascensão. Essa reforma, uma “revolução de cima”, transformou a estrutura semifeudal do despotismo esclarecido prussiano num Estado-nação mais ou menos moderno, cujo estágio final foi o Reich alemão de 1871.” (ARENDT, 2015, p. 59).

Este aspecto das consequências políticas e sociais que nasceram da Revolução Francesa é agravado com a figura do banqueiro judeu, que cedia crédito aos que precisavam nesta nova sociedade que estava nascendo, durante uma época de profundas revoluções estruturais da sociedade, agora não apenas europeia. Não demorou muito tempo para que o banqueiro judeu fiador, passasse a ter alguns privilégios, e entre “os representantes da Era do Esclarecimento, que prepararam a Revolução Francesa, era normal o desprezo aos judeus: olhavam-nos como sobreviventes da Idade Média e como agentes financeiros da aristocracia.” (ARENDT, 2015, p. 83).

O judeu, já representado na figura caricata do mesquinho, acaba fundindo sua imagem social com um resquício do velho mundo. Ele começa a ser visto e classificado como um agente social que não está a serviço das estruturas revolucionárias, ao passo que cede capital para a antiga aristocracia, sempre que era solicitado. Entretanto este sentimento bastante específico logo deu lugar a outro mais amplo. Os vinte anos do governo de Napoleão III foram anos de paz e prosperidade para a comunidade judaica francesa em especial, de modo semelhante a como as duas décadas que antecederam a Primeira Guerra foram anos bons para a comunidade judaica alemã e austríaca.

O antissemitismo migra, portanto, de uma especificidade nascida do processo revolucionário, para um sentimento que tem seu ponto de nascimento na xenofobia geral que advém das “atitudes desdenhosas dos intelectuais anticlericais” (ARENDT, 2015, p. 85). Este sentimento se desenvolve e se torna, nos anos após a Primeira Guerra, em um sentimento generalizado contra os judeus estrangeiros, agora um estereótipo de todo judeu perverso. É a primeira vez que é feita uma diferenciação entre o judeu nativo e o judeu estrangeiro, aquele que invadiu o país; entre o bom judeu e o mau judeu.

Arendt ainda assinala que “os judeus não tinham qualquer tradição ou experiência política e não percebiam a tensão nascente entre a sociedade e o Estado, nem os riscos evidentes e a potencialidade decisória que assumiam, decorrentes do seu novo papel.” (ARENDT, 2015, p. 51), evidenciando o quanto os judeus estavam imersos como protagonistas de um processo histórico, ao mesmo tempo em que eram alheios a dimensão e profundidade deste processo. Somatizado a estes procedimentos históricos e políticos, nasce uma nova classe social, a dos mercadores, que desempenha um protagonismo de outra espécie, que não a mesma do judeu, produzindo e sendo produto de uma transformação em um espaço peculiar, o mercado público. 

Foucault nos mostra, em Nascimento da Biopolítica, “que o mercado, no sentido bastante geral da palavra, tal como funcionou na Idade Media, no século XVI, no século XVII, como poderíamos dizer, numa palavra, que era essencialmente um lugar de justiça. Um lugar de justiça em que sentido? Em vários sentidos. Primeiro, claro, era um lugar dotado de uma regulamentação extremamente prolífica e estrita: regulamentação quanta aos objetos a levar aos mercados, quanta ao tipo de fabricação desses objetos, quanto a origem desses produtos, quanto aos direitos a serem pagos, quanto aos próprios procedimentos de venda, quanto aos preços estabelecidos, claro. Logo, lugar dotado de regulamentação – isso era a mercado.” (FOUCAULT, 2008, P. 40)

Porém, graças ao novo modelo político nascente, uma espécie de proto capitalismo, a economia doméstica – do interior do Estado – passa a ser um regulador externo dos governos e governantes. Um bom governante é aquele que segue as leis internas de seu país – a norma jurídica – e também aquele que consegue através de atos políticos de natureza administrativa, impulsionar o crescimento do mesmo, é “o mercado e que vai fazer que o bom governo já não seja somente um governo justo. O mercado é que vai
fazer que o governo, agora, para poder ser um bom governo, funcione com base na verdade. […] Digamos em termos simples e bárbaros que o mercado, de lugar de jurisdição que era ate o início do seculo XVIII, esta se tornando, por meio de todas essas técnicas que, por sinal, evoquei ano passado a propósito da escassez alimentar, dos mercados de cereais etc, um lugar que chamarei de lugar de veridição. O mercado deve dizer a verdade, deve dizer a verdade em relação a prática governamental. Seu papel de veridição é que vai doravante, e de uma forma simplesmente secundaria, comandar, ditar, prescrever as mecanismos jurisdicionais ou a ausência de mecanismos jurisdicionais sabre as quais deverá se articular.” (FOUCAULT, 2008, p. 45).

Em termos mais simples, Foucault está nos mostrando que os mercados públicos de troca de bens, se tornam o fiel da balança, capaz de ter a última palavra sobre se um governador é bom e justo ou não. São os dados referentes ao crescimento econômico, e portanto ao mercado, aquele que classificará o governo em questão. Este deslocamento do campo jurídico para o campo econômico, atribuirá aos mercadores um papel social que por eles é desconhecido: ajudar na construção de riqueza não apenas individual, mas coletiva e decidir sobre a qualidade do governante. O papel social do mercador é de extrema importância, porém só será debatido amplamente, durante a segunda metade do século 20, durante o pós guerra, e com mais ênfase, após os anos 80 através das doutrinas Reagan e Thatcher.

Em resumo: o holocausto nazista, para Arendt, se inicia com o nascimento do sentimento antijudeu, que se inicia após a Revolução Francesa, quando o judeu banqueiro acaba ofertando crédito a nobreza decadente, e então é associado ao antigo regime. Este sentimento é inflamado, amplificado e generalizado, através dos formadores de opinião anticlericais, ou, em outros termos, os formadores de opinião contrários ao poder corrente, o da Igreja. E os judeus, por sua vez, não conseguem formar uma organização capaz de dialogar com estes atores políticos por falta de experiência política. Eles “não formavam uma classe nem pertenciam a qualquer das classes nos países em que viviam. Como grupo, não eram nem trabalhadores nem gente da classe média, nem latifundiários, nem camponeses. Sua riqueza parecia fazer deles membros da classe média, mas não participavam do seu desenvolvimento capitalista” (ARENDT, 2015, p. 37). Durante este processo, Foucault nos ensina que os mercados se tornam um lugar privilegiado para as nações e portanto, o mercador se torna um agente social, com grandes responsabilidades. Entretanto o mercador é cego para tais responsabilidades, de modo que não exerce um papel social relevante em sua comunidade.

Para finalizar, Arendt nos recorda que os judeus nunca compreenderam que o problema que os cercava, era um problema político institucionalizado e que deveria ser tratado neste âmbito, mas, seus inimigos sim. Foi desta forma que um sentimento antigo acabou desaguando como política de Estado durante o Terceiro Reich, produzindo as atrocidades que conhecemos e cidadãos como Eichmann, capaz de participar como burocrata dos processos administrativos dos quais resultaram o Holocausto, e ao ser julgado na corte de Jerusalém, se dizer inocente por ter seguido a risca a norma jurídica de seu país.

E então saímos dos judeus europeus para falarmos dos judeus brasileiros: os petistas.

Há muitos paralelos entre a história dos judeus na Europa com a dos petistas em solo tupiniquim. Os petistas, e junto com eles a esquerda em geral, assume o poder em 2002, tendo sido fundado, como partido, no dia 10 de fevereiro de 1980. Porém, já nas eleições de 1989, é possível ver alguns indícios do sentimento antipetista e antiesquerdista, ao vermos Collor, adversário de Lula, dizendo em um debate manipulado pela Rede Globo, que “nossa bandeira jamais será vermelha“. Um mantra bastante comum nos dias de hoje.

Este sentimento que já perceptível no fim dos anos 80, é bastante intensificado com a eleição de Lula em 2002, e começa a se aprofundar em 2006 quando o caso do Mensalão estoura na imprensa. Podemos constatar observando que o Estadão – um dos jornais mais vendidos, senão o mais vendido – aponta em seu site apenas 20584 notas, 677 fotos, 273 podcasts, 254 matérias no tv estadão, 12 comerciais, 10204 reportagens sobre o caso em acervo online, segundo minha pesquisa datada de 24 de outubro de 2014.

Para comparar, temos os escândalos do governo Fernando Henrique Cardoso, começando com o Escândalo do BNDS (revelado pelo jornalista Ellio Gaspari, em sua coluna, em 8 de novembro de 1998). No acervo do mesmo jornal temos 816 notícias. No caso do Escândalo dos Medicamentos temos 2008 notícias.

No caso da Veja, aparecem 1155 matérias – entre pequenas notas e reportagens completas – da revista falando sobre o Mensalão. Com relação ao Escândalo do BNDS não há nenhuma edição que trate do assunto relatada na busca do site da Veja. Nenhuma. Sobre o escândalo dos medicamentos idem.

Este sentimento gerado durante o decorrer dos anos convenceu que há o bom brasileiro e o mau brasileiro: há o cidadão de bem e o petista/esquerdista/petralha. Aliás, é interessante notar que há um adjetivo para o petista: petralha, que segundo o criador do termo, corresponde ao petista ladrão, mas que hoje é usado para classificar qualquer pessoa de esquerda.

Durante os protestos de 2013, começamos a perceber um crescente do sentimento antipetista: das agressões na internet, para as muitas filmagens disponíveis no Youtube de pessoas agredindo qualquer cidadão vestido de vermelho com ofensas e empurrões.

A coisa ficou realmente muito séria, com o ataque que a caravana do Lula sofreu, e agora com um atentado contra os petistas acampados em frente a sua cela em Curitiba. Uma pessoa corre risco de vida, levou um tiro no pescoço. E em ambos os casos, a polícia não investigou com a devida atenção e a imprensa não notificou como se deveria o atentado. O ódio contra as esquerdas é alimentado por movimentos dos mais diversos: desde o MBL até algumas pautas escolhidas pelos jornais impressos ou televisivos. A atenção dada contra o PT não se repete a outros partidos como o DEM ou PSDB. Os acervos dos jornais são públicos, basta conferir.

Do lado dos petistas, há também uma grande dificuldade em compreender que o processo pelo qual passam precisa ser revertido via políticas públicas institucionais, não apenas na internet ou em movimentos de rua. Estão falhando exatamente como os judeus. Para piorar, nossos comerciantes, que corresponde a nossa classe média, não sabe exatamente qual o seu papel social além de acumular dinheiro e ir para a Flórida comprar muamba e tirar foto com o Pateta, como fez um ex-blogueiro da Veja, todo pimpão.

Não quero ser alarmista, mas o próximo passo será a transformação dos petistas e da esquerda como um todo, em inimigos declarados da pátria. E ai a merda vai feder.

A hora de começar um debate sério com a direita não é apenas para oxigenar a política: é também necessário para evitar que a perseguição contra os petistas acabe se tornando um problema humanitário.

A hora é essa, não percamos o bonde da história. Do contrário vamos lamentar, e muito, depois.

 

 

Participe da conversa! 6 comentários

  1. Bom texto. Mas esse pessoal da direita não parece querer diálogo.

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  2. Concordo com vc. Fica difícil acreditar que esse sistema vai mudar. Mas a esquerda também não é assim essa Maravilha toda não. Até acredito que muitas pessoas não estavam envolvidas com corrupção. Mas muitos sabiam e não fizeram nada para acabar com isso.

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  3. Rafael,
    exatamente o que penso sobre. Vejo, que o sentimento de Ódio que a nossa sociedade está nutrindo está aumentando(pelo menos nas grandes capitais) apesar de termos a internet e a oportunidade de buscar fontes confiáveis de informação, as pessoas se deixam levar pelo senso comum, mídias sociais, noticiários que censuram a realidade. Isso é exatamente o que eles querem…
    Classes trabalhadoras se matando e se culpando uns aos outros.
    Como você informa no seu texto, o sentimento de ódio que a classe média está adquirindo está aumentando e isto é preocupante para o país. A nossa sociedade precisa acordar e perceber a burrada, informação nós temos porém, conhecimento…

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