A tragédia já é sabida e bem conhecida. Segundo reportagem do El País, um prédio de 20 andares desabou após pegar fogo na região do Largo do Paissandu na madrugada do dia primeiro de maio, dia do trabalhador/trabalho.

O edifício já foi sede da Polícia Federal e até seu desabamento, pertencia a União. Estava ocupado por 150 famílias pertencentes ao movimento social MLSM – Movimento de Luta Social por Moradia e até o momento uma pessoa já foi confirmada como morta, e há quatro pessoas desaparecidas, entre elas o vendedor Antônio Ribeiro Francisco, de 42 anos, que busca informações sobre a ex-mulher, Selma Almeida da Silva, e os dois gêmeos filhos dela, que moravam no prédio. Vasculhando e pesquisando sobre o acidente encontrei no site da Veja uma reportagem sobre a arquitetura do prédio e no site do G1 um levantamento sobre a condição precária do prédio.

Outro sites como o Uol e Globo.com descreveram a tragédia, porém nenhum deles, incluindo ai o excelente El País, questionou os porquês de existir um prédio ocupado em São Paulo. Exceção honrosa ao Nexo Jornal, que entrevistou dois especialistas em habitação, Felipe Villela, urbanista e pesquisador do Observatório de Remoções LabCidade e Alvaro Puntoni, professor da Escola da Cidade e sócio do Gruposp, sobre os problemas da habitação na cidade de São Paulo.

A entrevista cedida responde alguns problemas intrínsecos a moradia pública, como por exemplo a lógica social que transforma proletário em proprietário, ou a falta de uma política pública voltada para a questão da moradia. Porém, não creio que toca no nervo exposto do problema, que é, ao meu ver, o modelo de cidade – ou de espaço público se preferirem – que o brasileiro deseja, ou a condição existencial dessas pessoas.

Embora esse assunto não esteja sendo debatido – e é horrível que não esteja, principalmente em ano de eleição – podemos ter uma pista pelas reportagens feitas pelo G1 e pelo site da Veja. Ambos fazem uma descrição detalhada do prédio, de seu modelo arquitetônico e até mesmo comentam sobre o arquiteto francês que o projetou. Porque fazem isso? Porque o público pede, porque o público acessa.

Noam Chomsky, filósofo norte americano, já nos explicou como funciona a estratégia da mídia para manipular a opinião pública. São elas:

1. A estratégia da Distração:

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. 

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.

3. A estratégia da gradualidade.

Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990.

4. A estratégia de diferir.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais difícil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato.

5. Dirigir-se ao público como crianças.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante.

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9. Reforçar a autoculpabilidade.

Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação.

10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.

(Fonte: Geledés)

O que me ocorre, diante deste quadro, é que a imprensa pauta o debate sobre questões urgentes a respeito das cidades e também do espaço público, utilizando este modelo descrito por Chomsky, de modo que grande parte da população não tem se feito algumas perguntas que deveriam ser óbvias a qualquer um sobre esta tragédia. Por exemplo:

“Aonde essas pessoas que moravam no prédio, estão dormindo?”; “O que elas estão comendo, bebendo?”; “Há crianças entre os moradores do prédio que desabou? Elas estão indo a escola?”; “Porque existem pessoas que não conseguem ter uma casa para morar?”; “O que leva uma pessoa a invadir um prédio em situação de risco?”; “Ninguém percebe que morador sem teto também é chamado de mendigo?”; “Como será a condição psicológica de um morador de rua que vive sabendo não ter condições de dar um teto a sua família?”.

Essas perguntas, para mim são óbvias. Se para você não tem sido talvez seja porque não tem ninguém se importando muito em fazê-las: nem para debatê-las, nem para respondê-las. Porque Tibério Graco (169-164 a.C.–133 a.C.), Tribuno da Plebe romana (uma espécie de parlamentar dos tempos do Império Romano) já nos disse há muito tempo atrás que “as bestas selvagens que vagam pela Itália tem seus covis, todas contam com um local de repouso e refúgio. Mas os homens que lutam e morrem pela Itália não gozam de nada além do ar e da luz; sem casa ou lar, vagam com suas esposas e filhos”. 

E o que mudou nos últimos 2100 anos? E por favor, não me venham me dizer que não há dinheiro disponível para criar políticas públicas habitacionais para mim e para outros brasileiros como eu que não tem um teto para chamar de seu, ou para aqueles em situação pior que a minha, aqueles que não conseguem arcar com o aluguel de uma casa. Há dinheiro, eu sei e você também. O que não há é apoio popular pela demanda mais básica possível, ao contrário.

Vi e li centenas de pessoas argumentando de diversas formas sobre o fato de que os moradores eram bandidos por terem violado a lei. Nas palavras de João Dória, ex prefeito de São Paulo, o imóvel do Largo Paissandu havia sindo invadido por uma facção criminosa, a despeito dele próprio ter invadido um terreno público no passado. Horas depois ele tuíta uma mensagem de apoio as vítimas. Creio que seu marqueteiro deva ter avisado que sua intenção de voto para governador iria cair com a primeira declaração.

De qualquer forma precisamos pensar exatamente o que queremos como cidade, e em quais condições vivem seus habitantes. Não podemos ser pautados pelo debate promovido apenas pela imprensa, pois embora ela tenha um papel bastante importante, há outros interesses que a imprensa busca, que não necessariamente os do cidadão.

Particularmente acredito que alguns pontos deveriam ser inalienáveis. Entre eles o acesso a alimentação e a moradia. Não falo em receber estas condições do Estado, mas em ter condições sociais de modo a ter certeza que, independente das desgraças da vida, eu terei condições de manter minha existência, me alimentando debaixo de um teto.

Não é o caso. Basta ver os preços dos alugueis, em especial na cidade de São Paulo. Um apartamento para alugar no Bom Retiro/SP de 56 m² sai por R$ 1.750. Outro apartamento de 65 m² no mesmo local, R$ 2.800. Um apartamento de 77 m², no Bairro Consolação, R$ 5.000.

Digam-me, quem tem dois, três, cinco mil para pagar de aluguel, todo mês? Bom, eu não tenho, você não tem, e assim, dividimos a cidade em locais bem específicos, dizendo em alto e bom tom onde você irá viver, quais espaços irá ocupar, com quais pessoas conversar, quais paisagens conhecer, quais padarias e bares frequentar. Desnecessário dizer também que as políticas públicas voltadas para cultura e lazer estarão alojadas nas localidades onde o aluguel beira o surreal, e não na Cidade Tiradentes, onde o fluxo toma conta das ruas durante a tarde/noite/madrugada, disparando rajada de metralhadora há trezentos metros de uma delegacia de polícia.

A partir do preço da cidade, classificam também as pessoas da cidade. Estamos percebendo isso, apenas não estamos nos importando. Estamos aceitando ser tratados e taxados como cidadãos de segunda categoria, comendo mal, bebendo mal, vivendo mal. Já disse Criolo que não tem problema nenhum a pessoa ter cinco refeições ao dia, ou seis; o problema é não ter uma refeição e ainda achar que a culpa é dela. Não é. Repita comigo, não é. Estamos sendo esmagados por uma máquina que não se importa em causar dor e sofrimento, ao contrário, disto se alimenta. E ao invés de pensarmos uma forma de reformar a máquina, estamos brigando entre si para ver quem morre do jeito mais bonito, quem sofre com mais estilo, quem grita com mais seguidores no Instagram.  Não sei porque mas parece que passamos a acreditar que tem sido sempre assim, e que portanto, assim sempre será.

Bom, a filosofia está aqui pra dizer que não. Podemos mandar a merda tudo aquilo que não nos convém e pensar em coisas novas e diferentes para fazermos e criarmos. Basta ignorarmos um pouco aquilo que nos mandam pensar através da imprensa e nos encontrarmos com nossos valores fundamentais a respeito da vida e da dignidade humana.

Será difícil, mas precisamos conseguir. Ou então, fodeu.

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