Durante a época em que eu era universitário, eu frequentava um bar chamado Bar do Jé, que sequer tinha uma coxinha de frango para comer. Tudo que vendia no Bar do Jé era cerveja, destilado e salgadinho Torcida. Mas o Bar do Jé – que fica em Santo André, em frente a loja de discos Metal – tinha e tem a melhor música rolando de fundo, além do Jé, o dono de bar mais carismático que já conheci. E deus sabe quantos donos de bar eu conheci na vida. Eu costumava ir ao Bar do Jé rabiscar contos e poemas, geralmente sozinho.

Mas foi no Bar do Jé, uma certa noite atípica, em que um amigo meu, Jeferson, me emprestou alguns livros para ler durante as férias. Cartas na rua, de Charles Bukowski, Pergunte ao Pó, de John Fante, e On the Road, de Jack Kerouac. Foi quando conheci a literatura beat/marginal e foi amor a primeira vista.

Lembro de chorar ao terminar Pergunte ao Pó: eu e Arturo Bandini estávamos sozinhos no deserto daqueles dias. Também me via vivendo e trabalhando sem sentido junto com Chinaski e tudo o que eu queria naqueles dias era viajar como Sal Paradise, colhendo tomates e ouvindo jazz nos bares.

A literatura beatnik, como ficou conhecida a produção poética e literária de autores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Henry Miller, William S. Burroughs,  é marcada por um intenso desejo de vida, de viagem, de música. As experiências autobiográficas aparecem nas páginas, mesclando vida e obra, autor e personagem, e da pra perceber o tédio do qual eles fogem ao olhar para o lado e perceber que este tédio também lhe assombra.

Eu me sentia como eles todos bebendo e brigando, ouvindo Blues at Sunrise, do Albert King no meu discman (alguém se lembra o que é um discman?), desejando viver outra vida que não a minha. Os anos em que vivemos são anos selvagens. Aqueles anos foram anos violentos.

O núcleo portanto da literatura beat acabou criando uma movimento de contracultura, nascido nos EUA, e migrado para cá, principalmente com as publicações da LP&M: livros baratos, bem traduzidos e bem diagramados. Dentro da cultura beat, os valores tradicionais da sociedade são questionados, transgredidos, ignorados. As preocupações cotidianas, como pagar aluguel ou roupa nova não são preocupações, e fim. A única preocupação de verdade é se a vida está valendo a pena. Se assemelha a um nietzscheanismo sem compromisso, um hedonismo quase imoral. Não sei se Epicuro, se vivo, não seria um beat.

De qualquer forma, o uso de drogas não era um tabu entre os beats. Burroughs por exemplo, escreveu Junky, um livro onde ele narra sua experiência como usuário de drogas. Eu particularmente não sou a favor do uso de alguns tipos de drogas. Álcool por exemplo, eu consumo socialmente hoje em dia, embora nem sempre tenha sido assim. Mas não consumo, nem nunca consumi, crack ou cocaína. De qualquer forma, o que para mim não é correto, para meus heróis literários era, e eu pensei, pela primeira vez, mas não pela última, sobre esse tema: porque algumas drogas são liberadas e outras não e porque há um estigma sobre seu uso?

Porque álcool e tabaco são drogas liberadas e maconha proibida? Foram registradas 250 mil mortes apenas por câncer de fígado causado pelo álcool em 2017. Em 2014, o Brasil registrou 12,2 mortes a cada 100 mil habitantes causado pelo álcool. Para efeito comparativo, morrem, por assassinato, 29 pessoas a cada 100 mil habitantes hoje, no país.

No caso do Tabaco, piora. São 156 mil mortes/ano. Mais uma vez, para efeito comparativo, morreram assassinadas 60 mil pessoas ano passado. As facções criminosas do país perdem feio para a Souza Cruz.

A maconha por sua vez, nunca registrou uma única morte por overdose, e há estudos comprovando que álcool e tabaco são mais prejudiciais que a erva. No caso do álcool, 114 vezes mais mortal que a maconha. Obviamente essa proporção muda com outras drogas. De qualquer forma, os mesmos estudos apontam que a escala de mortalidade entre as drogas é esta, da pior para a menos pior: álcool, heroína, cocaína, tabaco, ecstasy, metanfetaminas e, finalmente, maconha.

A pergunta então é porque a mais perigosa é liberada e a menos proibida. Ou ainda, porque há um estigma social violento sobre a figura do maconheiro e não sobre a do cidadão de bem que bebe uma cervejinha com os amigos?

Fábio Assunção talvez seja um bom exemplo para este texto. Ele foi preso após bater o carro e se negar a fazer o teste do bafômetro. A acusação alega que ele estava embriagado e vai responder o processo em liberdade após pagar fiança de R$ 50.000. Ele foi de galã a ator problema, no momento em que foi revelado seu vício em drogas. Dormiu sendo considerado pela opinião pública como um galã lindo e maravilhoso e amanheceu com uma tatuagem escrita “marginal” na testa no outro, muito embora a imprensa tenha sido bastante compreensiva com ele. Lembro de uma revista Veja nas bancas (nunca comprei uma revista Veja na vida) onde aparecia a cara de Fábio Assunção com os dizeres mais ou menos assim: “o drama das drogas“. Há também várias revistas chamando o cidadão pobre e negro de sempre, de viciado e marginal pelo mesmo motivo. De qualquer forma eu me lembro de pessoas mudando de opinião sobre o ator como quem muda de camiseta ao descobrir seu vício.

Kerouac e os beats foram quem abriram as portas do questionamento para este problema. Nos permitiram perceber que bêbados e drogados são gente como a gente, com as mesmas dores e sonhos, e que, embora estejam marginalizados (por opção ou não) em nada diferem do resto de nós, exceto esta situação.

Não sei se estamos maduros o suficiente para ter este debate, haja vista tudo o que vem acontecendo a nossa volta nos últimos anos. Ainda assim é um debate necessário. O programa De Braços Abertos (que dava dinheiro aos viciados que se cadastrassem no programa), começado pela Prefeitura de São Paulo durante a gestão de Haddad, era voltado para o cuidado com os viciados em crack do centro da cidade e tinha como princípio uma política de redução de danos, ao invés da repressão e internação forçada. Dos 416 beneficiários, 88% dizem ter diminuído o uso de crack. Ainda assim o programa foi cancelado pela gestão Doria, contanto com amplo apoio popular, pois a ideia geral é de que não se deve dar dinheiro a drogado. Como se o viciado em drogas fosse uma espécie de animal.

É preciso mudar a ideia que temos das pessoas que se encontram a margem de nossa sociedade, buscar formas de reintegrá-las lhes dando dignidade, cultura, música, literatura, poesia e quem sabe, jazz e filosofia.

Ou eu estou errado?

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