De acordo com o cientista social Renato Cancian, é possível perceber o debate de temas pertinentes ao movimento feminista, já nos idos do século 15, e depois, de modo mais acentuado, no século 18, como por exemplo o debate sobre a superioridade do homem frente a mulher. Com o advento da Revolução Francesa, é quando se torna possível identificar ecos daquilo que chamamos hoje de movimento feminista.

Embora tenha sido rejeitado pela Convenção, em 1791 a revolucionária Olímpia de Gouges  (Montauban, 7 de maio de 1748 — Paris, 3 de novembro de 1793), dramaturga, ativista e abolicionista, escreveu uma declaração sobre o tema, afirmando que homens e mulheres tinham direitos naturais iguais, podendo desta forma as mulheres participarem da vida política e pública. Entretanto é no fim do século 19 que o movimento feminista ganha os contornos modernos que conhecemos atualmente.

A chamada primeira onda do movimento feminista tem como pauta de reivindicações assuntos como direito ao voto e à vida pública e um grande nome deste primeiro momento é Nísia Floresta, (Papari, atual Nísia Floresta, 12 de outubro de 1810 — Rouen, França, 24 de abril de 1885)educadora, escritora e poetisa brasileira. Nísia foi provavelmente a primeira mulher a publicar textos em jornais, dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu sobre temas como o direito das mulheres, dos índios e dos escravos, publicando

É considerada uma pioneira do feminismo no Brasil e foi provavelmente a primeira mulher a romper os limites entre os espaços público e privado, publicando textos em jornais, na época em que a imprensa nacional ainda engatinhava. Nísia também dirigiu um colégio para moças no Rio de Janeiro e escreveu livros em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos, publicando Direitos das mulheres e injustiça dos homens, primeiro livro escrito por ela, e o primeiro no Brasil, a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho. A obra foi inspirada no livro da feminista inglesa Mary WollstonecraftVindications of the Rights of Woman. Em 1853 Nísia publicou uma série de artigos sobre emancipação feminina chamado Opúsculo Humanitário, que recebeu uma apreciação favorável de Auguste Comte, um dos principais autores do positivismo. Pergunta: você já foi apreciado por um dos maiores  autores de sua época? Nísia, sim, embora ela continue desconhecida do grande público e seja bastante difícil achar material sobre ela na internet.

A segunda onda do movimento feminista teve início nos anos 60/70, momento em que o Brasil vivia uma  de suas muitas crises econômico-democráticas, conforme nos aponta Luis Carlos Bresser Pereira, em seu artigo intitulado Ideologias econômicas e democracia no Brasil. Uma das autoras destacadas deste momento é Simone de Beauvoir, e sua obra Segundo Sexo, publicada em 1955, começa a ser debatida dentro e fora dos círculos acadêmicos. No Brasil, vemos se formar em 1975, o Movimento Feminino pela Anistia e surgir, mais ou menos na mesma época, o jornal Brasil Mulher. No mundo, em especial nos EUA, um movimento popular liderado por professoras universitárias se inicia tendo como pauta de ação a valorização do trabalho da mulher, o seu direito ao prazer sexual, seus direitos reprodutivos, o debate entre desigualdade de fato e desigualdade jurídica. Também nessa época as mulheres ligadas ao feminismo começam um grande movimento público no combate e denúncia contra casos de estupro – principalmente o estupro conjugal – e pelas leis de custódia e divórcio.

E aqui entra Bill Cosby e Roman Polanski.

Cosby é um dos grandes nomes do stand-up norte americano e começou sua carreira televisiva nos anos 1960 ao conseguir um papel da série I Spy, exatamente no ano de 1960 e começando mais tarde sua própria série na televisão, The Cosby Show, depois sendo um dos principais personagens da série infantil The Eletric Company e criando uma série educativa em desenho, Fat Albert and the Cosby Kids, que falava sobre os problemas de um grupo de adolescentes que amadurecem na cidade. Cosby se torna uma das maiores estrelas da televisão e da cultura pop norte americana. Ganhou inúmeros prêmios como por exemplo em 1969, quando recebeu seu terceiro prêmio Homem do Ano pelo Hasty Pudding Theatricals, grupo de atuação da Universidade de Harvard; em 2002, recebe a Medalha Presidencial da Liberdade por suas contribuições na TV; noa ano seguinte ganha o Prêmio Humanitário Bob Hope e em 2011 é homenageado pela Marinha dos Estados Unidos. Veja bem que homem: coleciona prêmios humanitários, de homem do ano, medalha do presidente… Ainda sobrou tempo para ganhar três Emmys (1966-67-68) como ator e sete Gramys nos anos entre 1965 e 1987.

Talvez no meio de tanto sucesso, a primeira acusação de estupro contra Cosby, tenha passado em branco. Fora a primeira de uma sequência de mais de 50 mulheres que atravessou o fim do século 20 e o começo do século 21. Mas quem iria prender uma máquina de fazer rir e ganhar dinheiro? Ao invés da prisão, Cosby ganhou fama, dinheiro, conforto, fãs e impunidade.

O mesmo vale para o vencedor do Oscar de melhor diretor Roman Polanski, por de O Pianista. À época do filme o diretor, que já fora indicado ao Oscar outras quatro vezes, ficou impedido de ir buscar a estatueta com medo de ser preso, pois ele já havia confessado ter estuprado Samantha Geimer, uma menina de 13 anos em 1977, após drogá-la. Aliás, Cosby também admitiu em 2015 que havia sedado jovens com o intuito de estupra-las. 

Se você acompanhou o raciocínio, deve ter ficado claro que desde os anos 1960 e 1970 as feministas estão lutando pelo direito das mulheres estupradas, e desde essa época estão perdendo para gente como Cosby e Polanski, pelo fato de serem homens e poderosos. Também deve ter percebido que as mulheres que lutaram por seus direitos, inclusive o de não serem estupradas e de serem ouvidas em casos de estupro, são hoje, incríveis desconhecidas, ao contrário de Cosby e Polanski.

E então, no ano da Graça do Nosso Senhor de 2017, a Academia do Oscar os expulsa com a alegação de que, segundo a nota oficial, “o conselho continua a encorajar padrões éticos que exigem que os membros se enquadrarem nos valores de respeito pela dignidade humana observados pela Academia”.

Eu aposto meu braço esquerdo que a Academia continua cagando e andando para as mulheres; que ainda hoje há atores estuprando atrizes, inclusive as menores de idade; que a elite administrativa, entre diretores, produtores e atores/atrizes, sabem exatamente quem estupra e quem é estuprado e a Academia nada faz. Porque se fosse o caso, teria, no mínimo, investigado com rigor o caso de Cosby que tem MAIS DE 50 ACUSAÇÕES DE ESTUPRO NOS ÚLTIMOS 50 ANOS! É quase um estupro por ano caralho!

Se a Academia realmente se importasse com o caso, os teria expulsado no dia seguinte em que Cosby e Polanski tivessem confessado seus crimes. Também teria suspendido a entrega do Oscar para Polanski. Também não teria premiado Casey Afleck ano passado como Melhor Ator, pois ele também é acusado de assédio sexual. E uma breve pesquisa na internet faz a lista de acusados por assédio sexual crescer bastante: Dustin Hoffman, Steven Seagal, Brett Ratner, Oliver Stone, Lars Von Trier, Louis C. K., Charlie Sheen, Brian Singer, T. J. Miller, Danny Masterson, Andrew Kreisberg, Paul Haggis, Larry King, John Lasseter, John Travolta, Matt Lauer…

A Academia expulsar ambos em 2017, após anos de acusações, confissões e das mulheres pressionando o debate público exatamente sobre este quesito, é a declaração de que sim, o estupro compensa em Hollywood e de que as mulheres serão escutadas apenas quando os executivos da indústria do cinema sentirem no bolso as consequências.

Então fica meu boicote: não assista no cinema, filme algum em que houver um acusado de assédio, até que seu caso seja esclarecido. E se ele for um estuprador confesso ou condenado, faça o boicote aumentar: não assista. Mas se quiser muito consumir o filme/música do fulano, corra até o Torrent mais próximo de você.

A internet foi feita pra isso.

 

Fontes consultadas: Carta CapitalInfo Escola.

 

 

 

 

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