Enrique Dussel (Mendoza, Argentina, 24 de dezembro de 1934) é um daqueles filósofos que os cursos tradicionais de filosofia costumam ignorar, da mesma semelhante a que faz com Guy Debord, para ficar em apenas um único exemplo. Eu tive a sorte de conhecê-lo na universidade, através de conversas em corredores da universidade com o hoje vice reitor da UFABC, Daniel Pansarelli, à época doutorando em educação pela USP. Lembro de ouvi-lo falar sobre o conceito de alteridade tal qual Dussel o trabalha, e compreender apenas que ele é uma releitura da dialética hegeliana e marxista aplicada a prática latino-americana.

Naqueles anos eu pensava compreender a superfície dos conceitos de Hegel e Marx, portanto acreditei ter ao menos entendido a amplitude do pensamento de Dussel. Entretanto eu tenho a certeza de que hoje, passados dez anos daquela conversa, eu compreendo menos do que a superfície do pensamento de Marx e Hegel e portanto naquela época, hoje eu sei, não entendi o mínimo de Dussel.

Não é possível explicar seu conceito de analética em poucas linhas, até mesmo porque eu não estou completamente certo das implicações de seu modelo, porém um grande amigo meu, Wagner Pereira, está realizando seus estudos de mestrado exatamente sobre Enrique Dussel, e se alguém se interessar mais pelo filósofo argentino, basta entrar em contato conosco que tentaremos lhe colocar em contato com esse meu amigo e filósofo.

Minha tarefa portanto é mais simples; tentarei apresentar o mínimo necessário para que eu possa chegar ao ponto que desejo. Ao trabalho, então.

Dussel possui uma carreira brilhante em sua juventude, tornando-se doutor pela Universidad Complutense de Madrid em 1959, aos 25 anos de idade com estudos sobre o conceito de bem comum entre os gregos. Após estes anos iniciais, ficou de 1959 a 1961 trabalhando como carpinteiro junto ao sacerdote Paul Gauthier em Nazareth, Israel, sendo essa experiência fundamental para sua futura reflexão, pois foi como carpinteiro que teve a oportunidade de experimentar e vivenciar a pobreza e a exclusão. Seus estudos então rumam para o campo teológico, obtendo em 1965 o título de mestre em Estudos da Religião pelo Instituo Católico de Paris e em em 1967 o título de doutor em História da Igreja pela Sorbonne. Seus estudos iniciais terminam com sua tese Les Evêques hispano-americains, defenseurs et evangelisateurs de l’ indien (1504-1620), com a qual obtém seu doutorado em história pelo Arquivo de Índias de Sevilha como resultado de sua pesquisa feita entre 1964 e 1966.

 

 

Ao retornar a Argentina e começar a formular seus estudos que viriam a ser sua tese de Filosofia da Libertação, acaba tendo problemas com a Ditadura argentina: sua casa sofre um atentado a bomba em 1973, sob acusação de marxista. Desde então começa a sofrer ameaças de morte cada vez mais frequentes e em 1975 a  Universidade Nacional de Cuyo onde era professor de Ética, o expulsa por causa das acusações de comunista, e suas publicações e livros são proibidos. Sem alternativa e temendo por sua vida, se exila no México e vai trabalhar no Departamento de Filosofia da Universidad Autónoma Metropolitana, unidade de Iztapalapa e na Universidad Nacional Autónoma de México.

Entre os anos 1960 e 1970, em meio a este turbilhão em sua vida pessoal, suas pesquisas apontam para o conceito de analética, que se distingue da dialética hegeliana metafísica ou da dialética materialista marxista, por não precisar nem ser negada pelo outro, nem negar o outro. Quer dizer, a dialética, tanto em Marx quanto em Hegel, pressupõe que a tese seja negada pela antítese, para que dela nasça a síntese, seja no campo materialista, no primeiro, seja no campo metafísico, mas não somente, no segundo. Mais ainda, o sujeito é reconhecido primeiro pelo outro, através de sua negação, o que quer dizer que em uma relação entre senhor e escravo, quem reconhece o senhor como senhor, é o escravo de quem ele é mestre. O senhor por sua vez nega a vontade do escravo, e é dessa negação que retira sua força. Alguns filósofos como o o russo Alexandre Kojève dirão que a próxima etapa dos movimentos sociais nascem deste relação, mas no campo de disputa político. Mas não falemos de Kojève porque seria assunto demais.

A analética, ao contrário da dialética, não parte da negação do outro, mas sim do reconhecimento primário a partir de sua dignidade humana. Este reconhecimento tem por finalidade negar todo tipo de negação dirigida aos excluídos e invisíveis de nossa sociedade, e portanto criar um novo tipo de ética mais inclusiva e abrangente. Enquanto a dialética tem a finalidade do confronto (a tese confronta a antítese) a analética tem como finalidade a alteridade, que é um degrau acima da empatia: a empatia pede que você se coloque no lugar do outro; a alteridade pede que você compreenda o outro através daquilo que lhe torna diferente de você, e após compreender o que torna a outra pessoa diferente, se perguntar como esta pessoa julgaria sua própria existência. Em um exemplo pobre, mas ilustrativo, seria como pedir a você, que provavelmente é hétero, talvez branco e de classe média compreenda a fundo como é a vida de uma mulher negra, trans e da periferia. Entendeu? Ótimo. Agora se pergunte como essa mulher julga suas ações. Isso é o começo da alteridade.

Sim, eu sei, é difícil fazer isso.

De qualquer forma, o movimento analético pede que o façamos, para poder justificar, e nunca negar, nenhum tipo de existência, para então propor um método político libertador capaz de promover o avanço social, econômico e político sem deixar ninguém de fora do balaio, para que a inclusão do outro não se dê apenas através do campo do discurso, mas sim do comportamento ético.

Dussel vai além e retira complicações metafísicas deste processo, respondendo portanto não apenas a Marx, como também a Hegel, porém, não há como esgotar este debate aqui, porque o foco é o governo Macri falindo a Argentina.

Primeiro, convém falar que a Argentina não nasceu em seu governo, portanto suas dificuldade vem de longa data, de antes inclusive dos governos kirchneristas. Pegamos por exemplo o ano de 2001, governado quase em sua totalidade por Fernando de la Rúa (Adolfo Rodrígues Saá ficou no governo poucos dias do mês de dezembro) quando em meio a uma grave crise econômica e política, a Argentina anunciou um calote em sua dívida pública, que na época era de cerca de US$ 100 bilhões, fazendo com que investidores estrangeiros temesse fazer novos investimentos, espantando assim crédito internacional, acarretando em escassez de dólares, e portanto na valorização da moeda, e consequentemente, em aumento dos juros e inflação.

O governo Macri herda, justiça seja feita, um país com problemas estruturais, como aliás, é a normal em países latino-americanos. E como todo governo vencedor, Macri promete entregar a saída da crise através de um remédio dito amargo, mas de resultados positivos. Falamos de sua plataforma política neoliberal, aclamada como nova, inteligente e salvadora pela direita argentina e brasileira. Lembremo-nos e jamais nos esqueçamos, que grupos de direita como por exemplo o MBL, saudou Macri como um tipo de messias salvador da Argentina. Então quando os jornais e sites deram a notícia que os juros na Argentina dispararam 40% e que Macri se ajoelhou para o FMI implorando empréstimos em condições humilhantes e draconianas, eu me pergunto: ué?

O que se passa? O que deu errado?

Ao tentar explicar o fracasso argentino os liberais brasileiros acabam caindo no erro do qual acusam na esquerda. Qual? Ora, a esquerda brasileira sempre diz que União Soviética e Cuba não deram certo como deveriam porque o comunismo/socialismo (depende de quem for responder, o termo pode mudar) nunca foi aplicado em sua totalidade. Ou seja, o comunismo/socialismo deu errado porque não tinha comunismo/socialismo suficiente.

A direita brasileira acusa o problema na Argentina como falta de livre mercado, sem perceber que o argumento é o mesmo que tanto criticam. E que tal analisarmos nossa questão estrutural, seja ela argentina ou brasileira, através de um outro prisma, ainda que ideológico, embora mais inteligente?

O próprio Macri, em seu pronunciamento sobre a crise e o empréstimo, diz que “[sua] política depende muito do financiamento externo. Durante os primeiros anos contamos com um contexto mundial muito favorável, mas isso hoje está mudando”. Será que por exemplo, não seria o caso de refletir e se perguntar “ok senhor Macri, compreendo o que o senhor diz. Mas o que o senhor e seus analistas ficaram fazendo nos últimos meses, que não previram esta mudança? Dançavam a polka?”

Talvez o problema não seja a falta de livre mercado, mas uma análise da conjuntura transnacional equivocada. Quem sabe o tabuleiro geopolítico não foi interpretado corretamente porque, talvez, lhe faltou compreensão do alcance, da extensão da influência de todos os atores políticos e de mercado neste processo. Não é vergonha admitir que em um mundo cada dia mais complexo, velhas receitas não produzam resultado esperado. Percebam que estou tratando Macri como um ignorante sincero: alguém realmente disposto a fazer o melhor pelo seu país, mas que não consegue por incompetência. Creio ser melhor estes termos, pois o outro seria tratar Macri como alguém que produz a crise de modo deliberado, algo como um Temer argentino. Como considero a palavra Temer um palavrão e uma ofensa muito grande, não quero pensar nessa opção.

E ai voltamos a Dussel. Sua crítica era exatamente da dialética hegeliana e marxista, colocando o reconhecimento do outro, outrora negado, no campo não apenas do debate, mas no centro de sua filosofia da libertação. Diz ele que nos libertaremos de nossa lógica totalitária que aceita uns e exclui outros desta totalidade, apenas quando aceitarmos a todos sem deixar ninguém de fora.

Não seria hora de começarmos as críticas a esquerda e direita, respeitando os posicionamentos políticos e ideológicos, mas colocando todo ser humano como centro do processo? Como defender um regime como o de Stalin, capaz de massacrar milhões, diz a direita. Mas como defender um regime que produz 800 milhões de pessoas com fome diariamente  (e destas, 300 milhões são crianças) como é o caso do nosso regime capitalista? Nova York, a meca do capitalismo moderno, tem a maior população de moradores de rua do mundo; 60 mil pessoas.

Como defender isto? Eu não sei, mas se Dussel estiver certo, não dá. É preciso alargar nossas compreensões de mundo, reconhecer que o neoliberalismo é, assim como as velhas tradições da esquerda, ideologia tomada como ciência, e, ao invés de reproduzir modelos políticos criados para o velho mundo europeu, desenvolvermos nosso modelos.

Um dia,as Américas foram chamadas de Novo Mundo. Creio estar na hora de justificarmos este nome que não pedimos, mas que nos cai tão bem.

 

 

 

 

 

 

 

 

Participe da conversa! 2 comentários

  1. OS MAIS VELHOS AINDA SE LEMBRAM DO FAMOSO EFEITO ORLOFF?
    SERÁ?
    POSSÍVEL E, PIOR, MUITO PROVÁVEL.

    gustavohorta.wordpress.com

    Curtido por 1 pessoa

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  2. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    OS MAIS VELHOS AINDA SE LEMBRAM DO FAMOSO EFEITO ORLOFF?
    SERÁ?
    POSSÍVEL E, PIOR, MUITO PROVÁVEL.

    gustavohorta.wordpress.com

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