Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) descreve na primeira página de sua obra, A Peste, como é a cidade de Oran: “Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito  sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas.” (CAMUS, 2017, p.7).

Sua genialidade está em descrever, em um parágrafo, como é a maioria das cidades do mundo ocidental. Claro que algumas coisas são variáveis: uns ou algumas não buscam prazer em mulheres, mas em homens; outros não gostam de cinema, mas de séries; ou então ao invés de cafés, bares. Mas todos morrem de segunda a sexta, para ressuscitar aos sábados (ou sextas a noite). Aos domingos começam a morrer novamente. Trabalham para ganhar dinheiro, tentam ser felizes comprando coisas das mais imbecis. Alguns ainda acreditam que transando bastante, com o maior número de pessoas, conseguirá preencher aquele vazio que o acompanhará a noite, e que se entupir de café ou cerveja fará alguma diferença ao final do dia.

Não fará, já sabemos.

Estas coisas todas que os personagens de Camus faziam e que a maioria de nós faz, serve como anestesiante para lidar com o Absurdo, com a maiúsculo mesmo. O Absurdo, para Camus, é o contrassenso de vivermos em outro tempo, no futuro. Diz ele em O mito de Sísifo que “Em todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos leva. Mas sempre chega a hora em que temos de levá-lo. Vivemos no futuro: ‘amanhã’, ‘mais tarde’, ‘quando você conseguir uma posição’, ‘com o tempo vai entender’. Estas inconsequências são admiráveis, porque afinal trata-se de morrer. Chega o dia em que o homem constata ou diz que tem trinta anos. […] Pertence ao tempo e reconhece seu pior inimigo nesse horror que o invade. O amanhã, ele ansiava o amanhã, quando tudo em si deveria rejeitá-lo. Essa revolta da carne é o absurdo” (CAMUS, 2011, p.28). E creio, neste Brasil de 2018, as condições para uma vida sem brilho, está mais que posta. A nossa esperança, minha e sua, é a de que amanhã seja melhor, mas esse amanhã é o tempo inalcançável, um local onde vive nossos desejos de vida não vivida. Esperamos que melhore em 2019 quando, esperamos, nosso candidato a presidente – e aqui cada um tem o seu – vencer a eleição que prometem ser a mais dolorosa de toda nossa História.

Não melhorará, já sabemos.

Mas nos enganamos crendo que sim. Deveríamos rejeitar o futuro porque o futuro é o local da morte. É no futuro onde morreremos, e a qualquer momento. Posso não terminar de escrever este texto, por exemplo. Quero crer que o terminarei, mas nada garante. E se nos perguntarmos porque a vida é deste jeito, tão sofrida, tão bruta e dolorosa, nossos políticos todos uns sociopatas, não encontramos resposta. É porque é. O mundo é uma casca vazia sem significado posto, uma imensa sucessão quase aleatória, de eventos que se conectam através dos milênios, que vão se somando uns aos outros, se transformando e nos modificando sem pedir permissão. Daí, deste mundo vazio assustador e pétreo, que nos assusta, é que vivemos buscando um sentido de vida que transcenda este mundo: um deus que nos salve, um anjo que nos ajude, um santo que interceda.

Não há, você deveria saber.

Se houver, estão todos ocupados demais para ouvir nossas orações e clamores nos últimos 500 anos por um Brasil mais justo. Daí nos divorciarmos do mundo e da vida para vivermos em ilusões, suposições, hábitos. Daí a obsessão do homem comum com o trabalho, com a rotina, com os hábitos e tradições. A certeza tola de que a vida é boa porque domingo tem churrasco, quarta tem jogo, a meta do mês foi alcançada, no Natal tem peru e amigo secreto, sexta tem happy hour, semana que vem estreia um filme novo, e tem as baladas e cerveja e sexo, muito sexo, e o gozo, que é a felicidade eterna. O sexo é uma religião que promete felicidade por 30 segundos, mas que as vezes nem isso entrega. Felicidade as vezes é cair na cama sem hora para acordar, porque se acordar, terá que perceber que o mundo é vazio e começar tudo de novo, e jamais pensar sobre nada disso, nunca. E nos momentos de tédio, que são quase todos os momentos, temos hoje Facebook, Twitter e Instagram para aprofundar o tédio a um ponto tal, que nem percebemos que estamos entediados, pois estamos chapados de dopamina e serotonina. Achamos que isto trará algum sentido de felicidade.

Não trará; não há felicidade.

Como ser feliz sabendo o que sabemos sobre a vida? Que no Brasil de 2018 um bando de idiota ganha rios de dinheiro elogiando gente como os ditadores Médici e Geisel, que hoje sabemos, eram quem autorizavam o assassinato de adversários políticos, conforme revelado pelos arquivos abertos da CIA e descoberto pelo pesquisador de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Matias Spektor. Em suas palavras, é o relatório mais perturbador que já leu em 20 anos de pesquisa. Ainda assim há quem saiba de tudo isso e continue afirmando que isto é ótimo. E pior, com Camus, somos levados a terrível percepção de que é assim, sem nenhuma catarse oculta, que virá no futuro. Esqueçam a ideia infantil de que sofremos para que nossa vitória seja mais saborosa. O futuro é incerto, a vitória pode nunca vir, e se vir, você pode ter morrido até lá. O que  fazer então senão enfiar um tiro no meio da testa e abandonar essa sacola de pus que virou o Brasil?

Primeiro, diria Camus, aceitar o Absurdo. A vida é assim, sempre foi e sempre será. Sempre houve e haverá gente escrota, disposta a bater palma para assassino, para fascista e, Absurdo supremo, temos que interpretar nossos papeis sociais e controlar nossas vontades quase instintivas de esmurrar esses sujeitos, pois do contrário, você ainda acaba a história como o errado da situação, e preso. A vida é isto, portanto, e não há sentido para que seja assim; apenas é. De toda forma, encarar as coisas como se desenham exige coragem de não olhar para um passado mítico onde tudo era melhor, nem para um futuro utópico onde tudo magicamente melhora, expresso na famosa frase mais sem sentido possível, “não se preocupe, tudo ficará bem“.

O que nos resta é a afirmação da razão – a mesma que descobriu o Absurdo – e através da razão – de nossos próprios pensamentos – dizer sim as nossas vidas e exigir de nós mesmos um compromisso com uma vida digna, hoje, em meio a fascistas, machistas, racistas e outros canalhas. A parte mais bonita disso tudo é que se não há um sentido anterior a nossa existência a ser perseguido ou lembrado, significa dizer que através de nossas vidas podemos criar este sentido, mas apenas se colocarmos nossa razão a serviço disto. Se pensarmos com carinho e cuidado sobre nossas vidas sem ilusões infantis, mas de modo altivo e maduro.

Porque sejamos francos e honestos. As chances do povo brasileiro eleger um Congresso pior do que este que temos, junto a um presidente desumano, ignorante, misógino, racista, homofóbico, desinformado, imaturo e fascista são gigantes. Se deixarmos para viver amanhã, temos que começar a pensar que este amanhã pode chegar apenas em 2022. Isso se estivermos vivos até lá, pois nunca nos esqueçamos, o futuro nos reserva a morte da carne.

A hora de viver é agora, hoje, pensando, pensando e pensando muito sobre nossa própria vida e em como viver de outras formas, que não estas que nos exigem entregar nossas vidas em troca de pagar as contas do mês. Eu só não sei como, porque viver é difícil e não tem receita de bolo. Meu papel era te deixar mal, angustiado, triste, na esperança de que você faça algo bom com essas coisas todas.

Mas é possível, creia.

 

 

 

Participe da conversa! 5 comentários

  1. Tristes estamos, não há duvida. Mas quando vejovozes indígenas se levantando, me animo bastante, porque sou indigena afrodescendente. Sou negra africanizada, neta de tribo guerreira. Prá nós não há passado mítico. Prá nós é guerra e resistência sempre. Pelo sangue de nossos povos, levante e ande. Conosco. Porque o agora da vida pede que assim seja.

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  2. Relação causa efeito, determinismo, reflexo do ambiente onde se é criado… existe um indeterminado conjunto de causas que contribuíram, e contribuirão, para o atual estado da sociedade brasileira no período contemporâneo. Apesar dos sucessos alcançados, devido a evolução socioeconómico e suas derivações, é visível e notório o estrangulamento, cada vez mais acentuado, nas condições da população numa escala vertiginosa decadente. Todo este declínio é corroborado pela incapacidade governamental. De A à Z o corredor do poder e suas ramificações estão presas a um paradigma viciado, onde ser representante político passa a ser um privilegiado que luta pelos interesses partidários numa envolvência solidária dentro do seu núcleo de interesse; onde a promiscuidade entre poderes (públicos e privados) delapidou, e delapida, o erário público. Este modelo de governação destrui o motor que propulsiona o desenvolvimento socioeconómico, que se chama Confiança e Esperança. O Brasil necessita passar por uma revolução cultural, a exemplo da França. O intelecto deve se sobrepor a interesses mesquinhos. O Brasil é um gigante entorpecido.

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