A Venezuela é um país com problemas até dizer chega. A inflação no país chega a pornográficos 13.864%, o FMI (Fundo Monetário Internacional) afirma que a Venezuela provavelmente fechará 2018 com uma queda de 15% no PIB (Produto Interno Bruto), após cinco anos seguidos de queda. Uma crise humanitária se instalou na Venezuela: seus cidadãos fogem para os países vizinhos em busca de uma vida melhor, e os que ficam encontram mercados vazios. Estima-se que 90% da população viva na pobreza e que os venezuelanos tenham perdido 15 quilos em média por causa da desnutrição.

Mas não sei se é o caso de falar em crise democrática. Vamos nos lembrar de George Galloway (Dundee, Reino Unido 16 de agosto de 1954), escritor e político britânico, dando aquela pedrada que você ama e respeita em um aluno de Oxford, que se meteu a falar groselha, como se ao invés de estudar em uma das mais prestigiadas universidades do mundo, tivesse passado alguns minutos na página do MBL.

Nos longínquos anos de 2012, quando Hugo Chavez ainda era vivo, Jimmy Carter, ex presidente e militar norte americano, afirmou que as eleições na Venezuela eram as mais perfeitas que ele já havia visto. Melhor inclusive que qualquer eleição norte americana. E com um detalhe: Carter disse o que disse, porque estava acompanhando o processo ao vivo, não pela TV nem pelos jornais. Nem pelas páginas que hoje chamam o Facebook de comunista, por diminuir o alcance de fake news.

O fato de que as eleições na Venezuela seguem – ou seguiam – o rito democrático quer dizer que o governo de Chavez foi excelente, ou mesmo bom? Ou que o governo de Maduro é excelente ou bom? Não, obviamente. Isso quer dizer apenas que precisamos, urgentemente, compreender alguns conceitos sobre política. Um deles em especial: o conceito de soberania popular.

É Foucault quem nos ensina em seu curso de 1979, Nascimento da Biopolítica, sobre os limites internos e externos da democracia, logo em uma das primeiras aulas daquele ano. Como limite interno os governadores possuem a legislação de seu país, pois ao contrário de como ocorria durante as monarquias absolutistas, após a tripartição dos poderes reais em legislativo, executivo e judiciário, o governante passa a ser vigia tanto quanto vigiado. Por um lado ele tem olhos e poderes administrativos, mas por outro ele não tem a liberdade de agir de modo contrário a lei. É por ler Foucault que eu coço a cabeça quando vejo aquele discurso fácil e burro de que o dinheiro gasto com corrupção poderia ir para saúde e educação; não é tão fácil assim. Primeiro é preciso saber se aquela verba desviada estava alocada em um setor público que permitisse ser transferida para outro. Por exemplo, a verba que vem do governo federal que é destinada a pasta de cultura de um município, precisa ser alocada para este fim. Caso não seja, ela volta para o governo federal: não é possível transferir para a educação como o povo pensa. E é assim porque existem leis administrativas que proíbem. Fazê-lo é crime administrativo.

O limite externo é aquele que corre a revelia do poder do governador: a economia. Corre por fora porque são tantas as variáveis e nem todas estão ao seu alcance gerenciar. Um presidente não pode gerenciar portanto uma crise imobiliária fora de seu país, mas certamente sofrerá com ela, se esse país for os EUA. De qualquer forma, o que Foucault quer nos dizer é que um governador precisa agir com um intento em mente: a economia doméstica precisa crescer. Todo ano o PIB do país precisa subir, rumo ao infinito. E se não for assim, o governador perde sua credibilidade. O governador está preso a índices econômicos e lhe resta governá-los. Como se faz com uma empresa, mas com um problema, Estado não é propriedade privada. O nome é República Federativa do Brasil, não Brasil S.A ou Brasil LTDA, mesmo que alguns políticos desejassem que fosse. Aqui se você pensou João Doria, Flávio Rocha ou João Amoedo, pensou certo.

O que resta portanto, é determinar a economia como o fiel da balança para o governador. A economia sobe, ele é bom, a economia para, ele é regular, a economia decresce, ele é ruim. Segundo este critério – e talvez muitos outros – Nicolás Maduro é um péssimo governador. Um dos piores do mundo talvez. Mas isso quer dizer, necessariamente que ele é um ditador ou que sua eleição foi uma fraude? Não sei.

Primeiro porque eu desconfio, e desconfio bastante da cobertura que nossa imprensa da a seu governo. As manchetes de seus erros são enormes. Mas quando os donos dos mercados esconderam comida da população para que a crise se agravasse, eu não li em nenhum jornal sobre o assunto. Mas vamos lá, supondo que não seja o caso. O segundo ponto que me interessa é o fato de que eu nunca fui a Venezuela. E eu nunca esqueço o conselho\paulada do escritor cubano Leonardo Padura, deu a uma jornalista brasileira quando participou do programa Roda Viva:

Um conselho muito sábio: evitar falar de uma realidade na qual você não está inserido. Mesmo assim, meio que contrariando um poquitito só Leonardo Padura, eu acredito que precisamos ter em mente que, apenas porque um governo é péssimo, como provavelmente o de Maduro o seja, não significa que lá não exista democracia. E que quem decide qualquer coisa a respeito de Maduro é, em última análise, o povo venezuelano. Não é o Guilherme Boulos nem a fascistada do MBL. É o povo venezuelano. E digo o povo, não um indivíduo aqui e ali que a nossa imprensa pinça para falar nos microfones da Globo ou em algum canal de Youtube qualquer. O povo, porque ele é soberano, sempre.

Então que os EUA não reconheçam a sua reeleição, nada significa, principalmente porque sabemos eu e você, que os EUA estiveram entranhados em nossa ditadura militar, que assassinou e torturou como método de governo. O reconhecimento de um país como este não me diz lá muita coisa. Que o Brasil não reconheça as eleições venezuelanas, ora, vá a merda. Desde quando Temer tem condições de falar em democracia após conspirar a céu aberto para derrubar, via golpe parlamentar, sua presidenta? A Argentina de Macri também não me parece exemplo de legitimidade após o calote que ele deu no povo argentino após se eleger prometendo o paraíso neoliberal e entregar ao seu povo mais um empréstimo do FMI.

Concordo que países como Canadá ou México não reconhecerem as eleições venezuelanas pesa muito. De qualquer modo, o texto tem como fundamento nos fazer refletir que democracia não vale apenas quando ganha o seu candidato. Eu falava com uns colegas que o discurso já estava pronto: se a oposição vencesse, as eleições seriam validadas e a Venezuela seria uma democracia linda e perfumada. Como Maduro venceu, ela é um regime fascista-comunista-bolivariano comedor de criancinha.

Precisamos entender um pouco melhor sobre um regime tão frágil como o democrático, que é maravilhoso exatamente porque te ensina a perder tanto quanto a respeitar o derrotado. Acredito que antes de berrar “mas e a Venezuela?”, seria legal lembrarmo-nos de Aécio Neves tentando desvalidar as eleições de 2014. Logo ele, o primeiro a ser comido, amigão do senador Perrella, aquele, dono do helicóptero com 500 quilos de pasta base de cocaína. Aécio, aquele que pediu para usar de laranja uma pessoa que pudesse matar antes de delatar: o primo.

Se for para falar de governo injusto, ilegítimo, precisamos começar pelo nosso rabo e falar do Temer. Não para lacrar nos comentários que ninguém se lembra meia hora depois de ler, mas para repensar nossa democracia que é estuprada de tempos em tempos. E que os venezuelanos se virem com seus problemas. Quando, ou se nos pedirem ajuda, veremos o que poderemos fazer. Senão, não.

E não se esqueça nunca, afinal: 99% das vezes, ninguém pediu sua opinião.

 

 

 

 

Participe da conversa! 1 comentário

  1. OS FALSOS PATRIOTAS
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2016/03/18/os-falsos-patriotas/

    … …Falsos patriotas que se enrolam na nossa bandeira, usam e usurpam de nossas cores e de nossos símbolos e nos vendem, nos entregam, nos traem, todo dia, toda hora, todo minuto, a cada segundo.

    Falsos patriotas, fascistas e radicais, que espalham ódio, que destroçaram ao longo de vários meses, a economia e a paz de nossa nação e de nosso trabalho.

    Falsos patriotas, sabotadores da nação, sabotadores da pátria, canalhas agrupados em quadrilhas covardes e espúrias. … …

    Curtido por 1 pessoa

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