Sou um filósofo a moda antiga, tal qual Habermas. Penso que a tarefa da filosofia é cada vez mais voltarmos as perguntas que Kant nos deixou como herança. Questões como o que é possível saber?, o que devo fazer?, o que me cabe esperar? e o que é o ser humano?, são perguntas que se não são, deveriam ser, objeto de estudo e análise da comunidade filosófica.

Responder a cada uma delas levaria uma vida, e provavelmente não responderíamos corretamente. Precisamos começar a imaginar que talvez o ser humano não seja inteligente o suficiente para arcar com essas perguntas filosóficas. Podemos descobrir como levar um ser humano a Marte, mas não o que devo fazer nesta Terra abandonada por Deus. Talvez a resposta não exista, precisa ser criada, mais ou menos ao modo deleuziano, para quem filosofia se cria, ao invés de se descobrir. De todo modo, penso que este esforço é válido, mesmo que seja incompleto.

Se não é razoável pedir que um texto na internet responda o que é possível saber e o que podemos esperar, penso que um recorte menor, beeem menorzinho, seja razoável. O que podemos saber e esperar sobre a greve dos caminhoneiros?

Primeiro que o problema se mostrou mais complexo do que gostaríamos todos. De modo muito semelhante ao ocorrido em junho de 2013, o atual processo passa pelo sequestro de pauta, ou seja, o que começou com uma greve pedindo redução do óleo diesel, está se tornando uma manifestação popular conjunta com a greve pela renúncia de Temer, somatizados a pedidos de intervenção militar (o paradoxo dos paradoxos: pedir intervenção militar em uma greve) ou mesmo, em alguns casos mais raros, a volta da monarquia.

Lembro que em junho de 2013 a pauta dos vinte centavos do transporte público virou rapidamente um grito contra todo o sistema político, que curiosamente acabou elegendo congressistas envolvidos em casos de corrupção, bem como o Congresso mais reacionário desde 1964, ano que iniciou a ditadura militar. Minha primeira preocupação é que estas pautas difusas, movidas por uma sociedade machucada, acabe produzindo coisa pior do que se pede. Que a justa reivindicação da classe operária – dos motoristas, no caso – se torne o estopim para o fim da democracia e a suspensão das eleições. Creia, por favor, que este cenário é altamente provável. Além de uma proto-intervenção militar realizada no Rio de Janeiro sem o resultado esperado – as estatísticas contra violência não mudaram para melhor – o Senado aprovou  um projeto que define as regras para a eleição indireta, pelo Congresso Nacional, do presidente e do vice-presidente da República em caso vacância nos dois últimos anos do período presidencial.

Não me parece absurdo supor que as manobras que estão ocorrendo neste momento contra o pior presidente de nossa história, tenha como objetivo, entre outras coisas, a continuação do golpe jurídico-parlamentar, e a suspensão de eleições diretas sob o argumento de “pacificação da nação“. E, delírio dos delírios, o povo brasileiro aceitaria de muito bom grado a suspensão das eleições, o fim da democracia. Temos pouquíssimo apreço por política de verdade, pela democracia em si, e flertamos gravemente com o autoritarismo: desde as relações parentais do tipo “pai manda, filho obedece”, até as relações escolares que dizem que “aula boa, é aula onde o professor manda e o aluno obedece”, passando pelas relações trabalhistas: “patrão manda porque tem dinheiro, proletário obedece porque é pobre”.

Em todos os casos acima, estão descritas as relações ideias para os padrões brasileiros.

O brasileiro, normalmente, tem dificuldade de mobilizar argumento para convencer alguém por outro método que não o uso da força. O argumento que mais ouvi na vida foi “faça do jeito que estou mandando, porque estou mandando”, e fim. O brasileiro médio parece não exigir de si nem do outro, uma justificativa racional e plausível para o que faz ou deixa de fazer. Exceção feita as crianças ou adolescentes, para quem o mundo ainda é mistério e descoberta.

A segunda coisa que podemos saber é que o povo brasileiro, via de regra, está pouco se lixando para pautas que não falem exclusivamente de si. Que uma onda maciça de apoio seja oferecida, merecidamente, aos caminhoneiros, mas não seja igualmente oferecida aos professores quando em greve, revela que gasolina vale mais que leitura e educação. E não aceito talvez aqui: 30% dos brasileiros nunca leu um livro na vida e metade dos brasileiros não tem o hábito de ler. Mesmo entre os que lê, metade leu apenas a Bíblia ou livros religiosos e entre a lista de livros mais lidos aparece obras como 50 Tons de cinza, Diário de um Banana, e livros de culinária, mas não aparece nenhum Gógol, nenhum Albert Camus, nenhum Gabriel Garcia Marquez. Nenhum autor clássico da literatura, daqueles que explode nosso cérebro, aparece.

Não que os livros citados não tenham valor: eles o tem. Mas creio, todos concordam que o valor literário de 50 Tons de cinza, é um; o valor de 120 dias em Sodoma, de Donatien Alphonse François, conhecido também como Marquês de Sade, é outro. É possível ler ambos, sem problemas; a pergunta é porque sempre o primeiro, quase nunca o segundo?

Porque, repito, o brasileiro não tem lá muito apreço pela cultura, ao contrário, dela faz pouco caso. Você já deve ter escutado em rodas de conversa no churrasco do domingo, alguma piada com o primo/tio/amigo/vizinho/etc que estuda, estuda, estuda e ninguém sabe porque. Coisas como “porque fulano gasta tando dinheiro com cursos?” Se o curso do fulano não for voltado para o trabalho, para aumentar a renda, é como se o cérebro do brasileiro entrasse em curto. “Como assim? Quer dizer que alguém estuda apenas por estudar? Sem receber um aumento por isso? Céloko!”

Isso se reflete nos hábitos de consumo. O preço atual de um ingresso a um jogo de futebol se equipara a um ingresso ao teatro. Pergunte ao seu amigo no escritório quando foi a última vez que ele foi ao teatro e quando foi ao estádio. Mais uma vez: vá ao estádio. Agora, porque também não ir ao teatro? Grana, não da mais pra servir como resposta.

Daí que o país aceita paralisar o país, pagar o dobro, o triplo, o quádruplo em itens básicos como comida e bebida e faltar serviço por falta de combustível, mas não apoia professor em greve. A mensagem é clara e horrível: posso passar sem educação, aliás, infelizmente muitos já vivem sem ela, mas quero pagar o mínimo possível no litro da gasolina. Entre educação de qualidade e o tanque cheio, a resposta nem precisa ser dita.

O que podemos saber portanto desta greve, além de sua legitimidade e o problemático sequestro de sua pauta, é que existe um perigo real de suspensão democrática com aplauso popular de um povo que não tem o mesmo apreço pela educação do que tem pelos itens de consumo. Que militares, ou os ditadores da vez, lhes cuspa na cabeça, torture, mate, e suma com o corpo de alguns poucos escolhidos como inimigos da pátria – provavelmente com os petistas/psolistas/comunistas/esquerdistas/socialistas – desde que o preço do iPhone diminua, que os impostos desapareçam. A pauta parece clara para a maior parte do povo brasileiro: “quero meu toddynho sem imposto”. E foda-se o resto.

Você não precisa ser um gênio da filosofia política para saber que vai dar merda. E pior: não há, a curto prazo, nenhum mínimo sinal de melhora. Se você crê em Deus, é uma boa hora para fazer as pazes com o Dito Cujo. Porque a coisa vai feder.

 

Participe da conversa! 1 comentário

  1. ESQUELETOS NO ARMÁRIO
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/05/29/esqueletos-no-armario/

    … …Nesses tempos de falta de memória e “caranguejismo explícito”, o Professor Carlos Zacarias vem nos lembrar, com base nas últimas revelações vindas do império do Norte, as agruras da nossa mais recente ditadura. RETROCESSO NUNCA MAIS !

    ESQUELETOS NO ARMÁRIO

    Não eram 111 presos indefesos, provavelmente não eram todos pretos, nem quase pretos de tão pobres, mas eram todos presos políticos, exatos 104. Todos, sumariamente, assassinados. Mas não nos porões e nem mesmo pelo “guarda da esquina”, a quem Pedro Aleixo, vice-presidente do general Costa e Silva, dizia temer quando da decretação do AI-5. Foram executados pelo Estado brasileiro, com autorização do chefe do Executivo, cuja ditadura, implantada em 1964, completava sua primeira década. Ainda haveria uma outra década, mas poucos sabem quantos mais morreram. … …

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