Aretê é a palavra grega para virtude. Significa, ao pé da letra, excelência, e é bem diferente do que o brasileiro entende por virtude. Os gregos tinham como ideia para virtude o confronto entre indivíduos que a princípio não tinham vantagens sobre o outro que não a aptidão individual. Daí nasceram as Olimpíadas gregas como demonstração de virtude em honra aos deuses e também em honra própria e também a ideia platônica que ele coloca em seu diálogo, República. Nele Platão defende o regime aristocrático como melhor governo para a cidade/pólis grega. Porque? Por dois motivos: primeiro porque seu mestre, Sócrates, foi morto em uma democracia, na medida em que Atenas pode ser chamada de democracia. Ou seja, este regime político não impede que os aplicadores da lei cometam arbitrariedades motivados por obtenção de vantagens políticas contra cidadãos. O segundo motivo é descrito mais ou menos assim: se você não escolhe para pilotar o avião no qual você vai viajar através do voto da maioria, mas sim pelo critério da capacidade, porque para governar uma cidade seria diferente? Deveria-se escolher o aristói, aquele que possui virtude, e portanto excelência, para o governo da cidade, assim como fazemos para escolher aquele que pilota um avião.

Entretanto nós, latinos estamos mais próximos da definição de virtude dada por Maquiavel em sua carreira como pensador político: virtude, ou apenas virtú, para o florentino é a habilidade de agir da maneira certa no momento certo. Em outras palavras, é aquela capacidade de conseguir se dar bem independentemente das circunstâncias. Neymar é um jogador virtuoso porque através de suas jogadas traz a vitória para seu time/seleção, seja driblando o marcador, seja simulando um pênalti gritando e rolando pelo chão como se tivesse sido estuprado por porcos.

E falando de futebol… virou há muito tempo lugar comum dizer que futebol é mais que um esporte. E é verdade. Eduardo Galeano tem um livreto bacana sobre o assunto, Futebol ao sol e a sombra, e Juca Kfouri, quando faz as vezes do cientista social que é, afirma que não confia em sociólogo que nunca tenha sentado em um estádio de futebol. Porque de fato, é mais que um esporte.

O Brasil – e também o mundo – tem uma relação muito complexa com o esporte. Há amores e paixões violentas que giram ao redor de um estádio, de um clube, de um jogador. Há milhares de vídeos de crianças e adolescentes chorando por ter conseguido uma foto com CR7 ou Messi. Histórias de casais que se conheceram ou se separaram por causa dos clubes que torcem. E assim como as pessoas amam com o futebol, também se matam: são muitos os casos de briga e massacre em estádios por causa de derrota ou rebaixamento de um clube. Torcedores invadem o campo e a concentração do seu clube do coração agredindo, amedrontando ou apenas cobrando uma explicação plausível de como pode ser possível tantas derrotas.

O futebol suspende a razão, as vezes a coloca a serviço de outras forças, e promove situações fantásticas como as imagens internet afora de jogadores tirando carinhosamente cães de dentro do campo, se unindo por uma causa nobre, ajudando uns aos outros, mesmo que rivais sejam. Na partida entre  Portugal e Uruguay ficou famosa a imagem de CR7 ajudando Cavani a sair de campo após o uruguaio se lesionar. Cavani, todos sabem, carimbou o passaporte dos lusos de volta para casa, mas mesmo assim foi ajudado por aquele que derrotou. Podem dizer que Cristiano Ronaldo apenas queria evitar que Cavani saísse a passos curtos, fazendo passar o tempo. Ainda assim, o derrotado estendeu a mão e ajudou o seu algoz, e isso tem seu valor.

Porém quando dizem que futebol é mais que um esporte costumam olhar beeem de perto para os exemplos bons, como os já citados. Esquecem muito convenientemente que Fifa e CBF, para ficar em dois exemplos, são duas das instituições mais corruptas do MUNDO. Seus dirigentes e presidentes estão presos ou sob investigação por múltiplos crimes, mas resumindo, todos eles giram em torno de milhões de dólares e, não podemos deixar de notar, o modo como estes milhões de dólares interfere na geopolítica mundial.

Quando um país recebe a Copa do Mundo e outro não, o mercado financeiro sabe onde irão desaguar milhões de dólares em infraestrutura e turismo. Recebem um cronograma de onde investir com retorno certo. Forças políticas internas desses países ganham ou perdem força quando isto ocorre. E ninguém acha estranho que países que REALMENTE precisam de apoio da comunidade internacional bem como investimento externo nunca sejam sequer cogitados para sediar o evento? Ásia e África possuem dezenas de países nessas condições que nunca sediaram e jamais sediaram uma Copa. No ano 5 bilhões e 18, quando o Sol explodir e o mundo finalmente acabar, ainda assim o Paquistão não terá nem chegado perto de receber a Copa do Mundo, que até lá não será mais com seleções com nomes como Brasil e Dinamarca. Acredito que muito em breve os países passaram a se chamar IBM, Apple, Coca-Cola, Starbucks, de modo que a final da última Copa do Mundo será entre Friboi e Volkswagen. Spoiler: Wolks vence por 7 a 1 a Friboi.

Os mesmos países cediam o evento bem como as mesmas seleções disputam, de verdade, o evento. Ou alguém REALMENTE acha que Rússia leva a taça? Ou que Costa Rica e Islândia foram participar da Copa acreditando de verdade que levariam o caneco?

O mesmo vale para as competições locais. No Brasil os clubes com maior renda são os favoritos. Ter uma boa relação com o governo federal ou com emissoras de TV como é o caso de Corinthians e Flamengo ajuda, e muito. Fora do país não muda. A disputa espanhola fica entre Barcelona e Real Madrid. Na França a disputa é entre os moradores locais para saber como o PSG levará o título nacional. E etc, você entendeu.

Claro que eventualmente algo sai do roteiro e um clube menor, o David no meio dos Golias, vence alguma coisa. Como quando o Corinthians ou São Paulo venceram o Mundial Interclubes. Mas é raro, o normal é o Grêmio ou o Santos sendo espancado em rede mundial por algum clube europeu com verba virtualmente infinita. Ademais, todos sabem, a esperança é um sentimento terrível: ele nos faz ficar em pé apanhando até a derrota, quando deveríamos ter ido pra casa tomar sorvete de morango em paz e tentar entender a linha do tempo de Dark.

Isso tudo sem falar nos casos de corrupção no esporte. Falo de clubes combinando resultado, comprando juízes, de líderes de torcida organizada que também fazem parte do crime organizado. O futebol é mais que um esporte sim, mas os problemas são muito mais tóxicos e complicados que suas benesses.

E antes que me digam que futebol não se resume a CBF, a Fifa ou a seus equivalentes locais, eu digo que sim, se resume sim. Acabe com essas federações todas e acaba o futebol junto. Em cinco anos o mundo, tristemente estará acompanhando pela TV outro esporte, o Futebol Americano, que como sabem, é o esporte mais chato do mundo depois do Tênis.

Deixa eu dizer pra você que futebol só é essa coisa toda porque está na TV dezenas de horas por dia ou nas redes sociais de modo onipresente, porque o dinheiro que gira em torno dele é gigantesco. E é gigantesco porque as federações nacionais e internacionais do esporte montaram esta estrutura e com ela lucram. Sem federação, não há Brasil pentacampeão nem Taça Libertadores da América. Esqueça a Champions também.

O futebol reproduz de modo muito intenso as desigualdades que vemos no mundo. E como se isso não bastasse, no nosso Brasil brasileiro, ainda faz nascer o pior em cada um de nós: seja xingando e brigando por causa de um clube, seja idolatrando um ator que sonega imposto. Falo do Neymar, caso não tenha ficado claro.

Se, quem sabe, o futebol voltasse a ser apenas um esporte, eu e mais um monte de gente voltariam a assistir jogos. E olha que o Brasil tem precisado de gente se interessando por futebol: saiu no site da Folha de São Paulo que “segundo pesquisa Datafolha realizada de 29 a 30 de janeiro de 2018, 41% dos entrevistados disseram não ter interesse por futebol. O índice é dez pontos percentuais maior que o de pesquisa realizada em abril de 2010, a última que abordou esse tema.” De cada dois brasileiros, aproximadamente um, está cagando para futebol.

Então fica assim, futebol não é só um esporte. Mas seria melhor se fosse.

 

 

Participe da conversa! 7 comentários

  1. Professor, acho que há algo de errado nessa frase:
    “Ásia e África possuem dezenas de países nessas condições que nunca sediaram e jamais sediaram uma Copa”

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  2. Essa frase ficou meio confusa pra mim:
    “Os mesmos países cediam o evento bem como as mesmas seleções disputam, de verdade, o evento.”
    “Cediam” do verbo “ceder”?

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    • A frase está correta e clara quanto ao verbo: sediar é servir de sede, acolher, segundo o Houaiss – No (meu) Aurélio não aparece, talvez por ser bem velho. Já ceder com c é outra coisa, ou seja, transferir (a alguém) uma posse ou direito (Houaiss) e não acho que traga sentido à frase. A meu ver o único problema da frase é quanto ao segundo “sediaram” que devia estar no futuro: “sediarão”, mas isto é por força da oralidade que faz com que o pretérito perfeito e o futuro do presente nas terceiras pessoas do plural sejam quase idênticas: “sediaram e sediarão”, mas também é um mínimo em relação ao valor do texto, o qual considero excelente.

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    • Oi Anderson, aqui também para mim o verbo “ceder” não está muito claro – talvez tenha sido um descuido da memória, o que é normal passar quando escrevemos – contudo o tema do texto e a força como ele escreveu valem mais do que um lapso.

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